Copa do Mundo 2026

Estados Unidos 1 x 4 Bélgica: Apostas inesperadas premiam belgas e castigam donos da casa

Rudi Garcia deixa De Bruyne, Doku e Lukaku no banco, vê coletivo responder e elimina anfitriões com autoridade

As decisões mais corajosas costumam ser as mais cobradas. Antes da bola rolar em Seattle, Rudi Garcia surpreendeu ao deixar Kevin De Bruyne, Jérémy Doku e Romelu Lukaku no banco de reservas. Se havia dúvidas sobre a escolha, elas desapareceram ao longo dos 90 minutos. Com uma atuação intensa, organizada e coletiva, a Bélgica fez sua melhor apresentação na Copa do Mundo e venceu os Estados Unidos por 4 a 1, garantindo vaga nas quartas de final.

Sem depender de seus nomes mais badalados, os Diabos Vermelhos encontraram uma dinâmica que ainda não haviam mostrado no torneio. Pressionaram alto, recuperaram bolas no campo ofensivo e sufocaram os norte-americanos desde os primeiros minutos. O resultado foi uma classificação construída muito mais pelo funcionamento do conjunto do que pelo brilho individual.

Do outro lado, os Estados Unidos viveram justamente o oposto do que haviam apresentado até aqui. Depois de uma fase de grupos consistente, marcada por organização e competitividade, a equipe de Mauricio Pochettino não encontrou respostas para a intensidade belga. O desempenho abaixo do esperado culminou na pior atuação dos anfitriões no Mundial e no adeus precoce ainda nas oitavas de final.

Estados Unidos x Bélgica: como foi o jogo?

Organização, alta intensidade (com e sem bola) e coragem para jogar: o início forte da Bélgica chamou atenção e colocou os Estados Unidos nas cordas. Só um time via bola, e o placar não demorou a ser inaugurado. Trossard recebeu na linha de fundo, cruzou da esquerda e viu Freeman afastar mal. Raskin aproveitou, bateu cruzado e encontrou Charles De Ketelaere, que só empurrou para o gol vazio. 

A equipe da casa não reagiu bem ao gol e seguiu “perdida” em campo. Mas através da bola parada, arrancou o empate. Tillman cobrou falta perto da meia-lua, a bola desviou em Vanaken (um dos homens da barreira) e matou Courtois. Parecia ser o empurrão para os norte-americanos enfim entrarem no jogo. Mas não foi o que aconteceu. 

A mudança de Mauricio Pochettino no intervalo — sacando Sergiño Dest e colocando Giovanni Reyna — deixou o time norte-americano mais ofensivo, porém mais exposto defensivamente. Bastou uma chegada para os Diabos Vermelhos castigarem. Em erro crasso de Matt Freese na pressão de De Ketelaere, o goleiro estadunidense entregou a bola nos pés de Hans Vanaken, que bateu de primeira para o gol vazio.

Lukaku ainda faria o quarto dos belgas. O camisa 9 entrou aos 21 minutos, e nos acréscimos, aproveitou sequência de trapalhadas da defesa norte-americana: chute seco no canto, provocação na hora de comemorar e cereja do bolo para selar a goleada dos Diabos.

Hans Vanaken marcou o terceiro gol belga no jogo
Hans Vanaken marcou o terceiro gol belga no jogo (Foto: Dirk Waem / Icon Sport)

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Estados Unidos x Bélgica: sem estrelas, Diabos Vermelhos encontram melhor versão na Copa

Poucos imaginavam que a melhor atuação da Bélgica no Mundial aconteceria justamente sem seus principais nomes de linha entre os titulares. Rudi Garcia bancou decisões que pareciam impopulares, mas viu sua equipe ganhar intensidade, mobilidade e agressividade desde o apito inicial.

A ausência de De Bruyne, Doku e Lukaku fez a Bélgica perder peso individual, mas ganhar um coletivo muito mais fluido. A pressão pós-perda encaixou, a circulação de bola foi mais rápida e o time conseguiu acelerar as transições com muito mais frequência do que nas partidas anteriores.

Um dos maiores beneficiados foi Dodi Lukebakio. O atacante já vinha dando sinais de que merecia uma oportunidade entre os titulares e aproveitou a chance. Incansável na recomposição e sempre oferecendo profundidade pelo lado do campo, ajudou a manter a defesa norte-americana sob pressão constante.

Mas o grande nome da noite foi Charles De Ketelaere. Atuando como uma espécie de falso 9, o jogador confundiu a marcação ao alternar movimentos dentro e fora da área. Quando recuava, atraía os zagueiros e criava espaços para infiltrações dos companheiros. Quando permanecia como referência, mostrou o oportunismo esperado de um centroavante.

Os dois gols coroaram uma atuação completa, mas resumir sua partida apenas aos números seria injusto. De Ketelaere participou da construção das jogadas, pressionou a saída adversária e foi decisivo para transformar o sistema ofensivo belga em algo muito mais imprevisível do que vinha sendo.

Rudi Garcia manterá ‘revolução’ contra a Espanha?

A classificação coloca a Bélgica diante de um desafio ainda maior. Nas quartas de final, os Diabos Vermelhos terão pela frente a Espanha, que eliminou Portugal ao vencer por 1 a 0, em Dallas.

A atuação diante dos Estados Unidos inevitavelmente levanta uma pergunta: Rudi Garcia manterá o time que deu tão certo ou devolverá espaço às estrelas?

O contexto da partida pode favorecer novamente uma equipe veloz e intensa. A Espanha dificilmente abrirá mão da posse de bola e deve controlar boa parte das ações, cenário que pode oferecer à Bélgica oportunidades para explorar transições rápidas — exatamente o ponto forte da formação utilizada em Seattle.

Ao mesmo tempo, confrontos desse tamanho costumam ser decididos por jogadores capazes de produzir algo fora do roteiro. E poucos atletas no futebol mundial possuem esse repertório como Kevin De Bruyne. O mesmo vale, em menor escala neste momento da carreira, para Romelu Lukaku, cuja experiência em jogos grandes ainda pesa.

A vitória sobre os Estados Unidos mostrou que Rudi Garcia encontrou uma alternativa extremamente competitiva. Agora, caberá ao treinador decidir se a manterá diante da principal favorita ao título ou se recorrerá novamente ao peso de seus medalhões. Seja qual for a escolha, ela voltará a estar no centro das atenções — e talvez defina até onde a Bélgica conseguirá ir nesta Copa do Mundo.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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