Como a Espanha calou críticos após estreia decepcionante na Copa do Mundo e foi à final
Seleção de Luis de la Fuente saiu pressionada após empate na estreia, mas respondeu com mudanças sutis que transformaram o desempenho e a levaram à final
A Espanha entrou na Copa do Mundo de 2026 cercada por expectativas. Atual campeã da Eurocopa e dona de um dos elencos mais talentosos do torneio, a equipe de Luis de la Fuente aparecia entre as favoritas ao título. Bastou, porém, um empate sem gols contra Cabo Verde na estreia para que antigas críticas ressurgissem: muita posse de bola, pouca objetividade e dificuldade para transformar domínio territorial em chances claras.
A resposta veio dentro de campo. Nas partidas seguintes, a Espanha reencontrou sua melhor versão, classificou-se para o mata-mata e convenceu novamente. Na semifinal, dominou o melhor ataque da competição e eliminou a França.
Agora, os espanhóis chegam à final como favoritos que dominam de forma silenciosa — mas precisaram estar na decisão para apagar a imagem ruim que a estreia deixou. A campanha de La Roja, no entanto, foi muito mais segura do que a impressão deixada.
A posse continua sendo a identidade da Espanha, mas serve para criar espaço
A vitória 4 a 0 logo na segunda rodada, contra a Arábia Saudita, depois o por 3 a 0 sobre a Áustria nas oitavas sintetizou essa evolução: controle da posse, mas também agressividade, ataques pelos corredores laterais, infiltrações constantes e um repertório ofensivo muito mais variado do que aquele apresentado no primeiro compromisso da competição.
Mais do que melhorar tecnicamente, a seleção espanhola mostrou que aprendeu com as frustrações recentes em Copas do Mundo. O time segue fiel ao futebol associativo que caracteriza o país há mais de uma década, mas agora parece muito menos refém da circulação estéril da bola. Em vez de monopolizar a posse apenas por controle, a Espanha passou a utilizá-la para desorganizar o adversário antes de acelerar.
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A principal evolução da Espanha está na forma como utiliza a posse: o objetivo deixou de ser simplesmente controlar o jogo e passou a ser provocar deslocamentos defensivos para atacar os espaços criados.
Contra a Áustria, por exemplo, a equipe terminou com 64% de posse e 90% de precisão nos passes, mas o número mais importante foi outro: 23 finalizações contra apenas cinco do adversário. A posse deixou de ser um fim em si mesma e voltou a ser uma ferramenta para produzir volume ofensivo.
Boa parte dessa mudança passa pelo meio-campo. Rodri continua sendo o organizador da equipe, mas agora recebe muito mais apoio de Pedri, Fabián Ruíz e Dani Olmo em movimentações verticais. Em vez de apenas oferecer linhas curtas de passe, ambos procuram constantemente receber entre as linhas e acelerar a jogada.
Isso também diminui a previsibilidade da circulação espanhola. Se antes os adversários conseguiam simplesmente fechar o corredor central e esperar erros, agora precisam reagir às constantes trocas de posição entre os meias, pontas e laterais.
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Laterais passaram a ser protagonistas do ataque espanhol na Copa do Mundo
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Se havia uma característica marcante da Espanha na Euro de 2024, era a explosão de Lamine Yamal e Nico Williams pelos lados do campo. Nesta Copa, com Yamal demorando a recuperar a melhor condição física, De la Fuente encontrou outro caminho para gerar superioridade.
Os protagonistas, então, passaram a ser os laterais. Marc Cucurella vive talvez o melhor torneio de sua carreira pela seleção. Constantemente aparece como homem livre no último terço, realizando ultrapassagens por fora e por dentro, confundindo a marcação adversária.
Ao seu lado, Alex Baena fecha por dentro, prende o lateral adversário e abre espaço para Cucurella atacar o corredor. Em outras ocasiões, era o próprio lateral quem fazia a movimentação interior, permitindo que Baena recebesse aberto para cruzar.
Pelo lado direito, Pedro Porro repetiu o comportamento. Em vez de permanecer preso à linha defensiva, atacou constantemente a área como elemento surpresa. Foi exatamente assim que marcou o gol da classificação contra a França: enquanto Yamal atraía a defesa pelo lado, o lateral atacou o meio-espaço para entrar na área e marcar.
A consequência foi uma Espanha muito mais difícil de defender. Se antes bastava controlar os pontas, agora os laterais também se transformaram em criadores e finalizadores.
Oyarzabal virou a referência que faltava para a Espanha
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Outra mudança importante foi o crescimento de Mikel Oyarzabal. Durante muito tempo, a Espanha buscou um centroavante que participasse intensamente da construção, recuando para tabelar e aproximar o jogo. Nesta Copa, porém, Oyarzabal assumiu um papel diferente.
Ele continua participando das combinações, mas permanece muito mais tempo ocupando a área, atacando cruzamentos rasteiros e explorando espaços criados pelas movimentações ao seu redor.
Oyarzabal aparece onde um camisa 9 precisa estar: dentro da área. Os cinco gols marcados até aqui mostram uma equipe que finalmente voltou a transformar domínio em produção ofensiva. Mesmo que seja capaz de recuar, puxar marcadores e criar superioridade numérica na construção — o que faz com frequência –, combinar isso com os ataques à área é o que tem feito de Oyarzabal uma peça crucial para o time.
E talvez a maior evolução espanhola não esteja em nenhuma peça específica, mas na maturidade coletiva. Em 2018, contra a Rússia, e principalmente em 2022, diante do Marrocos, a Espanha monopolizou a posse de bola, ultrapassou a marca de mil passes e terminou eliminada sem conseguir desmontar blocos defensivos compactos.
Luis de la Fuente parece ter aprendido essa lição. Sua equipe continua sendo uma das que mais controla os jogos da Copa, mas hoje alterna velocidade, ataques pelos corredores laterais, cruzamentos rasteiros, infiltrações e transições rápidas quando encontra espaço.
A estreia frustrante serviu como combustível para uma equipe que parecia precisar justamente desse choque de realidade. As críticas voltaram por alguns dias, mas a resposta veio rapidamente — mesmo que o grande público só tenha visto a mudança durante o domínio espanhol sobre a França, até então grande favorita.