Eliminatórias da Copa

Como Sylvinho fez um país que nunca chegou perto de uma Copa sonhar

Técnico brasileiro promoveu revolução na seleção da Albânia a partir de 2023 e colheu frutos

A carreira de técnico de Sylvinho, mesmo que some passagens por Lyon e Corinthians, tem ficado mais marcada por um trabalho em um local diferenciado. Desde o início de 2023, ele comanda a modesta seleção da Albânia, que nesta quinta-feira (26) joga a semifinal da repescagem para a Copa do Mundo de 2026 com a Polônia.

O brasileiro transformou o selecionado do pequeno país dos Bálcãs, criando uma equipe competitiva e que acumula resultados expressivos, apesar de pouca tradição no futebol.

A seleção albanesa nunca jogou uma Copa e só disputou duas Eurocopas, 2016 e 2024. A mais recente já foi sob o comando de Sylvio, em mais um de seus feitos na nação com pouco mais de 2 milhões de habitantes.

Syvlinho conquistou Albânia com decisão de viver na capital

Sylvinho em treino com a seleção albanesa
Sylvinho em treino com a seleção albanesa (Foto: Abaca / Icon Sport)

Ao assumir no ciclo após o Mundial de 2022, o profissional de 51 anos não teve receio de deixar Porto, em Portugal, onde vivia com a esposa e filhos, para se mudar para Tirana, capital albanesa, e mergulhar na cultura e costumes locais.

Assim pôde entender mais facilmente um futebol que não tinha contato, apesar do país ter uma grande influência da Itália, onde o brasileiro foi auxiliar de Roberto Mancini por quase dois anos na Internazionale.

Inclusive, na federação local, são muito utilizados o italiano e o inglês, o que facilitou a comunicação de Sylvinho, que não fala albanês. “Arrisco bom dia, boa tarde, boa noite e mais algumas palavras isoladas”, disse o treinador ao jornal “Estadão” no ano passado.

Ele mergulhou não só em questões futebolísticas, mas também políticas. A região dos Bálcãs é de enorme tensão pelas diferenças étnicas, em especial contra a Sérvia, que não reconhece Kosovo, nação apoiada pela Albânia, de mesma etnia.

— Sobre os conflitos daqui, tivemos que ter o entendimento quando chegamos. Fomos entender, conversar com as pessoas locais, de onde podemos trazer atletas, como se sentem… Faz parte — revelou à “ESPN” em 2023.

- - Continua após o recado - -

Assine a newsletter da Trivela e fique por dentro do melhor conteúdo de futebol!

Um conteúdo especial escolhido a dedo para você!

Aoa se inscrever, você concorda com a nossa Termos de Uso.

Em campo, uma seleção albanesa pronta para competir sob o comando do brasileiro

Para montar sua lista de convocados nesses dois anos, Sylvinho teve uma estratégia interessante de olhar para outros mercados. Nos primeiros meses, surpreendeu ao convocar e promover a estreia de Jasir Asani, que atuava na Coreia do Sul. O atacante foi um pilar absoluto do time nas Eliminatórias para a Euro, com três gols e três assistências no período. Ele é apontado como possível titular contra a Polônia na repescagem.

— Asani é resultado de uma busca incessante que tínhamos por um canhoto, lado contrário. Independente do sistema tático, era uma característica que queríamos de um atleta canhoto por aquele setor. Tínhamos visto um ou outro, até que surgiu o nome dele — explicou, também à “ESPN”.

Jasir Asani em ação pela Albânia na Eurocopa 2024
Jasir Asani em ação pela Albânia na Eurocopa 2024 (Foto: MB Media / Icon Sport)

O mérito do brasileiro, que também tem em sua comissão os ex-jogadores Doriva e Pablo Zabaleta, está além da busca de novos nomes. A Albânia, sob seu comando, virou um selecionado muito competitivo, graças a um esquema tático pautado em linhas bem compactas e baixas. Quando tiver a bola, a ideia é atacar de forma vertical.

— Nos nossos três anos aqui, conseguimos montar um time que se defende bem. […] Sempre foi um time muito reativo, de muito contra-ataque e, sobretudo, esse contra-ataque construído — disse Sylvinho ao podcast “Futebol no Mundo”.

Esse contexto tático deu muito certo em algumas partidas nas quais enfrentava uma seleção superior tecnicamente, que monopolizava a posse de bola. Na Eurocopa, apesar de cair na fase de grupos, estava no grupo da morte e competiu até o fim.

Mesmo perdendo para a Itália na estreia, fez o gol mais rápido da história da competição com apenas 23 segundos. Depois, buscou nos acréscimos um 2 a 2 com a quarta colocada da última Copa, a Croácia, e vendeu caro a derrota por 1 a 0 para os reservas da Espanha, que seria campeã.

Nas Eliminatórias para o Mundial, ficou atrás da Inglaterra no grupo K, mas conseguiu se sobressair sobre uma Sérvia de opções de maior qualidade. Com o contra-ataque como arma, venceu o rival histórico em plena Belgrado. A chave ainda tinha Letônia e Andorra.

— Nós nos sentimos bem jogando contra um time de melhor qualidade técnica que nos ataca, nós conseguimos explorar mais esses espaços. Embora a nossa luta seja não viver só desses espaços. Depende da qualidade que o outro time te coloca, ou do espaço que te dá e te permite — disse, novamente, ao “Futebol no Mundo”.

Contra a Polônia, em jogo único em Varsóvia, nesta quinta — seleção que já enfrentou duas vezes no ciclo, na classificação para a Euro, vencendo uma e perdendo a outra –, a tendência é, novamente, a bola ficar com o adversário que tem Robert Lewandowski.

Até se avançar de fase, novamente fora de casa, também em partida única, contra Suécia ou Ucrânia, o cenário deve ser parecido.

Resultados da Albânia com Sylvinho

  • 32 jogos, 15 vitórias, 7 empates e 10 derrotas
  • Classificada à Eurocopa 2024 como líder em um grupo com República Checa e Polônia
  • Classificada à repescagem europeia para a Copa do Mundo de 2026

Sylvinho é a esperança para Brasil manter marca na Copa do Mundo

A classificação da Albânia será o maior feito da história do futebol albanês. O momento histórico ainda guardaria um recorde para o Brasil. Desde a primeira edição da Copa do Mundo, em 1930, sempre um técnico brasileiro disputou a competição.

Como Carlo Ancelotti está no comando da Canarinho, a responsabilidade para atingir esse feito é de Sylvinho. O treinador e seu elenco, como mostraram em três anos, têm totais condições disso, apesar de, no papel, serem inferiores tecnicamente aos adversários no caminho.

Caso passe pela Polônia, a final da repescagem europeia já seria na próxima terça (31). A Albânia já enfrentou as duas possíveis adversárias no ciclo, ambas em 2024: pela Liga das Nações, venceu a Ucrânia na estreia dos grupos, mas perdeu o segundo jogo, e saiu com revés em um amistoso com a Suécia, 1 a 0.

O técnico brasileiro só tem contrato com a seleção até o meio do ano. Ele tem despistado sobre os próximos passos de sua carreira.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius AmorimRedator

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo