Eliminatórias da Copa

Maurício Noriega: Brasil vai mal no início, no fim e, principalmente, no meio

Empate com desempenho sonolento diante da Venezuela esfria os ânimos dos entusiastas da revolução dinizista

Muita calma nessa hora. Nem tanto a revolução que alguns conseguiram enxergar em poucos minutos diante da frágil Bolívia, nem tanto o desastre completo pelo empate diante da dedicada Venezuela. Mas que foi uma das piores atuações da seleção brasileira nos últimos anos, isso foi.

Faltou muito de tudo ao Brasil dinizista na noite quente de Cuiabá. Faltou o início, faltou o fim e faltou, principalmente, o meio, analisaria o saudoso Raul Seixas se entre nós ainda estivesse.

Vamos ao início. Uma defesa dispersa que se permitiu ser fustigada por raros contragolpes venezuelanos e deixou espaços e buracos que proporcionaram o gol homônimo de Bello. Um fim que não soube produzir coletivamente e apostou demais na individualidade pelo lado esquerdo e teve, novamente, um centroavante perdido na função. Mas o bicho pegou mesmo foi no meio. Como ensina o mestre Gérson Canhotinha de Ouro, o jogo rola ali, na meiúca. É o setor que faz o time funcionar, que liga defesa e ataque e determina o ritmo do jogo.

Vamos ao meio. Casemiro, um grande jogador, consagrado na Europa, não tem o passe que desmonta a marcação, a virada de jogo que descobre o espaço livre. Em circunstâncias como adiante da Venezuela, um adversário retraído e compactado, a fusão de Casemiro e Bruno Guimarães limita as possibilidades.

Principalmente se à frente deles, como solista no meio-campo, estiver um Neymar como o de Cuiabá. Sem mobilidade, precipitado nas decisões, irritadiço e trocando todas as suas virtudes de grande jogador por quase todos os vícios. Neymar se atirou em busca de faltas inexistentes, tentou arrumar briga, perdeu gols. No entanto, o que mais ele ficou devendo ao time é justamente o que a equipe mais precisa dele: liderança técnica. Esse tipo de liderança não se aplica dando chapéu para trás, olhando para um lado e tocando para o outro ou reclamando o tempo todo da arbitragem.

O que a nova seleção precisa do novo Neymar é que ele seja quem lê o jogo e identifica através de suas grandes qualidades técnicas qual o caminho a seguir. Em Cuiabá, Neymar foi buscar bola quase dentro da área defendida por Éderson, mas insistiu em levar o time para jogar do lado esquerdo quando o jogo gritava pelo lado direito. Talvez ele estivesse mais preocupado em se juntar a Vini e Rodrygo para um recital de belas jogadas que nunca houve. Foi um tal de cruzamento para a área que só não consagrou os bons zagueiros Ángel e Osório porque eles bobearam no gol de Gabriel Magalhães.

Em termos táticos, uma das características preocupantes dos times de Diniz se repetiu ontem: a exposição da defesa para buscar o ataque. A Venezuela mandou um telegrama diplomático avisando que jogaria como jogou. Com e sem Soteldo em campo, o adversário conseguiu encaixar diversos contra-ataques.

Agora vem o Uruguai, que todos acreditam que será o primeiro grande teste da seleção de Diniz. Ainda que os charrúas apresentem enormes oscilações durante o jogo, arrancaram um empate interessante diante da Colômbia, em Barranquilla. Esta nova versão, sem Súarez e Cavani, vai impor grandes dificuldades ao Brasil?
Diniz insistirá em Richarlyson? Dará ao meio-campo mais leveza e opções? Chamará Neymar para uma conversa tática pedindo a ele que seja a liderança em campo?

Ou será que Paolo Andrei, o reitor da Universidade de Parma, na Itália, deu a letra de que estamos todos perdendo tempo ao analisar o trabalho de Diniz? Porque segundo Andrei discursou, Ancelotti aceitou mesmo a “linda aventura” de dirigir a seleção brasileira em 2024. A conferir.

Foto de Mauricio Noriega

Mauricio Noriega

Colunista da Trivela
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