Eliminatórias da Copa

Adiamento das Eliminatórias Sul-Americanas era obrigação, num momento em que o futebol de seleções é supérfluo

Numa realidade de pandemia em que as viagens entre diversos países permanecem restritas, a realização da Data Fifa no fim de março é plenamente questionável. Encavalados entre os compromissos dos clubes, os jogos de seleções promovem ainda mais o trânsito internacional e podem se tornar focos de contaminação pela COVID-19 a diferentes elencos – algo que já questionamos em 2020. Além do mais, com o recrudescimento de medidas, muitos jogadores precisariam cumprir quarentenas em consequência dos países visitados. Nada mais natural, então, que o calendário fosse revisto. E, no fim de semana, a Conmebol suspendeu oficialmente os duelos pelas Eliminatórias Sul-Americanas no fim de março – uma decisão mais que necessária e que até demorou para ser tomada.

No início de fevereiro, a Fifa já tinha publicado um documento eximindo que os clubes liberassem seus jogadores nesta Data Fifa, caso eles precisassem entrar ou sair de países com restrições nas viagens. Tal medida afetaria diretamente as Eliminatórias Sul-Americanas, considerando as limitações na entrada de viajantes vindos de diferentes pontos da América do Sul na Europa, como medida para conter as novas variantes do coronavírus. Em diversos países, caso um determinado atleta saísse, precisaria cumprir quarentena ao voltar e desfalcaria seu clube. Assim, várias equipes europeias declararam suas recusas às convocações.

A Conmebol ainda cogitou realizar as Eliminatórias dentro de alguns cenários limitados, com partidas em um país europeu ou mesmo permitindo apenas atletas em atividade na América do Sul. Não haveria consenso, dentro do que é a realidade de diferentes países. Desta maneira, a confederação se reuniu com os representantes de cada federação nacional e viu que o único caminho realmente viável era adiar a rodada dupla de partidas, algo em acordo também com a própria Fifa.

“O Conselho da Conmebol resolveu suspender a rodada dupla das Eliminatórias para o Catar 2022 prevista para março. A decisão obedece a impossibilidade de contar em tempo e forma com todos os jogadores sul-americanos. A FIFA analisará a reprogramação da rodada, em coordenação com a CONMEBOL e associações membro. Em breve serão estudadas diferentes opções para realização das partidas”, anunciou a Conmebol, em sua nota oficial.

Num momento em que as novas cepas do coronavírus afetam bastante a América do Sul, sobretudo o Brasil, a Conmebol precisava de um mínimo de bom senso na gestão de suas competições. Por consequência da postura restritiva na Europa, as Eliminatórias não ocorrerão. Seria prudente também à confederação repensar protocolos e o trânsito de pessoas no início da Copa Libertadores, às vésperas de que a fase de grupos tenha seu pontapé inicial.

A entidade deveria questionar ainda o próprio formato das Eliminatórias, com 18 jogos por seleção, cada vez mais apertados antes da Copa do Mundo de 2022. Acordos comerciais fazem com que a confederação não queira abrir mão do dinheiro, mas a organização se torna um desafio paulatinamente maior. Outro torneio em xeque à Conmebol é a Copa América de 2020, uma competição que nunca se justificou muito além da ganância da organização e que soa cada vez mais supérfluo dentro do calendário.

Além da Conmebol, AFC (Ásia) e OFC (Oceania) não preveem compromissos internacionais na próxima Data Fifa. As duas confederações do extremo oriente, aliás, atuam de maneira exemplar ao priorizar a proteção sanitária de seus países-membros, cancelando até mesmo competições e tentando se adaptar da melhor forma para evitar riscos. Concacaf, CAF e Uefa permanecem com os compromissos internacionais de março ainda em vigor. África e América do Norte / Central correm riscos parecidos à América do Sul em relação à proibição no trânsito entre continentes. Enquanto isso, na Uefa, restrições entre países levarão algumas partidas a campo neutro no início das Eliminatórias.

O futebol de seleções não tem necessariamente a justificativa de manter a economia do esporte girando e garantir um número significativo de empregos. Os contratos gerados pelas seleções normalmente endereçam seus milhões a confederações e federações, estruturas que deveriam ser sem fins lucrativos e cujo dinheiro precisa ser destinado ao próprio desenvolvimento do futebol. Neste momento, soa como supérfluo, ponderando os riscos. Porém, dentro do poder que impera no futebol, não são todos os cartolas que se dispõem a largar suas boquinhas. O que a Conmebol faz deveria ser obrigação e também seguido pelas demais entidades continentais, numa readaptação necessária do calendário Fifa.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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