Moldado na guerra: Dzeko leva Bósnia-Herzegovina à Copa com marcas de um país ferido
Veterano e capitão é principal referência de um país multiétnico, e de uma geração que cresceu em meio aos conflitos separatistas da Iugoslávia
Edin Dzeko deixou o gramado após a classificação da Bósnia-Herzegovina para a Copa do Mundo aos prantos. E não foi à toa. Maior artilheiro da seleção nacional, precisou sair na reta final da prorrogação com o braço enfaixado, depois de fraturar a clavícula. Foi espectador na decisão de pênaltis contra a Itália, e é o maior símbolo de um país ainda com feridas, que carrega consigo o orgulho de ser independente há mais 30 anos — Dzeko tem 40.
Esse orgulho está presente no dia a dia bósnio, mas principalmente na carreira de Dzeko. Veterano atacante do futebol europeu, ele nasceu na antiga Iugoslávia, em 1986, em Sarajevo — que viria a se tornar capital da independente Bósnia. Sob o controle do bloco socialista, as repúblicas que pertenciam ao território iugoslavo passaram por movimentos separatistas.
Com a Bósnia não foi diferente, e Dzeko viveu, ainda na juventude, consequências deste conflito — que deixa marcas profundas no nacionalismo e orgulho da nação. Depois de se declarar um Estado independente após a dissolução da Iugoslávia, a nação se viu diante de uma guerra contra outras repúblicas iugoslavas.
Sérvia e Croácia, principalmente, financiaram militarmente o Cerco de Sarajevo durante a Guerra da Bósnia, entre 1992 e 1995. O conflito resultou na morte de mais de 100 mil bósnios, e foi o primeiro genocídio que se teve registro desde a Segunda Guerra Mundial, na década de 1940.
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Além de questões separatistas, pode-se classificar a Guerra da Bósnia a partir de uma natureza étnica: sérvios, que compõem cerca de um terço da população bósnia, foram responsáveis por liderar a expulsão de minorias e de bósnios do território, além de reutilizarem campos de concentração da Segunda Guerra.
Dzeko cresceu em meio a um conflito em sua cidade natal
Dzeko tinha apenas seis anos recém-completados quando se deu o início o conflito. Filho de Midhat e Belma Dzeko, o jogador teve sua casa destruída em função dos bombardeios à capital. Juntamente com outros 15 familiares, precisou morar na casa de seus avós, com pouco mais de 35 m². Ele é uma das milhares de crianças que a guerra formou ao longo destes três anos.
— Numa cidade onde não se sabia se veria o melhor amigo no dia seguinte, se voltaria a abraçar o pai ou a mãe, se abriria os olhos ou se sairia para brincar com os amigos, passei cada um desses 1.425 dias sob cerco — escreveu Dzeko, em 2018, em suas redes sociais.
À época, Dzeko apenas sonhava em se tornar um jogador de futebol no futuro. Midhat, seu pai, também havia construído uma curta carreira no futebol. Diante do sonho de alcançar a glória na Europa, o jovem Edin tinha de viver assombrado pelos disparos das armas de fogo que cercavam Sarajevo todos os dias.
Os breves momentos de distração também eram cercados pelo medo. De que, do dia para a noite, seus entes queridos poderiam virar mais um número dentre as centenas de mortes do conflito.
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— A lembrança não desaparece. Não dá para imaginar o que é passar por algo assim, a menos que você realmente tenha vivido isso. Quando a guerra acabou, pelo menos me senti mais forte mentalmente. Depois disso, não havia muita coisa que pudesse me intimidar ou assustar — afirmou, em 2011, ao “Daily Mail”.
Midhat incentivava seu filho a seguir os passos no futebol. No tempo livre, brincava com os amigos no bairro de Otoka, em Sarajevo. Em um desses dias, como sua mãe relatou, ele foi proibido de ir à rua.
Naturalmente, Belma temia pelo pior sempre que ele ia saia à rua. Mas costumava permitir Dzeko de se encontrar com seus amigos. Quando ela insistiu que ele permanecesse em casa, apesar dos choros do filho, uma bomba caiu exatamente no campo improvisado em que Dzeko brincava, o que resultou em mortes e feridos.
— Tive sorte e sobrevivi, enquanto muitos dos meus colegas ficaram feridos ou já não estão mais entre nós — afirmou Dzeko.
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‘Diamante’ da Bósnia, Dzeko não deixa o conflito ser esquecido
O fim da guerra significou um recomeço para a vida da Bósnia e de Dzeko. Pela primeira vez desde o século 15, o país voltaria a controlar seu próprio destino. O mesmo vale para Edin, que conseguiu dar seus primeiros passos no futebol ainda em Sarajevo.
Zeljeznicar, da capital bósnia, foi onde Dzeko iniciou a carreira — ainda como meio-campista. Posteriormente, seguiu para o futebol da Alemanha, com o Stuttgart, e ganhou destaque no Manchester City, nas primeiras conquistas do clube desde a década de 1970 — incluindo a primeira Premier League, em 2011/12.
Antes disso, Dzeko já era tratado como um “Diamante” pelos torcedores bósnios. Afinal, ele conseguiu sobreviver ao cerco e ao conflito armado, e jogou holofotes ao país em um cenário esportivo. Em 2009, se tornou embaixador da Unicef, e realizou visitas a escolas e hospitais afetados pela guerra.
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Mesmo com a carreira europeia, ele não abandonou a realidade de seu país. Com o prestígio internacional, Dzeko utilizou a plataforma que alcançou no esporte para dar destaque às consequências que a guerra deixou para a Bósnia-Herzegovina.
Das ruas de Sarajevo, Dzeko cresceu mentalmente no futebol. Em 2014, levou a Bósnia à sua primeira Copa do Mundo, no Brasil. Repetiu o feito neste ano, como titular e capitão nas Eliminatórias, diante da Itália — país onde construiu sua carreira com passagens por Roma e Internazionale.
Recordista na Bósnia, Dzeko disputará sua segunda Copa do Mundo
Dzeko é o maior artilheiro e jogador com mais partidas disputadas na história da seleção. São 148 partidas disputadas e 73 gols marcados. Além disso, ele esteve presente em 53,6% de todos os jogos que a Bósnia já disputou em sua história — 278, desde que sou tornou independente. Não há seleção bósnia sem Dzeko, nem Dzeko sem seleção bósnia.
Contra a Itália, em sua 148ª partida, viu seu time ser um azarão diante da tetracampeã mundial mesmo com o fator casa a seu favor. Em Zenica, aos 40 anos, jogou os 120 minutos do duelo, até o último lance da partida, mesmo com o ombro lesionado na reta final.
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— O apoio de vocês nos levou adiante em cada partida, em cada cidade, em cada estádio. Vocês foram nosso jogador extra, e é por isso que digo que este não é o sucesso de um único indivíduo. Este é o sucesso de todos nós. Tanto dos que estão em campo quanto dos que estão nas arquibancadas. O sucesso de um país que conhece o valor da união — afirmou, após a classificação.
Dzeko já não está no auge de sua forma física. Ainda não voltou a atuar pelo Schalke 04, mas tenta voltar a tempo de disputar sua segunda Copa do Mundo. No Grupo B, do Canadá, juntamente com Catar e Suíça, a meta é alcançar, pela primeira vez em sua história, o mata-mata da Copa do Mundo.