Copa do Mundo

Kaoru Mitoma e o drible pensado: O ponta que virou símbolo da seleção japonesa

Longe do roteiro acelerado das promessas, Mitoma trocou pressa por processo e chegou à Copa como um dos principais rostos do Japão

Nem todo personagem interessante de Copa do Mundo chega ao torneio cercado pela lógica do estrelato. Alguns chamam atenção justamente por parecerem escapar do molde mais comum do futebol de elite. Kaoru Mitoma, ponta do Japão, entra nesse grupo.

Hoje consolidado como um dos nomes mais relevantes da seleção japonesa, ele construiu a própria trajetória por um caminho pouco usual para o restante do mundo: quando teve a chance de acelerar a entrada no profissional, preferiu frear.

Ao invés de dar o salto imediato, decidiu ir para a universidade. Em vez de se atirar no circuito natural da pressa, escolheu ganhar tempo. E essa escolha, mais do que uma curiosidade de biografia, ajuda a entender quem ele virou dentro de campo.

Mitoma passou pela base do Kawasaki Frontale, uma das estruturas mais respeitadas do futebol japonês, mas não abraçou de imediato a promoção ao time principal. Aos 18 anos, optou por seguir para a Universidade de Tsukuba, onde estudou Educação Física e continuou se desenvolvendo como jogador — só virou profissional aos 22.

A decisão foge da lógica quase automática que costuma cercar jovens promessas. Em vez de apostar apenas no talento, ele apostou no processo. E, no caso dele, o processo nunca pareceu ser só físico ou técnico. Sempre houve também um lado de observação, análise e entendimento do jogo.

A própria Associação Japonesa de Futebol e a Universidade de Tsukuba registram essa passagem como etapa central da formação dele.

Mitoma é mais do que a ‘tese do drible’

Mitoma em ação pelo Japão
Mitoma em ação pelo Japão (Foto: Mark Greenwood / IPS / iMAGO)

Foi nesse período que nasceu a história que, com o tempo, virou quase um selo da imagem pública de Mitoma: o trabalho acadêmico ligado ao drible. A internet resumiu tudo de forma fácil — “o jogador que escreveu uma tese sobre driblar” —, mas a formulação mais precisa é outra.

O estudo dele, desenvolvido na universidade, era voltado às situações de um contra um no futebol, especialmente sob a ótica do processamento de informação do jogador ofensivo. Ou seja: mais do que “como driblar”, a questão passava por como perceber, decidir e executar melhor nesse tipo de lance.

Isso não transforma Mitoma em uma figura exótica de laboratório, mas ajuda a explicar por que ele sempre pareceu um ponta diferente.

Esse detalhe ajuda a tirar o personagem do lugar-comum. Mitoma não se encaixa tão bem na imagem do ponta puramente impulsivo, daquele jogador que vive só do reflexo ou da irreverência espontânea. O jogo dele tem improviso, claro, mas também tem método. Há cálculo no desequilíbrio que provoca. Há intenção no modo como desacelera, espera, muda o ritmo e atrai o marcador para o lugar em que quer feri-lo.

Em um futebol em que muitos extremos parecem treinados para repetir movimentos em série, ele passa outra sensação: a de quem observa o adversário antes de atacá-lo. Não é um driblador “barulhento”; é um driblador que parece pensar enquanto desmonta a jogada.

A própria construção da carreira reforça essa impressão. Após o ciclo universitário, Mitoma voltou ao Kawasaki Frontale já com um jogo mais maduro e rapidamente se destacou.

A transição para a Europa também foi feita em etapas, sem o atalho da superexposição precoce: primeiro, a passagem pelo Union Saint-Gilloise (emprestado pelo Brighton), da Bélgica. Depois, a consolidação no Brighton. Há uma coerência no percurso. Nada parece ter sido acelerado além da conta. Nada soa como um talento empurrado para a vitrine antes de estar pronto para habitá-la.

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Por que Mitoma se tornou peça importante no Japão?

Kaoru Mitoma pela seleção japonesa (Foto: Takamoto Tokuhara/AFLO/Icon Sport)
Kaoru Mitoma pela seleção japonesa (Foto: Takamoto Tokuhara/AFLO/Icon Sport)

É por isso que Mitoma funciona tão bem como símbolo dessa seleção japonesa. Não apenas porque desequilibra no ataque, mas porque sua trajetória dialoga com a própria imagem competitiva do Japão: uma equipe historicamente organizada, disciplinada e cada vez mais confortável em unir método e agressividade.

Mitoma representa bem essa síntese. Seu jogo tem liberdade, mas não descontrole. Tem coragem, mas raramente parece precipitado.

Na seleção, esse peso foi se consolidando de forma rápida. Chamado pela primeira vez para o time principal em novembro de 2021, Mitoma ganhou projeção maior no ciclo da Copa do Qatar, quando marcou os dois gols da vitória sobre a Austrália, em março de 2022 — resultado que confirmou a classificação japonesa para o Mundial.

Foi uma noite importante não só pelo tamanho do jogo, mas porque ajudou a colocá-lo em outro patamar dentro da equipe. Desde então, deixou de ser apenas uma boa opção de lado de campo e passou a ser visto como um jogador capaz de mudar o ritmo de partidas travadas, acelerar transições e oferecer ao Japão um recurso mais individual dentro de um time historicamente associado ao coletivo.

Mitoma já não é apenas uma boa história de formação diferente ou uma curiosidade interessante de bastidor. A essa altura, virou um dos rostos mais claros do Japão — e por mérito próprio. Pela maneira como construiu a carreira, pelo tipo de jogo que oferece e pelo peso que ganhou em momentos importantes, conquistou um espaço que hoje parece natural.

O que começou como uma trajetória fora do padrão virou, com o tempo, uma das afirmações mais sólidas desta geração japonesa.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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