Copa do Mundo

Conejo e Navas, duas lendas da Costa Rica em Copas do Mundo amadas na Espanha

Luis Gabelo Conejo liderou a campanha da Costa Rica até as oitavas em 1990 e se tornou o grande professor de Keylor Navas na seleção

A Costa Rica é uma pátria de luvas. Os grandes sucessos dos Ticos nas Copas do Mundo, afinal, sempre estiveram atrelados a grandes goleiros. Nas duas vezes em que o país conseguiu alcançar os mata-matas do Mundial, teve um goleiro entre os melhores da competição. Começou em 1990, quando Luis Gabelo Conejo emendou exibições estupendas na fase de grupos e levou os costarriquenhos às oitavas de final logo na estreia do país no torneio. Repetiu-se em 2014, com Keylor Navas excepcional no “grupo da morte”, antes de dar um passo além diante da Grécia nas oitavas. Há uma influência em comum entre as duas lendas, já que Conejo preparou Navas desde os 14 anos e é o treinador de goleiros da seleção há mais de duas décadas. E também resiste uma ponte com a Espanha, mais especificamente com Albacete, destino em comum dos dois gigantes.

Luis Gabelo Conejo era um ilustre desconhecido do resto do mundo quando aconteceu a Copa de 1990. Aliás, como tantos outros goleiros, sua carreira sob as traves começou por acaso. O garoto costumava atuar como zagueiro ou ponta esquerda, mas precisou quebrar um galho num dia em que o arqueiro de sua equipe se lesionou. Logo faria fama nas competições amadoras da cidade costarriquenha de San Ramón e assinou com a Ramonense, equipe da elite nacional, mas de pouca projeção na liga. Conejo era uma atração nos compromissos do modesto time, a ponto de aproveitar a qualidade dos tempos de atacante para cobrar faltas e pênaltis.

Ídolo da Ramonense, Conejo só ganhou sua primeira oportunidade na seleção da Costa Rica em 1987. Já tinha 27 anos quando assumiu a titularidade dos Ticos. Ao mesmo tempo, seu clube seria rebaixado e ele se transferiu ao Cartaginés em 1989. Num dos clubes mais tradicionais do país, embora em longa seca, Conejo atingiu sua melhor forma sob os arcos. Seria um dos principais jogadores da seleção costarriquenha no Campeonato da Concacaf, predecessor da Copa Ouro, que também servia de qualificatório para o Mundial. Diante da ausência do México, punido por um escândalo na base, os Ticos fizeram a melhor campanha da competição em 1989. Ficaram com a taça e, melhor ainda, carimbaram a inédita classificação para uma Copa do Mundo.

A Costa Rica tinha bons jogadores à sua disposição para o Mundial de 1990. Ronald González era o esteio no meio, Juan Cayasso dava qualidade na armação, Hernán Medford garantia os gols no ataque. Também contava com um excelente treinador, Bora Milutinovic, que vinha de uma campanha até os mata-matas da Copa à frente do México em 1986 e iniciava sua fama de herói mundialista. Entretanto, no grupo cascudo em que os Ticos caíram, Conejo seria bastante exigido durante o Mundial da Itália. O Brasil era o favorito naquele Grupo C, mas Escócia e Suécia carregavam bem mais tarimba na competição, assim como jogadores em evidência no futebol europeu. Abaixo do radar, os costarriquenhos surpreenderam.

A estreia aconteceu diante da Escócia. Cayasso anotou o gol da vitória por 1 a 0, mas Conejo conseguiu impressionar ainda mais sob as traves. Foram pelo menos duas defesas monstruosas, à queima-roupa, que frustraram a Tartan Army. Depois viria o Brasil. A seleção de Lazaroni ganhou só por 1 a 0, num chute de Müller que desviou na defesa. Mais uma vez, Conejo trabalhou bastante e manteve as esperanças de sua equipe. Foi ótimo nas saídas pelo alto e operou alguns milagres em faltas brasileiras, contra Valdo e Branco. Também deu sorte nas seguidas bolas que bateram na trave.

Já na rodada final, os Ticos pegaram uma Suécia ainda sem pontos, com a situação aberta pela segunda colocação da chave. Os escandinavos até anotaram o primeiro, com Johnny Ekström aproveitando o rebote de uma defesaça de Conejo. O goleiro realizou outras intervenções vitais, que contiveram a pressão dos oponentes pelo segundo tento. O capitão Roger Flores empatou a 15 minutos do fim e, num momento em que o empate já valia a classificação da Costa Rica na segunda colocação, Medford não deu margem ao azar com a virada por 2 a 1 em Genoa. Com isso, os costarriquenhos avançaram atrás apenas do Brasil. Era um feito histórico. Pelo que vinha fazendo, Conejo já era apontado como o melhor goleiro da Copa na fase de grupos – algo referendado pela France Football.

Contudo, a Copa do Mundo acabou para Conejo naquela terceira partida. O goleiro lesionou o ombro e desfalcou a Costa Rica nas oitavas de final, contra a Tchecoslováquia. Os europeus passaram por cima com a goleada por 4 a 1. E o próprio goleiro se questionava sobre qual o destino do duelo se ele estivesse em campo, já que tinha uma grande virtude nas bolas cruzadas – exatamente a jogada principal dos tchecoslovacos. Como consolação, o costarriquenho figuraria em diversas listas de melhores arqueiros da Copa – ao lado de nomes como Sergio Goycochea, Walter Zenga e Bodo Illgner.

A fama de Conejo gerou interesse de diversos clubes. As propostas chegaram aos montes para o costarriquenho. O Cruz Azul ofereceu um alto valor pela contratação, enquanto o Torino se tornava uma possibilidade de seguir à fortíssima Serie A naqueles tempos. Entretanto, as ofertas mais numerosas vinham da Espanha, mais aberta a goleiros estrangeiros desde a década de 1980. Times como Espanyol, Valladolid e Logroñés entraram em contato. Entretanto, o negócio passaria distante de ser feito da maneira mais idônea, depois que Conejo foi enganado por um empresário argentino que tomou as rédeas de sua representação.

A promessa do agente para Conejo era de que o goleiro atuaria numa “filial do Real Madrid” e que teria chances de subir para o time principal se rendesse bem. Pura mentira, já que o acerto acabou feito com o Albacete, clube que tinha acabado de subir da terceira divisão para a segunda. É verdade que os manchegos queriam um goleiro de ponta, após negociarem também com Silviu Lung, titular da Romênia na Copa. Contudo, foi o costarriquenho quem assinou e só se deu conta de que foi passado para trás quando, em sua apresentação, o presidente do Alba falou que o objetivo era não voltar para a terceirona. Pior também para o Cartaginés, que nunca recebeu os US$40 mil que o tal argentino deveria endereçar ao clube costarriquenho.

Obviamente, Conejo se sentiu desiludido e enganado com a situação. Apesar disso, o goleiro trabalhou para dar a volta por cima. Na época, o Albacete era treinado por Benito Floro – que, curiosamente, saltou dos manchegos para a casamata do Real Madrid no início dos anos 1990. O técnico estabeleceu um estilo de jogo envolvente e ofensivo, que rendeu ao Alba o apelido de “Queijo Mecânico”, em referência ao produto típico da região e à Laranja Mecânica. Enquanto os pequeninos gastavam a bola no ataque, Conejo tratava de fechar seu gol atrás.

O Albacete se tornou exatamente uma das sensações do Campeonato Espanhol na temporada 1990/91. A equipe passou longe de lutar contra o descenso: muito pelo contrário, conquistou o acesso e também o título da segunda divisão, numa edição do torneio em que o Deportivo de La Coruña também ascendia. Era a primeira vez que os manchegos subiam à primeira divisão. Conejo estava exatamente entre os heróis da campanha, com apenas 28 gols sofridos em 36 partidas. Virou um ídolo absoluto da torcida, com o nome cantado a cada partida, enquanto o estádio do Alba se tornava ponto de peregrinação para muitos torcedores costarriquenhos.

Durante a temporada de estreia na elite, o Albacete também fez bonito. Foi quando o apelido de Queijo Mecânico realmente se consolidou, a uma equipe que passou 16 rodadas consecutivas sem perder em La Liga. É verdade que alguns baques também aconteceram, incluindo uma goleada por 7 a 1 do fortíssimo Barcelona de Johan Cruyff. Não foi isso que abalou o moral de Conejo, que ficou 12 das 33 partidas que disputou na campanha sem tomar um gol sequer. Nomes como Delfí Geli, Marco Etcheverry e José Luis Zalazar eram figurinhas carimbadas dos manchegos, que terminaram o Campeonato Espanhol 1991/92 numa honrosa sétima colocação, a um ponto da zona de classificação à Copa da Uefa.

Entre os fãs de Conejo, aliás, estava um famoso gandula do Albacete. Andrés Iniesta é natural da cidade e trabalhava nos jogos do clube quando se encantou com os milagres do arqueiro. O costarriquenho, no entanto, decidiu dar uma pausa na carreira em 1992, aos 32 anos. Tinha propostas de equipes japonesas na nascente J-League e recusou. Chegou a disputar uma partida de despedida entre o Alba e a seleção da Costa Rica. Com a saída de Benito Floro para o Real Madrid, o Albacete lutou para não cair em 1992/93. Conejo voltou às atividades apenas em 1993/94, quando disputou 12 partidas por La Liga e contribuiu para uma campanha de meio de tabela. Então, resolveu retornar à Costa Rica. Encerrou uma relação bonita com o Albacete e com a comunidade ao redor do clube.

Conejo ainda teve um rescaldo de carreira no Campeonato Costarriquenho. O goleiro jogou no Herediano e depois voltou para a Ramonense no ato final de sua trajetória nos gramados. A fama que construiu, entretanto, o levou a se tornar treinador de goleiros da seleção, inclusive das categorias de base. Não demorou a topar com um garoto magro e alto nascido mais ao sul do país, católico fervoroso como ele, que vivia com os avós após os pais se mudarem para os Estados Unidos em busca de trabalho. Era Keylor Navas, então com 14 anos.

Navas pôde aprender com o melhor professor possível. Conejo elaborou uma detalhada rotina de treinamentos para potencializar o talento bruto do adolescente. Seria uma relação muito próxima. “Para mim, Conejo é mais que um amigo, é um conselheiro. Ele me ensinou muitos aspectos técnicos desde que começou a me treinar, quando eu tinha 14 anos. Sempre está aí para me corrigir, me ajudou muito”, contaria Navas, ainda em 2010, ao jornal El Confidencial. Quando tinha 16 anos, o prodígio se transferiu a um dos melhores clubes do país. Seria trocado por 100 bolas pelo Saprissa, numa mixaria que hoje soa até como piada.

Mesmo distante da Espanha, Conejo manteve sua relação constante com o Albacete. Desde que Navas tinha 18 anos, recomendou o goleiro ao Queijo Mecânico. Navas estreou no Saprissa aos 19 anos. Era treinado por Hernán Medford e tinha ainda o veterano Ronald González como um dos companheiros em campo. Entretanto, em tempos nos quais o Sapri disputava até o Mundial de Clubes, seu arqueiro titular era o veterano José Porras, titular dos Ticos na Copa de 2006. Levaria um tempo a mais para que a promessa pedisse passagem e conquistasse a posição.

A estreia de Keylor Navas na seleção da Costa Rica aconteceu em 2008, num momento em que Conejo seguia trabalhando com os goleiros da seleção principal. A insistência para que o novato fosse contratado pelo Albacete só deu certo em 2010/11, quando Navas já tinha 24 anos. Ficou apenas uma temporada no clube, na segunda divisão, e não impediu o rebaixamento na laterna da competição. O Alba voltaria à terceirona exatamente como não acontecia desde 1990. Mas nem tudo estava perdido ao costarriquenho, muito pelo contrário. Mesmo com o descenso, Navas impressionou em suas exibições na segunda divisão. Foram 49 gols sofridos em 36 partidas, um número razoável para o time que sofreu 15 tentos nos outros seis compromissos. O Levante resolveu contratá-lo, subindo direto para a primeira divisão.

Keylor Navas começou como reserva do uruguaio Gustavo Munúa no Levante. O goleiro ganhou a titularidade na reta final de La Liga 2012/13, antes de ser o dono da posição em 2013/14. Foi tão bem que terminou indicado entre os melhores goleiros da temporada espanhola, com somente 39 gols sofridos em 36 aparições. Paralelamente, o camisa 1 já era um sucesso na meta da Costa Rica e teve papel determinante na classificação para a Copa do Mundo de 2014. Até viver sua verdadeira explosão para o resto do planeta no Mundial do Brasil.

Conejo permanecia como um conselheiro de Navas, bem como seu instrutor na seleção. E viu o pupilo superar seus próprios feitos em 1990. A Costa Rica tinha poucas perspectivas no grupo de Inglaterra, Uruguai e Itália em 2014. Navas foi um dos motivos da milagrosa classificação, com ótimas defesas sobretudo diante dos uruguaios e dos italianos. Já a partida que transformou o arqueiro em lenda aconteceu nas oitavas de final, contra a Grécia. Foram sete intervenções realizadas, três delas dificílimas. Conseguiu garantir a sobrevida dos Ticos até a disputa por pênaltis e defendeu a cobrança de Theofanis Gekas. Não evitou a eliminação nos pênaltis diante da Holanda nas quartas, mas manteve sua meta zerada pelo terceiro duelo no Mundial e colecionou outras defesas, a ponto de ser escolhido o melhor em campo. Não fosse a Copa que Manuel Neuer fez, a Luva de Ouro talvez acabasse com o costarriquenho.

A partir de então, o sucesso de Keylor Navas na Espanha se tornou mais do que conhecido. Seria o escolhido para suceder Iker Casillas na meta do Real Madrid. Nem sempre recebeu o respaldo que merecia nos merengues, mas sua importância no tricampeonato da Champions é expressa, especialmente em momentos nos quais o estrelado time não correspondia à sua fama. Silencioso, Navas permitiu as três glórias seguidas e exibiu muito bem os ensinamentos dados por Conejo. Enquanto isso, também se tornou figura indiscutível da seleção, ainda mais à medida que os companheiros deixaram de render.

O status de Keylor Navas já era grande para a Copa de 2018 e se torna ainda maior para 2022, quando seus milagres possibilitaram a classificação de um time limitado da Costa Rica nas Eliminatórias. Mesmo na reserva do Paris Saint-Germain, o arqueiro é uma enorme segurança dos Ticos. E outros companheiros importantes da seleção também passaram pelo Campeonato Espanhol. Joel Campbell não emplacou por Betis ou Villarreal. Óscar Duarte teve mais sucesso por Espanyol e Levante, assim como Celso Borges no Deportivo de La Coruña. A Copa de 2014 os ajudou e eles carregam essa experiência para 2022.

Enquanto isso, o Albacete teve outro goleiro costarriquenho depois de Keylor Navas: Dany Carvajal, que não repetiu os antecessores e disputou apenas duas partidas em sua única temporada, na segunda divisão. Mas não que a história dos arqueiros ticos na Espanha tenha se encerrado. Reserva de Navas, Patrick Sequeira tem apenas 23 anos e atualmente é reserva do Lugo, depois de se destacar no Celta B. É visto como um herdeiro da posição, com um grande legado a zelar. Também pode receber os ensinamentos de Conejo toda vez que se apresenta à seleção.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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