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Depois de 82 anos de seca, o Cartaginés redescobriu o gosto de ser campeão costarriquenho outra vez

O Cartaginés chegou a levar até a Concachampions nestas oito décadas de jejum, mas acumulava vices na liga nacional, até bater a badalada Alajuelense de Bryan Ruiz e Celso Borges na final do Clausura 2022

O Campeonato Costarriquenho registrou um dos campeões mais sensacionais de 2022. Afinal, não é sempre que um time consegue quebrar um jejum de 82 anos sem faturar a liga nacional. A façanha foi protagonizada pelo Cartaginés, um dos clubes mais tradicionais da Costa Rica. Os Azules chegaram a quatro títulos na primeira divisão, mas não sabiam o que era soltar o grito desde 1940 – embora tenham levado outras competições no intervalo, inclusive a Concachampions em 1994. Nesta quarta-feira, a tão arrastada espera na liga nacional finalmente se encerrou na decisão contra a Alajuelense – um adversário badalado pelas presenças de medalhões como Bryan Ruiz e Celso Borges. O Cartaginés venceu a ida em Cartago por 1 a 0, com um gol nos acréscimos do segundo tempo, e buscou na prorrogação o empate por 1 a 1 em Alajuela, faturando o Clausura 2022.

O Cartaginés é o segundo clube mais antigo da Costa Rica, fundado em 1906, por um jovem inglês que se estabeleceu em Cartago – primeira capital do país e terceira cidade mais populosa na atualidade. Os Azules estiveram entre os fundadores do Campeonato Costarriquenho, em 1921, e foram campeões da terceira edição do torneio, em 1923. A partir de 1926, o Cartaginés entrou em crise e chegou a ficar inativo por nove anos. O retorno em 1935 veio para demarcar o período mais vitorioso da agremiação. Levou o troféu de maneira surpreendente em 1936 e repetiu a dose em 1940. Eram os tempos de José Rafael “Fello” Meza Ivancovich, grande ídolo que hoje dá nome ao estádio da cidade. Àquela altura, o time de Cartago só tinha menos taças na liga que Herediano (10) e La Libertad (4). Até que a seca começasse.

Já a partir da década de 1940, o Cartaginés perdeu protagonismo e deixou as cabeças do Campeonato Costarriquenho. Um incêndio no clube também causou impacto e provocou a mudança de sede. Time mais antigo do país, o La Libertad era outro que entrava em ostracismo após seu último título em 1946. O trio de ferro da Costa Rica se estabelecia com Herediano e Alajuelense ganhando a companhia do Saprissa, que ascendeu como uma potência na década de 1950. Já um breve renascimento do Cartaginés aconteceu na década de 1960, quando o clube revelou grandes ídolos (incluindo Leonel Hernández, cuja camisa 11 é aposentada) e apresentava um futebol vistoso que rendeu o apelido de Ballet Azul.

Naquele período célebre, o Cartaginés foi campeão, mas não da liga. Os Azules conquistaram a copa nacional em 1963 e depois em 1979. Contudo, o futebol bem jogado não impedia uma sina de vices que se repetia no Campeonato Costarriquenho. A equipe terminou na segunda colocação cinco vezes em 11 anos. O Saprissa foi o carrasco em 1968, 1973, 1975 e 1977, enquanto o Herediano estragou o sonho em 1979. Uma geração marcante seria perdida e a década de 1980 representou períodos mais modestos, com direito a um rebaixamento. Depois do acesso, novo vice foi amargado em Cartago na temporada de 1987, com derrota para o Herediano na final.

Os anos se passavam, o futebol costarriquenho ganhava mais relevância no cenário continental e o Cartaginés não mudava sua sorte dentro do país. Em 1993, os Azules perderam a decisão mais uma vez para o Herediano. Aquele vice, ao menos, rendeu vaga na Concachampions. Foi quando o clube faturou seu título mais importante, tornando-se o terceiro representante da Costa Rica a ser campeão do torneio – algo conseguido também por Saprissa e Alajuelense. Naquela campanha, o Cartaginés pegou na decisão o Atlante, dirigido por Ricardo La Volpe e estrelado por Hugo Sánchez. Os Azules conquistaram uma emocionante vitória por 3 a 2, coroando a equipe treinada pelo brasileiro Flávio Ortega.

A Concachampions, ainda assim, não mudou a sorte do Cartaginés no Campeonato Costarriquenho. O tabu ganhou mais um vice em 1996, antes que o clube se tornasse figurante na tabela a partir da virada do século e até lutasse contra o rebaixamento. Uma redenção começaria a pintar em 2013, com o vice nos pênaltis diante do Herediano. Mas os Azules logo teriam motivos para comemorar, faturando a copa nacional em 2014 e 2015, após 30 anos de jejum na competição. Ainda levou um tempo para que o Cartaginés se colocasse seriamente como candidato ao fim da seca. Nas temporadas mais recentes, contudo, o time passou a bater cartão nas fases finais do Campeonato Costarriquenho. A alegria estava prestes a se consumar.

O Cartaginés não fez uma campanha tão chamativa na fase de classificação do Clausura 2022. Manteve-se quase sempre no G-4, para se garantir nas semifinais, mas terminou oito pontos atrás da líder Alajuelense. Os rubro-negros, aliás, vinham com um elenco recheado de medalhões da seleção. Bryan Ruiz e Celso Borges são as principais estrelas, em grupo que também reúne Geancarlo González, José Miguel Cubero e Johan Venegas. A guinada do Cartaginés então começou nos mata-matas. Primeiro, os Azules desafiaram o Herediano nas semifinais. Venceram por 1 a 0 dentro do Estádio “Fello” Meza, gol de José Gabriel Vargas, e buscaram o empate por 1 a 1 no Estádio Nacional de San José. Na decisão, encarariam a favorita Alajuelense, algoz do Saprissa na outra semifinal.

O regulamento do Campeonato Costarriquenho é daqueles de fazer inveja ao Cariocão, se assemelhando ao que acontece na fase final do Campeonato Uruguaio. Alajuelense e Cartaginés se enfrentariam em jogos de ida e volta na decisão. Caso os rubro-negros saíssem vencedores nos 180 minutos, eram campeões. O Cartaginés, não. Se isso acontecesse, os Azules teriam que disputar uma “gran final” com outras duas partidas contra a própria Alajuelense, que teria esse direito por ser o melhor time da fase de classificação. Por conta desse regulamento esdrúxulo, a decisão do Clausura 2022 se arrastou por quatro jogos.

Nas duas primeiras partidas, ninguém se deu bem. As duas equipes empataram por 0 a 0 em Cartago e depois por 1 a 1 em Alajuela. O segundo jogo teria sua dose de drama, com a Alajuelense abrindo o placar aos 25 do segundo tempo e o Cartaginés arrancando o empate aos 40, com um gol de Marcel Hernández para evitar o título antecipado dos rubro-negros. Com os placares igualados, ocorreriam mais dois embates pela chamada “gran final”. Foi quando os Azules prevaleceram. Diante de 9,8 mil torcedores no “Fello” Meza, o Cartaginés venceu por 1 a 0 a ida. O gol saiu aos 46 do segundo tempo, com Jeikel Venegas. Já na volta, a Alajuelense abriu o placar com Alexis Gamboa, depois de parar nos milagres do goleiro Kevin Briceño, e forçou a prorrogação. Aos 15 minutos do tempo extra, Arturo Campos marcou de cabeça o gol do empate por 1 a 1. Foi o que valeu a taça aos Azules.

A comemoração do Cartaginés desataria uma festa imensa, tão ansiada pela torcida. Diferentes gerações aguardavam aquele momento em Cartago. Mais simbólico, o troféu acabou levantado na data de nascimento de “Fello” Meza, artilheiro do time campeão em 1940, o que dava um significado maior ao fim do tabu. As ruas da cidade seriam ocupadas por uma multidão azul.

Treinador do Cartaginés, Géiner Segura atuou pelo clube nos tempos de jogador e também passou pela seleção local. Curiosamente, era o assistente da Alajuelense até 2021, antes de assumir o cargo principal nos Azules. Já a grande referência da equipe é o cubano Marcel Hernández, dono da camisa 9 e capitão. Um dos maiores artilheiros da história do Cartaginés, o atacante chegou ao clube em 2018, mas assinou com a Alajuelense em 2021 e até ganhou a Liga Concacaf com os rubro-negros. Porém, voltou a Cartago para fazer história e levar o caneco. Dentre os veteranos da seleção costarriquenha, o meia Michael Barrantes segue atuando em alto nível aos 38 anos, com a epopeia na Copa de 2014 no currículo. Já um destaque jovem é o zagueiro Daniel Chacón, de 21 anos. Já vendido ao Colorado Rapids, ele se despediu dos Azules nas finais e é cotado à Copa de 2022.

O título coloca o Cartaginés nas oitavas de final da Liga Concacaf. Os Azules precisam terminar entre os seis primeiros colocados da competição para figurar na edição seguinte da Concachampions, torneio que não disputam desde 2013/14. A aparição continental, entretanto, é o de menos neste momento. Nada se compara à celebração proporcionada pelo Clausura. É só nisso que o Cartaginés precisa pensar, depois de 82 anos em que o troféu se limitava aos sonhos.

* Fica o agradecimento ao leitor (e ouvinte) Gustavo Laurenti Pereira pela sugestão. Valeu!

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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