Copa do Mundo

O Brasil não forma mais meias? O que explica historicamente o ‘buraco’ no meio do nosso futebol

Reclamação sobre falta de meio-campistas após empate da seleção brasileira é muito complexo e com diversos argumentos falhos

O empate na estreia do Brasil na Copa do Mundo diante de Marrocos, no último sábado (13), gerou enorme frustração e reacendeu debates. Alguns deles, inclusive, sobre a formação de jogadores no futebol brasileiro. Principalmente meio-campistas.

A seleção brasileira teve dificuldade de controlar o jogo pelo meio no início da partida e viu os marroquinos dominarem a posse e as ações ofensivas, o que gerou espanto. Ainda mais levando em consideração o histórico de meio-campistas lendários que o Brasil teve ao longo dos anos.

A surpresa levou à indignação e à crítica: “não se formam mais bons meias no Brasil”. O debate, no entanto, é muito mais complexo do que uma simples afirmação, tem raízes históricas nebulosas e influência europeia superestimada e injusta.

O recorte histórico dos meio-campistas do Brasil

O Brasil é um dos grandes pioneiros do jogo associativo, com toques curtos e domínio das partidas pelo meio. Foi precursor da quebra do 4-2-4 para ter um 4-3-3 que priorizava o meio-campo. Esteve historicamente entre os líderes de posse de bola em diversas Copas do Mundo, incluindo o topo do ranking em 1970, e atingiu 60% de posse no título de 1994.

Grandes seleções da nossa história tiveram como base um meio-campo dominante. Didi, Gérson, Falcão, Sócrates e diversos outros organizadores criativos são exemplos de gerações pautadas no que Tim Vickery defende ser a real essência do futebol brasileiro: posse de bola e um meio forte.

Didi e Pelé na Copa de 1958
Didi e Pelé na Copa de 1958 (Foto: IMAGO / Schirner Sportfoto)

Há o argumento de que isso se perdeu depois da dura derrota para os Países Baixos, na Copa de 1974 — o que pode fazer sentido, mas não se mostrou real na prática. Os times de 1978, 1982 e 1986 disputaram o Mundial no clássico losango (4-1-2-1-2): sem amplitude e com foco no corredor central.

Apesar dos três zagueiros à moda da época em 1990, a Seleção ainda foi o terceiro time com mais posse daquela Copa. O Brasil é vanguardista no que diz respeito a manter a posse e priorizar associações curtas para chegar ao gol adversário — e obviamente influenciou outros países que passaram a fazer o mesmo.

Isso muda a partir do fim dos anos 1990. Não por conta de uma derrota específica ou influência estrangeira, mas justamente pelo próprio sucesso brasileiro: o nosso futebol passa por um surgimento de craques geracionais que unem criatividade com explosão, força física e dribles. E o fato de esse tipo de jogador “dar certo” molda o futuro do Brasil no futebol.

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O surgimento do atacante driblador e como isso impacta os meias do Brasil

Pouco antes da virada do milênio, o Brasil começou a ver a explosão de grandes meias ofensivos e atacantes cuja principal característica era a verticalidade. Apesar de ser tetra com um time que gostava da bola, o Brasil já tinha uma dupla de atacantes desse estilo com Romário e Bebeto.

O surgimento de Ronaldo Fenômeno pode ser considerado a grande virada de chave. Melhor jogador do mundo pela Fifa em 1996 e 1997, ainda muito jovem, era um camisa 9, mas exímio driblador, móvel e que abusava da velocidade. Anos depois, Adriano surge como uma nova versão ainda mais explosiva e imponente fisicamente.

Ronaldo em 1997, ano em que foi eleito melhor do mundo pela segunda vez
Ronaldo em 1997, ano em que foi eleito melhor do mundo pela segunda vez (Foto: IMAGO / Passage)

É ainda nos anos 1990 que grandes nomes dessa nova safra de meias surgem no Brasil. Ronaldinho Gaúcho era um meia-atacante criativo, mas muito rápido e driblador. O futebol brasileiro passou a promover mais meias explosivos em detrimento dos pausados: Rivaldo, Alex e Kaká, por exemplo, tinham grande capacidade de armar, mas eram ótimos condutores.

O sucesso desse tipo de jogador, claro, tem consequências. Molda a percepção do futebol brasileiro do que é bom formar, mas também dos jovens de como querem jogar. É daí que surgem mais meias e atacantes desse estilo, como Robinho, Alexandre Pato e Neymar, por exemplo.

Evidentemente, formar esses jogadores geracionais não é fácil e exige contextos específicos. No futebol de clubes no Brasil, em função da diáspora de talentos para a Europa, ainda existia a dependência de camisas 9 mais tradicionais — e isso empurrou diversos desses atacantes e meias da nova geração para as pontas. Daí a geração de pontas dribladores.

Em um recorte histórico, o “mal” veio do próprio sucesso. O Brasil montou times históricos em 1998, 2002 e 2006, reunindo talento, e esse talento era formado mais por atacantes e meias explosivos do que meio-campistas pausados. Não é completamente justo dizer que uma derrota específica ou “a influência europeia” minou uma posição do nosso futebol.

Onde o futebol europeu entra na equação para o meia Brasileiro

Há, sim, impacto do desenvolvimento do jogo na Europa para essa transição. Primeiro, financeira: o futebol europeu se tornou um atrativo financeiro para atletas brasileiros a partir dos anos 1980. Na década seguinte, a disputa na moeda já era desleal, e os anos 2000 cravaram que o talento durava poucos anos aqui antes de ser vendido.

O impacto tático também existe. O futebol europeu se torna o de maior nível rapidamente e, com grande influência de vertentes do jogo de posse e domínio brasileiro, vive uma era de priorizar o controle do jogo pelo meio de forma pausada — exatamente na contramão do que o Brasil vinha fazendo. E essa era marcou o futebol dos últimos 20 anos.

A reclamação sobre “a morte do camisa 10 no Brasil” surge nessa época, com Paulo Henrique Ganso como um dos últimos expoentes desse grupo.

Mas é uma reclamação pouco fundamentada e de quem prefere se cegar para o rumo que o futebol tomou nesse período: simplesmente não há mais espaço para esse tipo de jogador.

Não só no Brasil, mas em todo o mundo, o camisa 10 lento e “pifador” que está na memória afetiva do torcedor não existe há muitas décadas — salvo raras exceções. Isso quando esses meias e atacantes explosivos não se tornam esses camisas 10 quando ficam mais velhos e perdem essa aptidão física: Ronaldinho, Alex, Juninho Pernambucano e até Neymar e Lionel Messi, por exemplo.

A popularidade do Jogo de Posição no fim dos anos 2000 exigiu meio-campistas dinâmicos. Uma década depois, com o crescimento da pressão sufocante alemã, os criadores habilidosos precisaram recuar cada vez mais, como volantes. Em um jogo com marcação alta, blocos compactados e menos espaços, esse camisa 10 clássico não tem espaço.

Agora, os meias impactantes têm outras características: mais do que encontrar o último passe que rompe linhas, são móveis e ágeis em curto espaço para dribles e tabelas, além de, idealmente, serem capazes de pressionar. E isso em todos os países: criaram Rodrygo e Estêvão no Brasil, mas Florian Wirtz e Musiala na Alemanha, Michael Olise na França e Martin Odegaard na Noruega, por exemplo.

Priorizar a bola, na verdade, nem é um conceito brasileiro

Jimmy Hogan, um dos treinadores mais importantes da história, quando treinava o Aston Villa, em 1936
Jimmy Hogan, um dos treinadores mais importantes da história, quando treinava o Aston Villa, em 1936 (Foto: IMAGO / Colorsport)

Nas críticas sobre o declínio do meia brasileiro, fala-se sobre o Brasil ser historicamente o país que prioriza a posse de bola e “a trata com carinho”, e isso é meia verdade. O jogo de domínio pelo meio, tabelas e aproximação é, por linha cronológica, uma ideia escocesa, no fim do século XIX.

A popularização desse estilo com o inglês Jimmy Hogan criou raízes na Áustria e na Hungria nos anos 1930 antes de vir para a América do Sul. O Brasil sempre teve a irreverência e improvisação, mas foi nos anos 1950 que passou a tratar a posse como algo mais prioritário.

O argumento sobre o Brasil ser vanguardista em conceitos de domínio do jogo pelo meio também é verdade. A quebra do 4-2-4 para o 4-3-3 pode ser atribuída à seleção de 1962. Se isso é a essência brasileira — dominar a bola, pesar mais o meio-campo e ter jogadores habilidosos para associar curto — não faz sentido dizer que o futebol nacional copia o europeu, que também prioriza o mesmo estilo.

A grande questão é que, na Europa, houve a conceitualização desse estilo (e do futebol de modo geral). Foi lá que as pessoas deram nome às coisas que acontecem, colocaram em palavras que “essa é a vantagem que se gera quando se faz isso ou aquilo”. Transformaram em ciência (no sentido literal, de se fazer trabalho acadêmico sobre o tema). E culturalmente isso é mal visto no Brasil.

O estereótipo do treinador “paizão”, que negligencia avanços tecnológicos e novos conceitos, ainda é presente no futebol brasileiro com certo peso. Há diversos exemplos de profissionais que se vangloriam por “não precisarem” das novidades. E quem pensa diferente é tido como “pardal” e crucificado por torcedores, que mantém o preconceito ativo, quase que como um reflexo da sociedade como um todo.

O futebol brasileiro é, historicamente, sobre talento, aura e coisas inatas e intangíveis, não sobre estudo.

Com conceitos como o Jogo de Posição, o europeu, em um resumo simplista da história, apenas deu nome e identificou o que acontecia no próprio futebol brasileiro. Bastou isso para afastar o público daqui.

O “fim dos meio-campistas brasileiros” não é necessariamente culpa europeia ou de uma derrota marcante em uma Copa do Mundo. É uma mistura de diferentes contextos: a evolução do esporte, o crescimento natural de atacantes explosivos no nosso futebol e a falta de preparação da base nacional para formar jogadores que sempre foram impactantes em absolutamente todas as eras do esporte — mesmo que com ligeira mudança de características.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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