Até que ponto o aumento da Copa também não banaliza a prometida “festa das nações”?
Vou ser muito sincero com você, caro leitor: durante a Copa do Mundo, eu me empolgo muito mais com a “atmosfera” do que com os jogos, propriamente dizendo. Era assim quando eu me via apenas como apaixonado pelo esporte, e se tornou ainda mais intenso quando passei a ser também jornalista. Ao invés de torcer pelos times, na maioria das vezes torço pelas melhores histórias. E, convenhamos, o Mundial sempre oferece um prato cheio de emoção. São vidas que chegam ao ápice naquele mês mágico. São países que entram em erupção por aquilo que seus 11 representantes fazem em campo. São imersões culturais, políticas, sociais e humanas, nas quais o futebol serve apenas de pretexto.
VEJA TAMBÉM: Clubes alemães criticam a expansão da Copa: “Não há razões esportivas”
Neste intervalo, vale ressaltar, que a Copa do Mundo de verdade começa já nas Eliminatórias. Mais especificamente, na reta final das Eliminatórias, quando os países começam a confirmar presença no Mundial. É quando as grandes histórias começam a surgir – e quem não vibrou mais com a classificação da Bósnia do que com a do Brasil há quatro anos? E esses capítulos grandiosos se intensificam, obviamente, no momento em que o torneio tem o seu pontapé inicial. Se você acompanhou a cobertura aqui da Trivela em 2014, provavelmente percebeu que foi exatamente isso que priorizamos – embora, lógico, não tenhamos descuidado em nenhum momento do jogo propriamente dito. Mas o jogo da vida, este, sempre é mais importante.
Dito isso, proponho uma reflexão em conjunto sobre a transformação da Copa do Mundo – e quero que você, assim como eu, chegue ao final deste texto com mais interrogações do que respostas. Porque o aumento de seleções, não vou negar, tende a aumentar a quantidade de boas histórias. Aquilo que tantos apaixonados de futebol, como eu, gostam no Mundial. Porém, até que ponto isso não se torna corriqueiro demais? Até que ponto não banaliza o sonho de tantos de estar na elite do esporte – quando essa elite, no fim das contas, se transforma em quase 25% de todo o mundo?
A Eurocopa de 2016 foi um exemplo do que pode acontecer. Não dá para negar que foi legal ver nações como Islândia, Gales, Irlanda do Norte e Albânia figurando entre as melhores do continente. Suas torcidas estiveram entre as mais marcantes do torneio, e isso é um dado notável. Só que, a despeito disso tudo, o nível do que se viu em campo foi consideravelmente baixo. Muitos jogos desinteressantes, muitas partidas arrastadas. E será que muitas dessas seleções não poderiam conseguir chegar à França “com as próprias pernas”, sem o inchaço do Platini? E até quando será que essas novidades deixarão de ser novas, tirando importância do feito desses países?
VEJA TAMBÉM: Por política e por dinheiro, Copa do Mundo deve aumentar para 48 seleções
Na Copa do Mundo, o fenômeno é um pouco diferente por causa da amplitude. A manobra de Gianni Infantino, tal qual um Havelange dos anos 1970, beneficia os “continentes emergentes”. Ou seja, proporcionalmente serão mais vagas para África, Ásia, Oceania e América Central. Legal que mais países como esses tenham sua vitrine na Copa do Mundo. Mas, de novo: até que ponto o sonho não fica banalizado?
Desde que a Copa do Mundo passou a contar com 32 seleções, 16 países estrearam no torneio. Um número considerável, levando em conta que 40 “novas vagas” foram dadas a partir de 1998 – oito por edição. Quando o Mundial cresceu de 16 para 24 times, entre 1982 e 1994, foram 12 estreantes em 32 “novas vagas”. E, ainda que tenham impactado um pouco no nível técnico, os dois inchaços mantinham a impressão de que a Copa ainda era um negócio para poucos, feito e tanto. Talvez o torneio com 40 participantes fosse um passo mais seguro, do tamanho das pernas. Mas preferiram ir além. E em um formato no qual diversos países só poderão desfrutar mesmo o gosto de estarem presentes, eliminados com uma partida.
A partir de 2026, a rotatividade da Copa do Mundo será maior. Alcançar a classificação ainda continuará mais complicado do que avançar a um torneio continental. Mesmo assim, o sonho se dilui, se torna mais comum. De fato, mais países terão a sua oportunidade de contar a sua história no principal palco do futebol mundial. Mas isso se perde um pouco, quando a façanha deixa de ser façanha, passa a fato corriqueiro. As Eliminatórias, ao invés de desafio, se tornam formalidade. E poderiam, sim, ser valorizadas de alguma maneira com a mudança do formato, talvez se pensando em uma repescagem mundial. Nada que tenha sido debatido a fundo.
Logicamente, vou gostar (e imagino que você também) de ver Venezuela, Cabo Verde ou Taiti finalmente disputando um Mundial. De assistir ao retorno de Haiti, Egito ou Escócia. Mas quais as consequências ao torneio, em si? Sinceramente, não dá para cravar nada sem dons premonitórios. Ou sem esperar para ver o que acontecerá. Mas, em tempos nos quais se discute o peso da Copa do Mundo para mostrar a nata do futebol mundial, esta é uma mudança considerável. O nível técnico, muito provavelmente, sofrerá. O Mundial a cada quatro anos não deixará de ser o evento mais notável no calendário do futebol. Mas parece se aproximar mais de uma feira das nações do que exatamente de uma competição de alto nível, como foi por décadas. E isso talvez traga impacto àquilo que a gente gosta, das boas histórias. Diminua também a importância delas.
VEJA TAMBÉM: Mourinho apoia expansão da Copa do Mundo: “Mais nações, mais paixão, mais felicidade”
Além do mais, uma Copa do Mundo de 48 seleções transforma totalmente o conceito de países-sede. Não exatamente por estádio. Mas por estrutura que exige em hotéis e centros de treinamento para receber tantas seleções. Se o Brasil de 2014 já causou tanto rebuliço, a discussão seria ainda maior. A não ser em países com estrutura suficiente em várias cidades (ou seja, ricos), fica difícil de pensar em um Mundial sem candidaturas conjuntas. Mesmo que Argentina e Uruguai pretendam se unir em 2030, talvez precisem de mais uma ajudinha.
No fim das contas, por mais que o discurso de “ampliar a festa” faça sentido, ninguém pode perder de vista as intenções da Fifa diante de tudo isso. Difícil uma grande entidade agir por puro altruísmo, ainda mais quando é a Fifa. Mais dinheiro vai ser gerado pelo Mundial com 48 países, isso é claro. Mais força política a atual gestão ganha, em um momento no qual os entraves do Fifagate (também a negociação de influências, não podemos nos esquecer) começam a ficar para trás. Mais peso ganham as federações, em uma queda de braço que pendia aos clubes. Não à toa, champanhes estouram às centenas na Suíça. Tudo, aliás, pareceu feito às pressas, sem as discussões profundas necessárias, aproveitando um momento de relativa estabilidade no QG da Fifa depois de tantas turbulências.
É fácil falar dos benefícios quando parte deles estão assinados em ata. E quando as perdas só serão conhecidas em nove anos, talvez menos ou mais, diante da realização do primeiro Mundial com 48 equipes. Fato é que, mesmo que mais países se beneficiem, a Copa do Mundo mergulha em um futuro um tanto quanto nebuloso. Dificilmente vai deixar de se tornar uma competição fundamental. Mas tem outras coisas a perder, talvez mais do que a ganhar. Boa parte do que se fala agora é especulação, estimativa, previsão. No entanto, que a empolgação também esteja permitida, não dá para tirar a razão de tantos que também ficam temerosos.



