Copa do Mundo 2026

Pouco testada, Argentina muda mentalidade para encarar a surpresa Cabo Verde em mata-mata

Scaloni encerra o rodízio, prepara a equipe ideal para os 16avos e duelo ganha um elo curioso fora das quatro linhas envolvendo o Negro Manuel e a Virgem de Luján

A fase de grupos da Copa do Mundo ficou para trás. Depois de uma campanha perfeita, com três vitórias em três jogos e a liderança da chave, a Argentina entra em um cenário completamente diferente no Mundial. Nesta sexta-feira (3), diante da surpresa Cabo Verde, o técnico Lionel Scaloni deixa de lado o planejamento de longo prazo para tomar decisões pensando apenas nos próximos 90 minutos.

Durante a primeira fase, a comissão técnica conseguiu administrar o elenco da maneira que havia planejado antes mesmo do início do torneio. Houve rodízio de jogadores, controle da carga física dos titulares e minutos distribuídos para praticamente todos os atletas de linha, incluindo o astro Lionel Messi, que começou no banco no último duelo frente à Jordânia. O objetivo era chegar ao mata-mata com o grupo inteiro em boas condições físicas e com ritmo de jogo.

Essa preocupação se dava devido aos problemas enfrentados antes do início do torneio. A seleção argentina conviveu com muitas lesões e problemas físicos. Até por isso, Scaloni trabalhou junto com a preparação física para que todos os jogadores chegassem com ritmo e em alto nível para os duelos decisivos.

Agora, porém, esse plano perde espaço para a necessidade de montar a equipe mais forte possível. Como o próprio Scaloni resumiu após a vitória sobre a Jordânia: “Agora a coisa boa está chegando”.

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Argentina: Fim do rodízio e volta da base campeã

A principal consequência dessa mudança será o retorno da base campeã mundial em 2022. Emiliano ‘Dibu’ Martínez, recuperado totalmente de uma fratura no dedo, segue no gol; Nahuel Molina deve reassumir a lateral direita e o meio-campo formado por Rodrigo De Paul, Enzo Fernández e Alexis Mac Allister deve atuar novamente junto.

Naturalmente, Lionel Messi também retorna ao time titular após ter sido preservado na última rodada da fase de grupos e ter entrado apenas no segundo tempo.

O planejamento para desenvolver o elenco e controlar o desgaste físico dá lugar à busca pela equipe mais competitiva possível. Cada decisão passa a ser tomada pensando exclusivamente no adversário em uma partida eliminatória.

Messi - seleção argentina
Messi em partida contra a Jordânia. Foto: IMAGO / ZUMA Press Wire

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Zagueiro do Tottenham é dúvida

Apesar da manutenção da base campeã, Scaloni ainda tem algumas decisões importantes antes da bola rolar.

A primeira delas está na defesa. Cristian Romero evoluiu fisicamente após o problema no joelho direito e voltou a treinar com o restante do elenco. Apesar de estar evoluindo bem, o jogador segue sendo avaliado e, caso não reúna condições ideais, Nicolás Otamendi aparece como alternativa para formar dupla com Lisandro Martínez.

Na lateral esquerda, o treinador também precisa definir quem oferece mais segurança para um jogo eliminatório. Nicolás Tagliafico recuperou-se da lesão e voltou a atuar normalmente contra a Jordânia, mas Facundo Medina aproveitou bem as oportunidades recebidas durante sua ausência e deixou uma boa impressão.

Seleção argentina tem disputa por vagas no ataque e no meio

Outra dúvida aparece no setor ofensivo. Lautaro Martínez marcou seu primeiro gol nesta Copa do Mundo justamente na última rodada, contra a Jordânia, e chega fortalecido para disputar posição com Julián Álvarez. O momento favorece Lautaro, mas a decisão final dependerá do desenho tático que Scaloni pretende utilizar diante dos africanos.

No meio-campo, existe ainda a possibilidade de uma pequena mudança de característica. Thiago Almada foi utilizado em diferentes momentos da fase de grupos, enquanto Giovani Lo Celso ganhou força após boa atuação contra a Jordânia. Leandro Paredes também surge como opção caso o treinador queira uma equipe com maior controle da posse de bola.

Além das escolhas individuais, a Argentina precisará fazer um ajuste coletivo importante. Na fase de grupos, encontrou adversários que, mesmo não querendo, ofereceram muito espaço ao setor ofensivo albiceleste.

Contra Cabo Verde, a tendência é enfrentar uma equipe mais cautelosa, bem organizada defensivamente e motivada pela oportunidade de fazer história. Vale lembrar que os africanos sofreram apenas dois gols na fase de grupo diante do Uruguai, deixando o poderoso ataque da Espanha no zero e indicando que Messi e companhia podem ter que lidar com o chamado “jogo de paciência”, tentando furar a defesa africana.

A surpreendente classificação dos africanos mostra que o duelo exige atenção máxima. Em partidas eliminatórias, detalhes como uma bola parada ou uma falha de recomposição que permita um contra-ataque podem definir classificados, independentemente do favoritismo construído anteriormente.

Argentina contra a Jordânia
Argentina contra a Jordânia. IMAGO / ZUMA Press Wire

Scaloni mantém rotina na seleção argentina

Fora de campo, Scaloni optou por manter a rotina que considera fundamental para o equilíbrio do grupo. A seleção seguirá hospedada em Kansas e continuará utilizando a cidade como base de preparação, adiando qualquer mudança logística até uma eventual classificação às fases seguintes.

Se na primeira fase o desafio era construir uma equipe ao longo do torneio, agora o objetivo é outro. Contra Cabo Verde, a Argentina entra em campo sabendo que não há mais espaço para testes, gestão de minutos ou planejamento futuro. O foco passa a ser exclusivamente sobreviver ao mata-mata e dar o primeiro passo rumo às oitavas de final.

Curiosidade une Argentina e Cabo Verde fora de campo

Às vésperas do confronto entre Argentina e Cabo Verde, uma curiosidade histórica conecta os dois países muito antes da bola rolar em Miami. O elo é Manuel Costa de los Ríos, um cabo-verdiano escravizado que chegou ao Rio da Prata em 1630 e ficou conhecido como “Negro Manuel”.

Segundo a tradição católica, ele testemunhou o primeiro milagre da Virgem de Luján, padroeira da Argentina, no episódio conhecido como “milagre das carroças”. A partir daquele momento, tornou-se seu fiel guardião e devoto, dedicando cerca de 50 anos de sua vida à imagem religiosa. Quase quatro séculos depois, a história volta a aproximar Argentina e Cabo Verde, agora em um duelo decisivo pela Copa do Mundo.

Foto de Gabriella Brizotti

Gabriella BrizottiRedatora de esportes

Formada em jornalismo pela Unesp, sou uma apaixonada pelo esporte em geral, principalmente o futebol. Dentre as minhas paixões, está o futebol argentino e suas 'hinchadas'.

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