Copa do Mundo

A guerra da antena contra o streaming: 2026 resgata os grandes duelos da TV na Copa do Mundo

A menos de 10 dias do Mundial, Globo e SBT apelam ao sinal terrestre para conter o barulho da CazéTV ser a única com 100% do Mundial

No dia 20 de junho de 1994, quando a Copa do Mundo teria a estreia do Brasil de Carlos Alberto Parreira contra a Rússia, quem abriu os jornais se deparou com propagandas das emissoras que transmitiam o evento. O tom era de concorrência aberta. 

A Band, mirando a Globo (e, de certa forma, o SBT, que ia muito bem com ‘Éramos Seis’ na época), mandou ver logo no slogan: “Assista à novela no canal da novela. Assista à Copa no canal da Copa”. Se os jogos do Brasil eram garantidos nos três canais, as partidas de outras seleções que se chocavam com os sucessos ‘A Viagem’ e ‘Éramos Seis’ acabavam ficando exclusivas da Band, já que Globo e SBT priorizavam as novelas.

Lucas Paquetá anotou o quarto gol da goleada brasileira
Lucas Paquetá anotou o quarto gol da goleada brasileira (Foto: Eduardo Carmim / Sports Press Photo / Imago)

O anúncio do SBT era mais engraçadinho e brincava com o histórico da Guerra Fria encerrada anos antes e com a posição histórica da emissora de Silvio Santos no Ibope: “O Brasil não vai permitir que os russos lancem foguetes nos Estados Unidos”, e “Veja o Brasil ser campeão no vice”. 

A Globo, já havia anos líder em audiência e estrutura, comprou anúncio de página dupla na véspera da abertura do Mundial para exaltar todo o seu elenco em fotos distribuídas ao longo das páginas, o slogan era “A Globo joga pra você”, e uma lista de tópicos e motivos pelos quais a emissora faria a melhor cobertura, incluindo ser a única com dois satélites exclusivos para envios de conteúdos e entradas ao vivo a qualquer hora do dia.

Uma outra Copa do Mundo e a batalha nas transmissões

32 anos depois, muita gente que vive a Copa do Mundo 2026 nasceu e cresceu em um mundo no qual isso não era mais uma realidade e se acostumou a um domínio total da Globo, que comprava a Copa inteira e só deixava quem ela topasse sublicenciar transmitir a competição sem uma concorrência real. Mas o passado voltou com força. 

A Globo agora se vê sem os direitos totais, vai transmitir 54 ou 55 jogos. O SBT vai mostrar 32, sendo os mesmos do pacote da Globo. A Band sequer vai exibir. Mas há um mundo que não existia em 1994: as transmissões digitais pela internet. Com a CazéTV, da LiveMode, que terá todos os 104 jogos, o único canal no Brasil com 100% da Copa.

Luis Felipe Freitas, Casimiro Miguel, Igor Rodrigues e Fernando Campos da Cazé TV
Luis Felipe Freitas, Casimiro Miguel, Igor Rodrigues e Fernando Campos da Cazé TV. Foto: IMAGO / Brazil Photo Press

A história e a narrativa da CazéTV se baseiam totalmente nisso. Um canal criado com a marca da Casimiro Miguel, maior streamer de esportes do mundo, para transmitir em cima da hora a Copa de 2022 com 22 jogos, apenas um por dia, agora chega ao patamar de exclusividade da íntegra do Mundial em transmissões pela internet no YouTube e em outras plataformas.

Sabendo disso, a Globo, que tem garantidos em contrato todos os jogos do Brasil, a abertura e a final, tudo isso dentro do pacote de 54 ou 55 jogos (a presença ou não da seleção brasileira na decisão do terceiro lugar define essa dúvida), resolveu apostar em um tema muito atual e já abordado pela coluna: o grito de gol atrasado de quem vê pela internet.

De uma hora para a outra, a empresa que dominou a TV paga desde os anos 1990 e que vem apostando firme no streaming com sua plataforma própria Globoplay, e que recentemente criou um canal no YouTube para concorrer com a CazéTV, a GE TV, agora resolveu gastar algumas horas de sua programação para dizer ao público que ele deve comprar uma antena digital de sinal terrestre para ver a Copa com o menor delay (atraso) e gritar gol antes de quem vê pela internet. Obviamente, na CazéTV. 

Vinícius Júnior comemora gol pela seleção brasileira
Vinícius Júnior comemora gol pela seleção brasileira. Foto: IMAGO / Latin Sport Images

O SBT, também um canal aberto, fez até reportagem em seu principal telejornal falando a mesma coisa. A estratégia é mostrar que quem assistir pela TV Globo ou pelo SBT terá uma vantagem de alguns segundos nas comemorações de gols do Brasil sobre quem estiver vendo pela CazéTV, mas que pode respingar também em plataformas pagas, como sportv (da própria Globo), N Sports (parceira do SBT) e Globoplay (onde a GE TV vai transmitir com imagens, já que no YouTube não pode por contrato).

A propaganda da Globo é muito boa, um acerto de comunicação, mas não informa o público sobre a oferta de apenas metade da Copa. Claro que até Casimiro já debochou disso no ar. Quem comprar a antena não vai ver jogos como as estreias de Argentina, Portugal, Espanha e Alemanha, todas elas exclusivas da CazéTV. No mata-mata, metade dos jogos também será exclusiva da LiveMode. 

Essa é só a primeira das guerras de narrativas entre os concorrentes nesta Copa.

Espere até começar a dos números de audiência, com cada empresa tentando “puxar a sardinha” para o seu lado e arrastar a imprensa e o público para o meio disso tudo. 

Uma coisa, porém, é fato: voltaram os tempos das grandes concorrências, adormecidas por três décadas na TV brasileira quando o assunto era Copa do Mundo. Quem levará a melhor? 

Foto de Allan Simon

Allan SimonColaborador

Jornalista e criador de conteúdo. Canal de mídia esportiva no YouTube com +164 mil inscritos, e de história do futebol com +25 mil

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