‘Um transição, outro controle’: O que Ancelotti indicou ao dividir o Brasil em dois estilos
Técnico italiano fez análise interessante após vitória sobre o Panamá no último domingo (31)
A atuação da seleção brasileira contra o Panamá no último domingo (31) chamou atenção pelo contraste entre os dois tempos. No primeiro, vitória suada por um gol de diferença com o que eram considerados os melhores jogadores à disposição de Carlo Ancelotti. Na etapa final, após 10 substituições, uma goleada avassaladora que animou um Maracanã que até vaiou o time na primeira parte.
Na entrevista coletiva após a partida, o técnico fez uma clara distinção entre as equipes de cada etapa na entrevista após a partida. Mas longe do óbvio de apontar que mudaram todos os jogadores. Ele focou nas características desses atletas e como elas alteram a forma do Brasil jogar. Um exemplo de como é um profissional que se adapta ao que tem em mãos, não impõe sua filosofia sobre o elenco.
— Foram dois times diferentes em cada etapa. […] É um aspecto que temos que considerar, porque essa equipe tem jogadores com muitas características diferentes — disse.
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Seleção brasileira deve alternar estilos na Copa do Mundo
Escalação do primeiro tempo: velocidade e ataque ao espaço
Vinicius Júnior, Raphinha, Luiz Henrique, Wesley e Bruno Guimarães, todos titulares nos primeiros 45 minutos, são jogadores que têm velocidade e a imposição física como suas principais características. Com exceção de LH, todos devem iniciar a Copa no time principal, o que indica o estilo de jogo da Seleção por toda a competição. Por esses jogadores, Ancelotti vê um time pronto para atuar “mais em transição e jogo rápido”.
— O time do primeiro tempo é mais de ida e volta, porque temos jogadores mais rápidos, fortes no um contra um. Jogar um futebol de posse não vai evidenciar as características dos jogadores — analisou.
É até por isso que o Brasil pouco controlou o Panamá nesse período. A seleção caribenha teve momentos de mais domínio da bola, terminando empatado o tempo de cada lado com a posse, e finalizou oito vezes contra nove dos donos da casa.
Foi essa intensidade do time, nos primeiros segundos, que permitiu que, assim que o Brasil perdeu a bola, Casemiro interceptasse um passe no campo de ataque antes do golaço de Vini Jr., que abriu o placar.
Aos 38, também a partir de roubada logo na sequência da perda da posse, a jogada iniciou para que o atacante do Real Madrid chutasse e Casemiro desviasse para recolocar a Seleção na frente. Uma finalização de Raphinha que passou rente à trave veio novamente por antecipações no campo de ataque.
Claro que não era o esperado que o time mandante no Maracanã tivesse uma postura de pouco controle e deixasse um adversário tão frágil ter momentos de perigo. Ainda mais porque, apesar de tantos jogadores intensos e fortes fisicamente, a pressão do selecionado de Ancelotti se mostrou falha, deixando espaço entre os setores, mesmo com as antecipações que culminaram nos gols.
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O torcedor brasileiro teve uma noção de como será esse Brasil de transição e jogo rápido no primeiro tempo contra a França, na Data Fifa de março, cenário que deve se repetir contra seleções mais fortes na Copa do Mundo. Na ocasião, os franceses passaram 65% da etapa inicial com a bola no pé em ataque posicional para tentar furar o bloqueio brasileiro.
O Brasil apostava em contra-ataques e jogadas rápidas para potencializar Vinicius Júnior e Raphinha. Em lançamento nas costas da defesa francesa, o atacante do Barcelona recebeu em velocidade e isolou boa chance na área. A partir de pressão no ataque, o jogador do Real cedeu para Gabriel Martinelli chutar com perigo da meia-lua. Foi assim também que Casemiro roubou e chutou de longe para fora.
Mas, muito desfalcada, a Seleção saiu atrás com gol de Kylian Mbappé e, no segundo tempo, tentou jogar mais, sofrendo o segundo e diminuindo posteriormente.
Quem tem na memória o “jogo bonito” brasileiro, de domínio e trocas de passes — o que parte mais de um fantasioso do que da realidade 100% — precisará aceitar que, provavelmente, o Brasil jogará de forma conservadora, fechada e vertical frente às favoritas ao Mundial, como a própria França, Espanha e Portugal, que costumam pressionar mais e dominar a bola por mais tempo.
O próprio Vinicius Júnior, à “CazeTV”, deu um indício disso: “Acredito que na Copa do Mundo vamos fazer um trabalho excelente, em que a gente vai defender muito bem e tentar sair no contra-ataque. É o que o Mister sempre pede para a gente“.
Escalação do segundo: paciência para rodar a bola com mais meias
“Mais posse, mais controle”, definiu Ancelotti sobre a etapa final contra o Panamá, marcada pela presença de um trio de meio-campo mais definido e capaz de colocar a bola no chão, se associar e aparecer para finalizar no ataque.
De Casemiro para Fabinho, pouco alterou, afinal, são dois volantes postados e de boa capacidade defensiva. As reais transformações foram as presenças de Danilo Santos e Lucas Paquetá nas vagas de Bruno Guimarães e Matheus Cunha, respectivamente.
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A dupla de clubes cariocas (Botafogo e Flamengo) exibiu toda sua técnica no passe e capacidade de infiltração na área. Paquetá chamou mais atenção com passes cavados que deixaram Danilo e Endrick na cara do gol — só o primeiro converteu a chance –, além de um belo gol de fora da área.
Danilo trouxe a infiltração na área e capacidade de finalização que Bruno Guimarães não entrega. Claro que a escalação reserva foi situacional, basicamente sem ponta esquerda pela ausência de Gabriel Martinelli, com Igor Thiago e Endrick como dupla de ataque e Rayan à direita. Ainda era um contexto contra um adversário frágil e mais cansado.
A presença de Thiago como nove, em vez de Raphinha como um atacante de movimentação, também serviu para preencher mais o centro do campo e ter sempre um cara a ser acionado. Parece ser a estrutura ideal, em especial no meio-campo, para usar contra adversários que atuem em linhas mais recuadas e ataquem pouco.
— Obviamente, com Paquetá e Danilo, pode-se controlar mais a bola, mas é menos vertical — analisou o técnico.
Ancelotti mesclará essas duas ideias contra o Egito neste sábado (6). Paquetá entrará como ponta direita, com liberdade para flutuar para dentro. Igor Thiago será o centroavante para empurrar a linha de defesa adversária e dar mais espaço para Raphinha e Vinicius Júnior brilharem.
— É o último jogo para fazer teste. Paquetá representa um jogador importante para nós, porque tem característica diferente dos outros meias. Quero testá-lo e testar o Igor Thiago no jogo de amanhã. Acho que o sistema com os quatro na frente está bastante consolidado. Quero testar uma nova alternativa no último teste — disse o italiano, já na coletiva prévia ao amistoso com os egípcios.
Depois do jogo com o Egito, a Seleção se prepara para a estreia na Copa do Mundo contra o Marrocos, em 13 de junho.