Copa do Mundo
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A Copa do Mundo na televisão brasileira: 2022, os últimos capítulos antes do resto do livro

Em cobertura de visibilidade feminina maciça e do começo da volta da pluralidade, fim da trajetória de Galvão Bueno como narrador é marco notável

Até março de 2020, o cenário rumo a mais uma transmissão de Copa do Mundo parecia previsível. Como habitual, o Grupo Globo daria as cartas. E pela primeira vez desde 2002, provavelmente ele teria exclusividade total. Tanto na televisão aberta, com a TV Globo, quanto na fechada, com o SporTV, e na internet, por meio do ge.globo. Afinal de contas, os concorrentes patinavam. Na maioria das vezes, por causa da condição financeira de arcar com o que a FIFA pedia. A tevê fechada exemplificou bem esses problemas maiores do que uma “simples” compra de direitos. Afinal, já em agosto de 2018, a Turner decidira encerrar o Esporte Interativo com este nome, por ser um caso de muitos gastos para pouca audiência, levando os jogos para TNT e Space, seus canais mais vistos, sob a marca TNT Sports, com a equipe reduzida aos nomes mais conhecidos. E a Disney ainda estava em reformulação: a venda da FOX para ela teria, aqui no Brasil, a consequência do ponto final dos canais FOX Sports, com a ESPN recebendo preferência para seguir. 

Era assim, até a pandemia de COVID-19 começar.

Entre tantas realidades que ela acelerou, uma delas foi algo que já se ensaiava dentro do Grupo Globo: deixar de lado os gastos exorbitantes, com tudo – salários, direitos de transmissão, estrutura, enfim, o que pudesse ser barateado seria barateado. Tanto pela crise econômica decorrente da pandemia (com efeitos como a alta da cotação do dólar), quanto pela postura francamente belicosa que o governo de Jair Bolsonaro tinha com ela (principalmente no início da gestão, em relação a gastos com publicidade – coisa que se inverteu, no fim), quanto ainda pelo foco da direção do conglomerado carioca de mídia na briga pelo streaming, onde seu braço Globoplay precisa medir esforços com adversários até maiores do que ela.

Assim, em nome da “revisão do seu portfólio de direitos esportivos”, conforme uma nota expôs durante esse biênio 2020/21, o Grupo Globo abriria mão de quantos direitos julgasse que não precisava, doesse onde e como doesse – buscando, talvez, uma renegociação em termos mais vantajosos para ela. Se perdesse alguns direitos de transmissão, vida que seguiria. Foi assim com a Fórmula 1, por exemplo: com a Liberty Media de Chase Carey sinalizando que não daria as mesmas comodidades obtidas nos tempos de Bernie Ecclestone (muito próximo dos globais), o Grupo Globo deixou-a de lado, após 40 anos de exibição ininterrupta do principal campeonato do automobilismo mundial. E o Grupo Bandeirantes teve caminho livre para fazer da F1 o seu carro-chefe esportivo, comprando os direitos de transmissão e fazendo cobertura ampla e elogiada – com uma equipe formada por muitos egressos globais, aliás. 

No futebol, a postura foi a mesma. Os direitos de transmissão da Champions League exigiriam muitos gastos? Pois bem: o Grupo Globo nem se esforçou muito por eles. A mesma coisa se viu com relação aos campeonatos estaduais. Já se previa que a Globo pudesse abrir mão dos direitos de exibição deles ao longo desta década, por serem pouco atraentes em termos de audiência. O rompimento com o Flamengo, vindo desde antes da pandemia; o imbróglio com a aprovação da Medida Provisória 984 – a popular “Lei do Mandante” -, levando o Flamengo a exibir o jogo contra o Boavista, pelo Campeonato Carioca de 2020, via Fla TV; a consequente rescisão do Grupo Globo pelos direitos de transmissão do Carioca, em julho de 2020; tudo isso iniciou o caminho para o conglomerado da família Marinho deixar de lado os torneios regionais de futebol. Ou não. Afinal de contas, por mais que o Campeonato Paulista tenha achado meios de ser exibido (na TV aberta, a Record; na internet, o R7, a HBO Max e o YouTube, e mais tarde o próprio Premiere), o Premiere também teve seu quinhão para manter a presença global. E bem ou mal, Mineiro e Gaúcho seguem sendo exibidos em Premiere, Globo Minas e RBS – jogos do Cruzeiro à parte, cujos direitos foram vendidos ao site do jornal mineiro O Tempo.

O problema sobre direitos de transmissão de futebol foi maior com o Grupo Globo na Copa Libertadores da América. Desde que a Conmebol passou a ter na Diez Media sua parceira de mídia para administração das transmissões, passou a ter postura mais distante do grupo carioca, também: afinal, medidas globais aborreciam a Conmebol, como minimizar ou esconder os patrocinadores da Libertadores, ou deixar de lado os caracteres e grafismos típicos da transmissão uniformizada. Esse cenário de afastamento vinha desde 2019, mesmo que os torneios fossem exibidos normalmente. Até que em agosto de 2020, durante a interrupção do futebol pela pandemia e a supracitada “revisão do portfólio de direitos”, o Grupo Globo decidiu, via departamento jurídico: também rescindiria o contrato que valia a exibição da Libertadores, para TV aberta e fechada (via SporTV). A expectativa era previsível: poder rever o contrato, em termos mais razoáveis para ela.

Foi o que faltava para o rompimento definitivo e literal com a Conmebol. A entidade sul-americana reagiu com ira, recusando qualquer contraproposta. Na TV aberta, um acordo às pressas abriu caminho para a volta definitiva do SBT ao futebol, após 17 anos, depois de um “ensaio” (mostrar a final do Campeonato Carioca, já então rescindido com a Globo) que deixou gostinho de “quero mais” para a direção da emissora paulista – e Silvio Santos também. Na tevê fechada, sem outras emissoras, a Conmebol criou seu próprio serviço de pay-per-view, a Conmebol TV, contando com profissionais do Grupo Bandeirantes numa parceria, que foi bancada em uma junção das operadoras Claro e Sky (e por isso, o serviço não estava disponível via streaming, só por essas operadoras).

Mais: a Conmebol entraria na Justiça Comum contra a Globo, exigindo a multa pela rescisão. Mais ainda: com os direitos da Copa América de 2021 à disposição, e a Globo impedida de participar da disputa por eles devido ao processo legal, a confederação sul-americana os vendeu ao SBT, seu novo parceiro próximo, e ao Grupo Disney, com a ESPN voltando a exibir um torneio com a participação da Seleção Brasileira. Além do mais, o SBT obteve o primeiro lugar de audiência com as finais de 2020 (Palmeiras x Santos) e 2021 (Palmeiras x Flamengo).

Só aí a Globo viu o tamanho do que tinha perdido. Passou 2021 negociando um acordo com a Conmebol, afinal obtido em outubro, pagando US$ 223 milhões pela rescisão do ano anterior. Em 2022, voltou firme à disputa pelos direitos de transmissão da Libertadores, que afinal conseguiu na TV aberta, após disputa férrea com o SBT – agora, aceitando todas as condições impostas pela entidade sul-americana (mostrar todos os patrocinadores da transmissão oficial; exibir a final, mesmo sem a presença de clubes brasileiros etc.). Ao SBT, restou o prêmio de consolação dos direitos da Copa Sul-Americana, além das competições europeias de clubes.

Pois bem: toda a dor-de-cabeça passada pelo Grupo Globo com a Conmebol quase se repetiu com a Fifa. Afinal, em junho de 2020, a varredura da “revisão do portfólio” fez com que o conglomerado da família Marinho entrasse na Justiça contra a entidade máxima do futebol mundial, pedindo para ser desobrigada de pagar US$ 90 milhões (R$ 462 milhões, na cotação da época), parcela anual que lhe valiam os direitos de transmissão dos eventos da entidade – a Copa do Mundo masculina, claro, o mais prestigioso deles. A FIFA, claro, não abriu mão: queria receber o montante, pelo acordo assinado em 2011.

Desta vez, a querela jurídica acabou rapidamente – e acabou até bem para a Globo. Com o processo correndo na Justiça Comum do Rio de Janeiro (bem mais próxima do âmbito global), as conversas com a FIFA foram se amenizando. A Globo aceitou as condições da Fifa: pagar valor menor pelas parcelas de 2020 e 2021, desde que abrisse mão da exclusividade dos direitos de transmissão da Copa do Mundo masculina para meios digitais.

Cachimbo da paz fumado, em outubro do ano passado, a Globo poderia se aliviar. Mesmo com a perda surpreendente dos direitos de transmissão do Mundial de Clubes de 2021 para o Grupo Bandeirantes, se pacificaria com a Fifa ao mostrar competições como os Mundiais de Futebol de Areia e Futsal, ambos exibidos no ano passado via Globo (só os jogos do Brasil, como previsível) e SporTV. E poderia exibir a Copa do Mundo, como faz desde 1970 – parceria da qual se vangloriou ao longo da transmissão desta Copa.

O que não quer dizer que as emissoras que ficaram sem os direitos deixaram a Copa do Mundo sem espaço na programação. Nas emissoras abertas, o SBT teve Mauro Beting comentando as partidas no Jornal do SBT, bem como espaços para debates tanto na internet (o Fut Live, habitual pós-jogo feito no perfil do canal de Silvio Santos no YouTube) quanto na TV (aí, só no Arena SBT, a mesa-redonda semanal comandada por Benjamin Back, tendo Emerson Sheik e Cicinho como participantes). A Record também mandou seus repórteres ao Catar. Na TV paga, a TNT Sports também teve seus representantes: o comentarista Vitor Sérgio Rodrigues e o repórter Marcelo Bechler foram dois deles.

Mas foi a Bandeirantes que se sobressaiu, com a sua velha tradição esportiva. Na “emissora-mãe”, além das reportagens de Fernando Fernandes, os habituais comentários coléricos de Neto no Os Donos da Bola, mesa-redonda na hora do almoço – com direito a um momento de revolta hilária do ex-jogador, após o acompanhamento ao vivo dos pênaltis de Brasil x Croácia. No Bandsports, além do envio de destaques do canal ao Catar para reportagens (Glenda Kozlowski, Elia Júnior, Tiago Leme, Isabelly Morais), vários debates dedicados à Copa – tendo à frente o G4 do quarteto Eduardo Tironi, Arnaldo Ribeiro, Marília Ruiz, Paulo Massini, e o Baita Amigos, mais um debate com a aparição preponderante de Neto, contando com participantes como Maurício Barros, Mauro Galvão e Rafael Oliveira. Até José Trajano foi contratado, para aparições em alguns noticiosos do canal, assim como Eduardo Monsanto.

https://youtu.be/jyU4rwDAcAw
Trecho inicial do “Os Donos da Bola”, na TV Bandeirantes, com a apresentação de Neto e os comentários de Velloso, Souza e Tatola Godas, durante as cobranças de pênalti de Brasil 1 (2)x1 (4) Croácia, pelas quartas de final da Copa do Mundo, em 9 de dezembro de 2022

Preâmbulo longo, tantas foram as reviravoltas, agora sim, se pode descrever (e comentar) como foram as transmissões da Copa do Mundo. E na internet, a Fifa demorou para achar uma parceira – mais do que pensava…

Cazé TV (YouTube)/FIFA Plus

Narração: Luís Felipe Freitas, Chico Pedrotti, Raony Pacheco, Kaio Cezar e Michell Santana 

Comentários: Casimiro Miguel, Raphael Rezende, Felipe Rolim, Eduardo Barthem, Victor Canedo, Daniel Braune, Marcelo, Edmílson, Denílson, Juninho Pernambucano e Gilberto

Participações (“reacts”): Casimiro Miguel, Guilherme Beltrão, Ítalo Sena, Diogo Defante

Apresentação: Andrey Raychtock

Reportagens: Isabela Pagliari, André Hernan, Alexandre Oliveira, Rafael Morientes e o Jackson Pinheiro

Após o acordo com o Grupo Globo, a Fifa teria nas mãos os direitos digitais de transmissão da Copa do Mundo. Certo, o grupo carioca de mídia continuaria podendo exibir as partidas no Catar, via Globoplay e ge.globo. Ainda assim, para quem acompanhasse a Copa na tela do computador (ou do smartphone), haveria opção. E a entidade que comanda o futebol mundial sonhava alto. Pensava em revenda dos direitos a qualquer um dos gigantes do streaming: Netflix, Star Plus (o portal de filmes e esportes comandado pela Disney, vitaminado pelos vários direitos de transmissão de campeonatos, em várias modalidades), HBO Max (serviço da Warner, com vários filmes à disposição, mas vinculado fortemente ao esporte pelos direitos de transmissão da Liga dos Campeões), Paramount Plus (ambicioso no esporte, após obter um dos pacotes de tevê fechada para a Copa Libertadores a partir de 2023)… a Fifa sonhava alto.

Teve de baixar a bola: a quantia pedida para poder mostrar os jogos da Copa era demasiada até para conglomerados de mídia tão poderosos. Às vésperas da bola rolar no Catar, o pacote à disposição seguia sem dono. O máximo que aconteceu foi a Disney obter o pacote de melhores momentos – ou highlights: o Star Plus teria compactos de cinco e quinze minutos para cada partida da Copa à disposição, narrados e comentados pela equipe dos canais ESPN (que também teve cobertura maciça para o Mundial, tanto nos debates – ESPN 360, ESPN FC, Linha de Passe, Sportscenter – quanto com os correspondentes enviados: Mauro Naves, Gláucia Santiago, Zinho, Gustavo Hofman, João Castelo Branco etc.). Porém, era só. Comprar o pacote dos jogos completos, que era bom, ninguém se arriscava.

Até o começo de novembro. Foi quando a Live Mode, empresa parceira da Fifa para negociar o pacote no Brasil, tratou de tomar uma atitude. Comandada por dois dos nomes mais importantes (e menos falados) na mídia esportiva brasileira dos anos recentes – Edgar Diniz e Sérgio Lopes, dois dos responsáveis por catapultar o Esporte Interativo a posição de destaque -, a Live Mode procurou um parceiro conhecido. Um parceiro que já vinha aparecendo no futebol, ao ter os direitos dos jogos do Athletico Paranaense para a televisão fechada (em versão pay per view) no Campeonato Brasileiro. Um parceiro que cativava cada vez mais audiência. Um parceiro que era um projeto inteiro de comunicação, simbolizado numa só pessoa: Casimiro Miguel.

Casimiro Miguel, o “Cazé”, explicando como seria a transmissão dos jogos da Copa do Mundo na Cazé TV

O carioca filho de imigrantes portugueses já era conhecido de quem acompanhasse esportes (ou e-sports) desde suas aparições no programa EI Games, no Esporte Interativo. Começou a atrair atenções e risadas com suas perorações – ou melhor, “reacts” – a qualquer coisa que visse na internet, como a preparação de suculentos lanches, ou a qualquer coisa que ocorresse nas imediações de seu apartamento. Aos poucos, a piada ficou bem mais elaborada – sem deixar de ser piada: programas eram criados na Cazé TV, aventuras de Casimiro em vários videogames eram transmitidas via Twitch, contando com auxílio de colegas no que era paródia já no nome: a “Rede Gordo”, que tinha gente conhecida de Casimiro no Esporte Interativo, como os narradores Octavio Neto (este, seguindo em TNT/Space) e… Luís Felipe Freitas.

Pois tão logo se confirmou que a Live Mode repassara os direitos de transmissão de 22 jogos da Copa do Mundo à Cazé TV, para exibição no YouTube, no começo de novembro, “Luizinho” apostou no projeto do parceiro Casimiro. Narrador elogiado nos tempos de EI, que seguiu em TNT/Space, celebrizado pela capacidade em vários idiomas, notabilizado tanto nos jogos da Champions League quanto na NBA, ele decidiu deixar os canais da Turner, encampando de vez o papel de ser a voz da Copa na Cazé TV. Cazé, claro, estaria logo ali, na janela do lado, para fazer suas observações bem humoradas sobre o que se via em campo. E para os jogos em que a Cazé TV não teria os direitos, os “reacts” seriam o destaque em si.

Então seriam só Luis Felipe e Casimiro? Nada disso. Aí entrou a importância da Live Mode – e a flexibilidade tão característica da internet. Em primeiro lugar, as transmissões seriam feitas em parceria com o FIFA Plus, serviço de streaming (gratuito, por enquanto) lançado pela entidade em 2021, garantindo que o bom humor jamais se confundiria com amadorismo. Em segundo lugar, vários colegas de Casimiro estavam dentro do projeto. Como um parceiro dele, desde os tempos de Esporte Interativo: Guilherme Beltrão, também notabilizado pelos “reacts”, também capacitado para comentar o que se visse com bola rolando. 

A partir daí, vários nomes foram captados para vitaminarem a cobertura da Copa. Para trazerem o olhar de jogador, vários nomes com experiência em televisão: Juninho Pernambucano (de volta aos comentários de futebol, após a saída conturbada do Grupo Globo, pouco antes da Copa de 2018, participando das transmissões dos jogos do Brasil), Denílson (ainda uma das caras da Bandeirantes), Edmílson (vindo da experiência em várias transmissões do SBT na Copa Libertadores). Outro nome era novo na frente das câmeras, mas experiente em campo: o ex-lateral esquerdo Gilberto, trazendo a vivência de duas Copas do Mundo. 

A liberdade dada pelos respectivos locais de trabalho – e uma parceria com a Ronaldo TV, o canal do “Fenômeno” no Twitch – também possibilitaria a mais gente estar na Cazé TV participando da Copa. Nas narrações, Raony Pacheco, Michell Santana, Kaio Cézar e Chico Pedrotti – antes o “Chicungunha” dos tempos de Desimpedidos, agora um locutor estabelecido, por várias partidas no YouTube – ajudariam Luis Felipe Freitas. Nos comentários, um nome conhecido dos tempos de Esporte Interativo, experiente em várias plataformas, era garantido para Cazé TV e FIFA Plus: Felipe Rolim. Assim como Victor Canedo, egresso do Grupo Globo – mais precisamente do ge.globo, onde era o principal nome a falar de futebol internacional -, já colaborador habitual de TNT/Space, que também teria liberdade para comentar a Copa, mesmo também trabalhando para a Ronaldo TV, mediando debates com o ex-atacante. Tais debates teriam mais nomes que fariam dupla jornada na Cazé TV: Eduardo Barthem e Daniel Braune. Todos esses, muito ativos nas mídias sociais. Mais um egresso de Globo/SporTV, Andrey Raychtock faria a apresentação de alguns debates.

Neles, também estaria Raphael Rezende, ex-SporTV, relembrando seus tempos de imprensa em meio ao trabalho como chefe do departamento de análise de desempenho do Botafogo. E nas reportagens no Catar, três nomes que saltaram das restrições televisivas para a pluralidade e a agilidade da internet: Isabela Pagliari (única mulher na equipe, recém-saída de TNT/Space, trazendo a experiência de correspondente em Paris), André Hernan (que deixou Globo/SporTV para desenvolver seu próprio canal no YouTube) e Alexandre Oliveira (meses após ser dispensado do Grupo Globo). Os três fariam as reportagens nos jogos do Brasil.

https://youtu.be/J5KAgG0h15A
Entrevista de Antony a André Hernan e Isabela Pagliari, com participação de Júnior Baiano, Luis Felipe Freitas, Casimiro Miguel e Juninho Pernambucano, após a transmissão de Brasil 2×0 Sérvia, na Cazé TV

No entanto, Copa iniciada – o Catar 2×0 Equador da abertura teve Luís Felipe Freitas narrando, com Guilherme Beltrão e Casimiro comentando informalmente (sem deixar de manter alguma seriedade) e Juninho Pernambucano como convidados especiais -, o destaque de reportagem da Cazé TV foi para dois humoristas – algo até esperado, tendo em vista o tom informal da cobertura. Residente em Buenos Aires, Ítalo Sena acompanhou toda a Copa cobrindo, obviamente, a reação argentina – quando não fazendo piada com os próprios argentinos. Diogo Defante foi além: baterista da Let’s Go, uma banda emo, em tempos idos, se reinventou como humorista. E não só esteve no Catar, como roubou a cena com aparições e perguntas a jogadores da Seleção Brasileira, no pós-jogo.

https://youtu.be/qPCFq2iQcaU
Diogo Defante participando da entrevista de Rodrygo a André Hernan e Isabela Pagliari, durante o pós-jogo de Brasil 1×0 Suíça, com a participação de Casimiro Miguel, Luís Felipe Freitas, Guilherme Beltrão e Juninho Pernambucano

Então a cobertura da Cazé TV foi uma palhaçada? Nem tanto. Longe disso. Na hora dos debates, havia visões e métodos até esperados para um canal do YouTube: tier lists, “cara a cara”, debates puros e simples, enfim, tudo isso contido na “Live da Copa”, debate diário contando, em regra, com os três pilares da cobertura – Luís Felipe Freitas, Casimiro, Guilherme Beltrão.

https://www.youtube.com/watch?v=Pt6iLTNUvSg
“Live da Copa” na Cazé TV, com as perspectivas para a final entre Argentina e França, em 16 de dezembro de 2022, com os comentários de Luís Felipe Freitas, Casimiro Miguel, Guilherme Beltrão e Pedro Certezas

Enfim, como bem comentou Mauricio Stycer em sua coluna no UOL, a Cazé TV foi o que a Bandeirantes foi no início dos anos 1990, o que a TV Record foi no começo dos anos 1980… enfim, uma opção mais acessível e mais informal ao domínio esperado do Grupo Globo na cobertura da Copa do Mundo. Foi uma prova prática da justificativa que Casimiro sempre dá quando perguntado por que não será contratado exclusivo de nenhuma emissora de televisão: não precisa disso. Seu público não é exatamente o da televisão, mas complementar a ela. Ou mesmo querendo escapar dos métodos dela, querendo ser mais participativo, mais caloroso, coisa que a internet propicia melhor. Não fosse assim, e não viriam os recordes de visualização, jogo após jogo da Seleção Brasileira – “coroados” com os 6,9 milhões de visualizações da Cazé TV no YouTube, na transmissão da eliminação para a Croácia.

De certa forma, a Cazé TV conseguiu mostrar a alguns, mais desconfiados, que sua informalidade não significaria necessariamente baixo nível ou relaxo com um evento do tamanho da Copa. Provou que, à sua maneira, merece respeito.

Em três frases: Casimiro meteu essa. Transmitiu decentemente a Copa. Serinho.

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Globo

Narração: Galvão Bueno, Luís Roberto, Cléber Machado, Renata Silveira, Gustavo Villani, Rembrandt Jr.

Comentários: Júnior, Ana Thaís Matos, Roque Júnior, Caio, Roger Flores, Richarlyson, Diego, Ricardinho, Zé Roberto, Sálvio Spínola e Paulo César de Oliveira

Reportagens: Eric Faria, Edgar Alencar, Edson Viana, Carlos Gil, Gabriela Ribeiro, Guilherme Pereira, Pedro Bassan, Karine Alves, Marcelo Courrege, Guto Rabelo, Carol Barcellos, Júlia Guimarães, Débora Gares, Felipe Brisolla e Kiko Menezes

Apresentação: Felipe Andreoli, Lucas Gutiérrez, Alex Escobar, Bárbara Coelho e Tiago Medeiros

Participações: Fred, Jojô Maronttinni (Jojô Toddyinho) e Marcelo Adnet

Como a introdução já indicava, de 2018 para cá, a TV Globo passou por profundas mudanças. Mas é possível dizer que só em 24 de março ocorreu o marco inicial da cobertura da Copa de 2022 na emissora do Jardim Botânico carioca, a grande mudança que viria com ela, o fato que chamou a atenção de muitas pessoas em todo o país (algumas, até que nem acompanham tanto o futebol). A partir do tuíte abaixo:

Foi assim, ao mencionar que o Brasil 4×0 Chile das eliminatórias da Copa do Mundo seria a sua última narração de um jogo da Seleção Brasileira no Maracanã, que Carlos Eduardo dos Santos Galvão Bueno informou ao público: entrava na reta final de sua trajetória como narrador esportivo de televisão. Após 48 anos de carreira – e 41 na Globo, com os dez meses de Rede OM como “pausa” entre 1992 e 1993 -, Galvão iria mudar o rumo tão logo seu contrato com a Globo terminasse, no fim deste ano. Já de acordo assinado com a Play9, empresa de negócios da internet comandada pelo youtuber/empresário Felipe Neto e um velho conhecido de Galvão (João Pedro Paes Leme, ex-repórter, ex-diretor executivo de esportes da Globo), ele já fazia projetos paralelos à televisão nos últimos anos – como o “PodFalar, Galvão”, podcast em que recordava momentos marcantes da carreira. Já usava a internet para turbinar a repercussão de suas narrações – como se viu nas câmeras que flagraram suas reações na cabine, durante os Jogos Olímpicos de Tóquio. E anunciava: tão logo se encerrasse o contrato com a Globo, desejava virar um publisher, um criador de conteúdo dentro da internet.

Passado o choque, era possível avaliar que a mudança era até previsível. O locutor já vinha perdendo parceiros históricos – Arnaldo Cezar Coelho tivera a última aparição como comentarista na Copa passada, Reginaldo Leme deixara a emissora no fim de 2019, e viria ainda a saída de Casagrande. A Fórmula 1, eterna menina dos olhos dele, deixara o grupo de mídia no ano passado. Além do mais, o susto que veio na forma de um princípio de infarto, em Lima (Peru), onde estava para narrar a final da Copa Libertadores da América que o Flamengo venceria em 2019, foi um ponto de partida para algumas mudanças. Aprofundadas pela pandemia: parte do grupo de risco (chegou aos 70 anos em 2020), Galvão se restringiu ao escritório de sua casa em Londrina (Paraná), ou à fazenda em Candiota (Rio Grande do Sul), de onde comanda as plantações e as operações da Bueno Wines, sua empresa de vinhos. Lá aprofundou a paixão pelas agilidades do trabalho via internet. E decidiu que seria esse seu foco, ao parar de narrar. Usando uma expressão repetida por ele várias vezes, desde o anúncio do fim da trajetória como narrador: esse capítulo se fecharia, mas o livro continuaria.

Mas o anúncio de que a Copa de 2022 seria a última de Galvão Bueno como narrador não era a única mudança notável pela qual o canal dos Marinho passara. Os repórteres que o digam. Primeiro, Mauro Naves, com uma saída traumática: em junho de 2019, pouco antes da Copa América, ao passar um contato telefônico ao pai de Neymar em meio à fase mais dramática de investigações da acusação de estupro que Nájila Trindade fizera, a Globo julgou que o repórter sonegara informações que seriam jornalisticamente úteis. À boca pequena, falava-se que o salário alto de Naves estava na mira de certos cortes. E a direção uniu os dois fatos para tomou a decisão até desastrada: às pressas, suspendeu o repórter, sinalizando a demissão que logo viria. Mauro Naves demorou um pouco para reorganizar a carreira, até chegar à FOX Sports, ainda ativa, em 2020 – e ser integrado pela ESPN após o fim da emissora. 

Outras duas saídas foram mais suaves. Desde 2015, quando teve o seu primeiro “período sabático”, Tino Marcos vinha reduzindo o ritmo de atividades. Aqui e ali, sinalizava certos problemas com a nova era em que os contatos de jogadores com jornalistas era mais e mais diminuído. Ainda foi à Copa em 2018, mas ao cobrir o título do Brasil na Copa América de 2019 – sediada no Brasil, com um título da Seleção, como ocorrera em 1989 -, sentiu que um ciclo se fechava. Ficou mais concentrado em séries de reportagens especiais desde então. E ao concluir uma série para o Jornal Nacional, no começo de 2021, com atletas brasileiros que participariam dos Jogos Olímpicos, o repórter que se tornara símbolo de esporte na TV Globo (a ponto de virar meme) confirmou: após 35 anos, deixaria a emissora – para reduzir o ritmo da vida, se concentrando na convivência com a família, uma entrevista ou outra, uma participação ou outra em publicidade.

Já Marcos Uchôa preferiu acelerar a vida, em outro sentido. Após tantas coberturas no exterior, políticas ou esportivas, teve as viagens forçosamente reduzidas pela pandemia e pelas contenções financeiras do grupo de mídia. Teve um espaço para seguir trabalhando – por coincidência, com o colega descrito acima: o Tino Marcos Uchôa, programa de entrevistas feitas por videoconferência ao longo de 2020 no SporTV. Mesmo sem ir a Tóquio em 2021, sua larga experiência em Jogos Olímpicos o tornou comentarista fixo do Ohayo Tóquio, mesa-redonda do SporTV para arrematar os dias de competições olímpicas durante a cobertura do ano passado. 

Contudo, mais e mais, crescia um sentimento no jornalista, conforme ele comentou em entrevista ao UOL neste ano: “Só que eu precisava fazer algo novo. Já não me fazia brilhar os olhos mais uma Copa do Mundo – já cobri oito”. E logo após participar de um documentário do Globoplay – “Notícias de uma guerra sem fim”, que abordava suas várias coberturas de conflitos -, Uchôa decidiu, em novembro de 2021: após 35 anos, deixaria a Globo para militar mais abertamente na política. Primeiro, tentou ser candidato a deputado federal carioca, pelo PSB – a falta de verbas freou a candidatura, mal a campanha eleitoral tinha começado. Ele seguiu trabalhando ativamente nas campanhas de candidatos ligados à esquerda, embora um pouco mais desencantado, como revelou à Folha de S. Paulo: “As pessoas basicamente não se interessam nem em reunião de síndico, né? Acho que isso simplesmente ilustra o momento de paralisia e anestesia de uma esquerda que está bem profissionalmente, que tem a sua empregada, que tem a sua estrutura, que consegue viajar, que consegue estar bem. E que reclama, mas, ao mesmo tempo, não quer mudar tanto assim. (…) Acho que tive uma certa inocência adolescente”. Tanto que chegou a retornar ao jornalismo para a Copa do Mundo, participando da cobertura do Lance!, diário convertido em site.

Mas as saídas traumáticas da Globo retornaram com Casagrande. Quando o ex-jogador, um dos principais comentaristas do grupo (na “emissora-mãe” e no SporTV), anunciou que deixava a emissora após 25 anos, no começo de julho de 2022, a surpresa foi aparentemente grande. Ainda mais pelo vício do ex-jogador – e sua luta contra ele – terem sido temas de série recente do Globoplay (“Casão num jogo sem regras”). Contudo, bastava ouvir uma frase que Casagrande disse no vídeo do anúncio, e que repetiria algumas vezes depois (“Um alívio para os dois lados”), para entender a saída. Casagrande explicou mais ainda: se se sentia respaldado para dar opiniões como e sobre o que quisesse, nos tempos em que Luiz Fernando Lima era o diretor de esportes da emissora – e Marco Mora, seu diretor executivo -, os últimos anos trouxeram uma falta de eco interno aos seus comentários que lhe incomodaram. Assim como lhe incomodava ficar sem liberdade para falar livremente sobre Neymar e Seleção Brasileira, dois temas sobre os quais sua oposição era clara, ou mesmo relacionar futebol e política. Saída consumada, Casagrande encontrou guarida em UOL, para falar – e viajar à Copa, como sempre quis -, e Folha de S. Paulo, para escrever colunas.

Saídas superadas, lema definido para tentar (ingenuamente…) minimizar a polarização vivida pelo Brasil nos últimos anos – “Tamo junto pela Copa” -, pelo menos a Globo teria Galvão Bueno como seu carro-chefe em mais uma Copa do Mundo, restrito a princípio ao jogo de abertura, à decisão e às partidas da Seleção Brasileira. A seu lado, como comentarista principal, um velho parceiro e amigo fora das cabines: Júnior, indo para a sexta Copa no Grupo Globo. Como o ex-jogador da vez, meses após ter deixado as participações no Seleção SporTV, Roque Júnior voltaria a colaborar com o conglomerado, desta vez comentando as partidas do Brasil na “emissora-mãe”. Mas seria a terceira comentarista parceira de Galvão Bueno a chamar mais a atenção.

Quando repórter da Rádio Globo, já participando aqui e ali do Seleção SporTV, a paulistana Ana Thaís Matos fora elogiada então por sua participação no Troca de Passes – Copa, do SporTV, em 2018. Bastaram alguns meses para ela ser efetivada no corpo de comentaristas do canal esportivo do Grupo Globo – iniciando no Campeonato Paulista de 2019, num jogo entre Ituano e Novorizontino. No mesmo ano, a primeira colaboração na TV Globo, comentando os cinco jogos que a emissora exibiu na Copa do Mundo feminina (os quatro do Brasil, e a final), sem deixar de fazer aquela cobertura também pelo SporTV.

E a paulistana da Baixada do Glicério foi conquistando mais espaços dentro da Globo, nos anos seguintes. No matinal Encontro – primeiro com Fátima Bernardes, depois com a dupla Patrícia Poeta/Manoel Soares -, Ana Thaís virou a cara e a voz do Encontro com a Bola, quadro semanal do programa comentando a rodada do futebol nos fins de semana. Paulatinamente, ela virou rosto habitual dos comentários nas transmissões de futebol, tanto em Globo quanto em SporTV. Na internet, participou do Partiu Catar, o podcast-guia do ge.globo sobre cada uma das 32 seleções do Mundial. E enfim, foi confirmada para comentar a Seleção Brasileira na Copa do Mundo masculina – como certamente fará na feminina, em 2023. A televisão brasileira já tivera outras mulheres em suas coberturas de Copas. Já tivera até comentaristas – na transmissão alternativa do FOX Sports 2, em 2014, Marília Ruiz e Ana Paula Oliveira haviam participado. Mas Ana Thaís seria a primeira a ter espaço nos comentários de jogos de Mundiais dos homens, dentro da emissora mais vista do país. Críticas vieram, elogios também, mas uma coisa era inegável: era um fato histórico. 

Ana Thaís Matos começou a despontar nas aparições pelo SporTV durante a Copa de 2018. E virou o rosto de um momento pioneiro: a primeira comentarista da Globo num Mundial – e reservada aos jogos do Brasil (TV Globo/Divulgação)

Se Ana Thaís Matos era o símbolo da presença feminina nos comentários da Globo dentro da Copa masculina, haveria outro símbolo nas narrações. A Copa de 2018 já apresentara Renata Silveira aos olhos de quem assistisse à televisão: vinda de experiências na Rádio Globo durante a Copa de 2014 (vencedora de um concurso, narrou então Uruguai 1×3 Costa Rica), a carioca Renata fora uma das vencedoras do “Narra Quem Sabe”, concurso organizado pelo FOX Sports para escolher três narradoras que dariam voz à transmissão alternativa do segundo canal esportivo da FOX para os jogos na Rússia. Coube a Renata narrar, entre outros jogos, o França 4×2 Croácia da final – e ter ali o pontapé inicial de uma carreira que evoluiria rapidamente na telinha.

Renata ficaria para a equipe de locutores do FOX Sports depois da Copa de 2018. Quando a venda da FOX à Disney representou a necessidade de fusão com a ESPN, ela ficou para ser a voz de várias partidas, no futebol feminino ou no masculino. Chamou a atenção aqui e ali, em torneios como a Champions League Feminina, então transmitida pelos canais ESPN. Com a Globo buscando, cada vez mais, vitaminar sua equipe – até pela importância que o futebol feminino ganhava no espaço esportivo da emissora -, era previsível e foi concretizado: em dezembro de 2020, o Grupo Globo anunciava a contratação de Renata. Em 55 anos de história do grupo de mídia dos Marinho, o pioneirismo era ainda maior: tratava-se da primeira locutora de esportes que a Globo teria. Formada em Educação Física, pós-graduada em Jornalismo Esportivo, Renata se convertia em mais um símbolo.

Ao longo de 2021, Renata se consolidou como a voz de algumas partidas da Seleção feminina. No torneio olímpico, dividiu a narração dos jogos mais importantes com Natália Lara no SporTV. Quando a Globo abria espaço para o futebol feminino, era ela a voz preferencial. Também aparecia, aqui e ali, em outros esportes – chegou a narrar no SporTV provas de break dance, modalidade olímpica a partir de Paris-2024, se valendo de ter na dança seu outro lado profissionalmente importante (Renata é dona e professora de uma academia no Rio). E virou nome elogiado na televisão brasileira quando conduziu no SporTV, equilibrando emoção e informação, o momento da parada cardiorrespiratória de Christian Eriksen, em Dinamarca 0x1 Finlândia, pela Euro disputada ano passado. Em 2022, espaço conquistado, veio a confirmação: dentro da divisão Globo/SporTV, ela ficaria no lado da “emissora-mãe”. Seria a primeira narradora da Globo – e de qualquer emissora aberta – numa Copa do Mundo, nos 72 anos de história da televisão do Brasil.

Renata Silveira começou em televisão na Copa de 2018, pelo FOX Sports. Nesta Copa seguinte, foi a primeira narradora da TV Globo em um Mundial masculino – e aproveitou muito bem a chance, com ótimo trabalho (Reprodução/TV Globo)

De resto, a cobertura da Globo teria o habitual. Talvez, mais modesto: com a distância do Catar, a sequência da pandemia (ainda que amenizada pela vacinação) e o dinheiro em menor quantidade, o número de enviados à Copa seria menor. Apenas duas equipes de narração estariam in loco: além da supracitada Galvão-Júnior-Ana Thaís-Roque Júnior (este, só nos jogos do Brasil), o trio Luís Roberto-Caio-Roger seria o único outro a estar no país-sede da Copa.

Compreensível, tendo em vista a visibilidade ganha por Luís Roberto: o locutor paulistano aproveitou o trabalho elogiado na Copa de 2018 para consolidar, de lá para cá, seu estilo “radiofônico”, mais cheio de bordões, e passou a ser considerado, se não o sucessor de Galvão Bueno, o nome mais próximo dos eventos mais importantes quando Galvão parasse de narrar. Como membros da famigerada “Central do Apito”, Sálvio Spínola e Paulo César de Oliveira foram os escolhidos para a Globo.

No reportariado global, cinco nomes ficariam mais relacionados à Seleção Brasileira: Karine Alves, Gabriela Ribeiro, Felipe Andreoli e Carol Barcellos seriam vistos ao falarem de treinos e dia a dia no hotel. Na hora dos jogos (com direito a aparição no gramado, pré-jogo), Eric Faria seria o setorista preferencial, em sua primeira Copa como o principal repórter global do Brasil. No mais, os outros se alternariam nas outras seleções e nas imediações dos estádios: Débora Gares (vinda dos canais ESPN), Marcelo Courrege, Júlia Guimarães, Edgar Alencar, Carlos Gil, Edson Viana, Guto Rabelo… 

Causou alguma espécie o afastamento de Cléber Machado: mesmo indo para sua nona Copa do Mundo na emissora, o locutor ficaria no Brasil. Falando nisso, quem ficasse no Brasil encararia método de trabalho semelhante ao já visto nos Jogos Olímpicos do ano passado, válidos por 2020: trabalhos centralizados num estúdio no Rio de Janeiro, com telas nas quais seriam projetadas imagens ininterruptas do Souq Waqif, o mercado geral de Doha, simulando o “estúdio de vidro” que havia em Moscou na Copa de 2018 para o Grupo Globo.

De lá, as equipes de narradores e comentaristas comandariam as transmissões dos jogos. De lá seriam apresentados o Globo Esporte (que só voltou à grade de programação a partir das oitavas de final) e o Esporte Espetacular, com Tiago Medeiros como figura onipresente: celebrizado na apresentação do Globo Esporte pernambucano, ele pôde mandar nacionalmente um “cheiro” às “suas joias” (como chama os telespectadores), fazendo parceria com Bárbara Coelho no EE.

E desse estúdio também seria visto o programa a arrematar a cobertura diária. O Central da Copa voltava ao ar. Desta vez, com a apresentação de Alex Escobar, cada vez mais habituado a transitar entre o esporte (comanda o momento do futebol no Fantástico, interagindo com os “cavalinhos”, e o Globo Esporte carioca) e o entretenimento (em 2019, no programa Popstar, até deu vazão ao seu lado cantor, que já exercitou algumas vezes).

Falando nisso, num programa mais ligado ao lado lúdico, era compreensível a presença de Jojô Maronttinni, a “Jojô Toddyinho”, ícone de entretenimento popular – do Jojô Nove e Meia, programa de entrevistas que apresenta no Multishow, à participação n’A Fazenda, o reality show da Record. Jojô assumiu: comentaria os lances da Copa como a espectadora que só se aproxima do futebol na época dos Mundiais. Teria auxílio em Escobar e no outro integrante fixo da Central da Copa: Fred, de carreira recém-encerrada nos campos, faria seus comentários de forma bem humorada – em meio à sua nomeação como diretor de planejamento esportivo do Fluminense em que fez tanta história.

O trio Escobar-Jojô-Fred fez o habitual da Central da Copa: recebeu nomes ligados ao entretenimento, de cantores (Xande de Pilares, Lexa) a atores (Ary Fontoura, Vladimir Brichta, Marcelo Serrado, Rafael Cardoso), passando pelas atrizes (Carolina Dieckmann, Susana Vieira, Mariana Santos, Fernanda Paes Leme) e por Tadeu Schmidt, “antecessor” de Alex Escobar no Fantástico.

Repórter enviado ao Catar, Lucas Gutiérrez mostraria lados pitorescos do país-sede e dos jogos, no “Segue a Copa”; Fred teria um quadro lendo as reações dos internautas ao programa; Jojô teria o “Jojornal”, comentando a Copa de modo escrachado. Mas seria um quadro de humor o único item notável do programa – até pelo seu horário tardio, inviabilizando boa audiência, começando numa faixa horária que poderia ir das 23h30, nas terças e quintas, à 00h15, aos sábados. Só aos domingos, às 15h, o Central da Copa era visto mais cedo.

Lucas Gutiérrez (primeiro da esquerda para a direita) mostrou o lado pitoresco do Catar, enviado que foi; Jojô Toddyinho (segunda), Alex Escobar (terceiro) e Fred (quinto) fizeram o esperado, num programa de entretenimento sobre a Copa; mas foi Marcelo Adnet (quarto), com as imitações do “Que Doha é essa?!”, que saltou aos olhos no “Central da Copa” que arrematava a cobertura da TV Globo (TV Globo/Divulgação)

No “Que Doha é essa?!” (trabalho semelhante ao que já fizera no “Soy loco por ti, América”, durante a Copa América de 2019), Marcelo Adnet se destacaria. Principalmente por suas imitações: , que “noticiava” os fatos do Mundial, de uma maneira… literal.

O “Que Doha é Essa?!” não chegou a ser um sucesso popular maciço, mas deu certo a ponto de merecer um especial só para ele no SporTV, no 17 de dezembro da véspera da final da Copa. De quebra, a imitação de Marcelo para Galvão Bueno se tornou quase tão onipresente na cobertura global quanto o próprio, em sua despedida da narração. A ponto de , no Esporte Espetacular do domingo da final.

Mas o que importa em Copa é bola rolando. E na hora dos jogos começarem, a saúde segurou Galvão Bueno por mais alguns dias: com o teste positivo para a COVID-19, dias antes da viagem ao Catar, o símbolo global precisou deixar de lado a cerimônia (e o jogo) de abertura que narraria, se ausentando de um primeiro dia de Copa pela primeira vez desde 1986 (e inviabilizando o Bem, Amigos! especial que ocorreria em 14 de novembro, para celebrar sua despedida como narrador).

Coube ao trio Luís Roberto-Caio-Roger registrar a festa no Lusail – e o que deu o pontapé inicial para as partidas. Foi no intervalo da primeira partida, aliás, que Luís ficou novamente falado por uma relativa gafe. Ao comentar a música que tocava no sistema de som, chamou a atenção: “Ouve aí, reconheceu aí? ‘Could Play’!”. Jogos e dias depois, Luís fez questão de dizer: sabia que era Coldplay o nome da banda…

No segundo dia e no segundo jogo da Copa, Gustavo Villani apareceu, . Antes da Copa, o narrador paulista transpareceu certa decepção ao jornalista gaúcho Duda Garbi, sobre ficar no Brasil mesmo vindo de narrar a final da Copa pelo FOX Sports em 2014 e os jogos do Brasil pelas transmissões da Globo para cinemas em 2018: “Ao não ir em 2018, era pretensão ir para 2022”. Ao mesmo tempo, reconhecia que o mundo e as condições haviam mudado: “Eu não sou menino, teve pandemia no meio do caminho. (…) Tenho discernimento, tem uma pandemia, o câmbio explodiu, é uma Copa cara”.

E Villani teve lá sua compensação: mesmo criticado aqui e ali pelo excesso de bordões, ele foi a voz da Globo para os grandes momentos da epopeia de Marrocos na Copa: foi ele quem transmitiu o . Além do mais, ao ficar do lado da Globo na separação de profissionais do grupo de mídia, Villani teve o sinal: ainda há coisa reservada para ele.

Assim como para… Cléber Machado. A princípio, ficar no Brasil era um mau sinal. Ampliado por um ato julgado por muitos como indelicado com ele: ao narrar , Cléber noticiou no intervalo o evento pelo qual muitos jornalistas veteranos de Copas foram premiados no Catar por FIFA e ISPA (Associação Internacional de Imprensa Esportiva). Entre eles, dois nomes da Globo: Galvão Bueno, 13 Mundiais, e o produtor João Ramalho. Matéria apresentada, Cléber quis lembrar: estava na nona Copa da carreira… mas o narrador fez do limão uma limonada.

Agilizou mais suas narrações. Tornou-as bem humoradas – como ao fazer o trocadilho do “Saka… pra fora. Não, não é um jogo de vôlei” em . Alguns gostaram do bom humor e dos trocadilhos; outros se aborrecem com as conversas no meio do jogo. Mas é certo que ele voltou a ser falado na cobertura. Voltou a ser assunto. Respeito merecido, para alguém com 33 anos de casa.

Assim como foram falados os ex-jogadores que a Globo contratou somente para sua cobertura da Copa. Alguns, falados positivamente: de carreira recém-encerrada nos campos, Diego foi fluente e compreensível a ponto de ter sido sondado para prolongar sua passagem como comentarista. Outros, falados negativamente: Zé Roberto foi criticado por ser lento demais para o ritmo televisivo – e por um erro cometido em Estados Unidos 1×1 País de Gales, ao citar que Timothy Weah marcara gol, anos depois “do pai marcar numa Copa do Mundo”… sendo que o pai George Weah jamais esteve num Mundial.

De resto, as caras já eram conhecidas das transmissões globais habituais: Ricardinho, Richarlyson (que até “cantou” um trecho de canção do Só Pra Contrariar com Gustavo Villani, durante Inglaterra 3×0 Senegal), Paulo Nunes… Valia citar, ainda, outra semelhança com a longínqua cobertura da Copa de 1990, além de poucos enviados ao país-sede da Copa: cada zebra – do Arábia Saudita 2×1 Argentina à vitória de Marrocos sobre a Espanha, passando pelo Japão 2×1 Alemanha – era celebrada com uma “zebrinha” aparecendo rapidamente na tela, após o jogo.

Nos narradores, Renata Silveira confirmou seu pioneirismo como a primeira mulher a dar a voz principal a um jogo de Copa do Mundo na televisão brasileira, num jogo da seleção a que estava óbvia e emocionalmente vinculada: a Dinamarca. Porém, deu voz a um .

Virou até piada com a programação da Globo: de tantos jogos narrados às 7h da manhã (foram cinco), as transmissões eram chamadas de “Bom dia, Renata”. Nos julgamentos, foi mais elogiada, mostrando atenção na preparação pré-jogo (em seu perfil no TikTok, Renata compartilhava sempre o momento de anotações em seu caderno de estudos). E ao terminar narrando o , deixou claro: entre defensores e detratores, ainda é só o começo de sua trajetória. Que deverá ter nova conquista na Copa feminina do ano que vem, quando deverá ser ela a narradora principal da Globo.

Luís Roberto teve dois momentos na Copa. Após narrar a abertura, foi dele a locução para e mais quatro jogos da última rodada da fase de grupos, com destaque para Senegal 2×1 Equador e Coreia do Sul 2×1 Portugal – todos, exibidos via ge.globo, com reprise na tevê durante a madrugada, como habitual da TV Globo em Copas). 

Recuperado, Luís voltou em . Junto aos parceiros habituais de cabine – Caio e Roger, com quem interagia informalmente -, ele seguiu até o final como o “segundo” principal narrador da Globo.

Ainda assim, Luís foi mais criticado do que em 2018. Os bordões vistos como criativos e emotivos no Mundial passado foram vistos como repetitivos agora. E a criação foi menor – um, recuperado de seus tempos de rádio (ao ver um goleiro que sofrera um gol, murmurava um “essa não deu pra você”), outro, talvez motivado pela pausa forçada e o excesso de 0 a 0 do começo da Copa (no gol, Luís celebrava como “eu quero gritar gol!”). Mas seu novo status na carreira foi confirmado (menos) por ter narrado o . 

Falando nele… recuperado da COVID, Galvão começou sua última Copa como narrador já no , ressaltando o que costuma ressaltar em quedas brasileiras no futebol: que “é só um jogo”, que “o futebol não resolve os problemas de uma nação etc.”. Mas deixou claro no Jornal Nacional daquele 9 de dezembro: “A vida segue, mas não era para ter perdido”.

Ali começavam, de certa forma, seus últimos momentos como narrador. Tanto que Ana Thaís Matos cumpriu ali o que já prometera: homenagear efusivamente Galvão, falando “você é o cara” várias vezes. Ele, por sua vez, afirmou que torceria pela Argentina, rival tão provocada por ele ao longo de alguns momentos da carreira. Foi premiado: narrou os . Antes do jogo começar, inclusive, teve uma homenagem invejável: ao lado de Roger e Caio, Galvão foi o único profissional de televisão, fora os dos canais franceses e argentinos, a ter acesso ao gramado do Lusail, durante o pré-jogo da Globo.

Foto: Reprodução/TV Globo

Mais do que a final, o último jogo de Carlos Eduardo dos Santos Galvão Bueno como narrador esportivo foi o que chamou a atenção na TV Globo. Festa feita e taça entregue aos argentinos, Galvão viu Ana Thaís e Júnior, seus parceiros de Copa, apresentarem duas homenagens – um dos colegas de Grupo Globo, outra do público. E ainda lhe presentearem com uma camiseta, assinada por todos os membros enviados ao Catar. Todas, agradecendo pelos 48 anos de emoções verbalizadas por ele. Que, em lágrimas, retribuiu: “Eu que tenho de agradecer. Acho que alguma coisa boa eu fiz, senão eu não estaria aqui”.

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Mas a despedida de Galvão deixou, como sempre, a porta entreaberta. Ele falou textualmente: “Vou continuar por aqui”. Vai mesmo. No começo do ano, estreará O Poderoso Galvão, série do Globoplay sobre sua trajetória. E mesmo liberado para ser o publisher que tanto sonha na internet, Galvão renovou contrato com o Grupo Globo (“sua casa”, como ele costuma dizer) até 2024. Uma vez por ano, participará de um programa – e fará as locuções das propagandas dos grandes eventos esportivos que o grupo dos Marinho mostrará. Tem dois projetos de programas de auditório, unindo esporte e entretenimento. E já está garantido para ser um “comentarista especial” nos Jogos Olímpicos de Paris, que a Globo mostrará em 2024 – se possível, certamente estará na cerimônia de abertura.

Tudo isso resume o que Galvão falou: “Não sei viver sem vocês”. Talvez a Globo também não saiba viver sem Carlos Eduardo dos Santos Galvão Bueno. Talvez nem a televisão brasileira.

SporTV

Narração: Luiz Carlos Jr., Milton Leite, Natália Lara, Everaldo Marques, Jader Rocha, Júlio Oliveira e Rogério Correa

Comentários: Lédio Carmona, Pedrinho, Paulo Vinícius Coelho (PVC), Grafite, Renata Mendonça, Mauricio Noriega, Paulo Cesar Vasconcellos, Janette Mara Arcanjo, Sandro Meira Ricci, Paulo Nunes, Alexandre Lozetti e Fábio Júnior

Repórteres: os mesmos da TV Globo

Apresentação: Marcelo Barreto, André Rizek, Magno Navarro, Igor Rodrigues, Mariana Fontes, Felipe Diniz, Luiz Teixeira e Camila Carelli

Participações: Elano, Thiago Neves, Filipe Luís, Cristiane, Tamires, Kléberson, Andrés D’Alessandro, Michel Bastos, Dorival Júnior, Pedro Moreno, Conrado Santana, Luís Castro, Formiga, Hernanes, Petkovic, Carlos Eduardo Mansur, André Loffredo, Henrique Fernandes, Marcelo Raed, Deborah Secco e Aloísio Chulapa

Qual a diferença, hoje em dia, entre Globo e SporTV? Quase nenhuma, de fato, se pensarmos que, atualmente, os programas da “emissora-mãe” aberta citam que determinado programa ou competição passarão no SporTV, como se fosse um segundo canal. De fato, é: é uma Globo focada em esportes (assim como a Globo News é a Globo focada em notícias, o Multishow é a Globo focada em entretenimento, o BIS é a Globo focada em música etc.). Até pela contenção de gastos, é esperado que a sinergia seja cada vez maior entre um e outro. O que não impede que o SporTV tenha seus ganhos próprios. Até por ser um canal que pode se aprofundar mais em debates, por exemplo, ao contrário da Globo aberta.

Considerando isso, o SporTV já teve um tremendo ganho para suas transmissões de futebol antes mesmo da pandemia de COVID-19 eclodir. Desde sua passagem marcante pelos canais ESPN, Paulo Vinícius Coelho era visto como um “sonho de consumo” pelo grupo de mídia sediado em Jacarepaguá/Curicica. Em matéria para a revista Piauí, publicada em 2007, PVC ainda resistia: “Eu não sou um jornalista para a Globo. Se ela convida alguém, é porque essa pessoa está se tornando uma pequena celebridade”.

Mas o tempo passou. Como tudo na vida, a Globo mudou. PVC, também – principalmente a partir da rumorosa ida para o FOX Sports, anunciada em dezembro de 2014 e consumada no primeiro dia de 2015. Até que, em janeiro de 2020, com o fim do FOX Sports se avizinhando, se anunciou o casamento tão pensado: o jornalista paulista radicado no Rio de Janeiro iria para o grupo, de mala e cuia. Seria blogueiro no ge.globo, comentarista em SporTV/Premiere, apareceria de vez em quando em programas esportivos da Globo. União celebrada pelo protagonista, então: “Existia uma troca de olhares antiga, que agora virou namoro de verdade. Vai ser legal”.

O Grupo Globo quis Paulo Vinícius Coelho, principalmente, para o SporTV. Por muito tempo. Em 2020, enfim, o casamento se consumou (Raphael Zarko)

Dois anos depois, PVC era um dos nomes óbvios na cobertura que o SporTV prepararia para a Copa do Mundo. Assim como um nome que veio pouco depois dele. E nem tão ligado assim a futebol: embora transmita o ludopédio com regularidade, Everaldo Marques se notabilizou mesmo por (se) popularizar nas transmissões de NBA e NFL na sua passagem pelos canais ESPN, com cuidado e didatismo nas narrações – sem deixar de lado os bordões que o tornaram célebre e querido, de “você é ridículo” a “joga pro alto e reza”, passando pelo “bingo”.

Pois bem: com a Globo desejando locutores cada vez mais poliesportivos, Everaldo foi o nome escolhido, em fevereiro de 2020. Passada a pausa esportiva geral forçada pela pandemia, o narrador paulistano originado na Rádio Jovem Pan pôde comprovar seu talento, sendo um nome muito elogiado pelo trabalho na cobertura dos Jogos Olímpicos. Com o “você é ridículo” cada vez mais popular, Everaldo também poderia se considerar nome certo na cobertura da Copa.

Presença feminina preponderante? O SporTV também teria. A começar por uma repórter: Karine Alves. Vinda do FOX Sports em março de 2020 para apresentar o Tá na Área (que logo voltará a ser tema aqui), a jornalista gaúcha, cantora bissexta, teve naquele ano uma tarefa difícil: foi deslocada para o comando do Troca de Passes, após a lacuna tristemente deixada pelo carismático apresentador que foi Rodrigo Rodrigues (1975-2020), vitimado por uma trombose venosa cerebral, complicação decorrente da COVID-19.

Karine tomou o Troca de Passes para si de 2020 adiante. Com sucesso. Tanto que migrou para a “emissora-mãe” em 2021, virando apresentadora do “trecho paulista” do Esporte Espetacular. Foi bem também ao ser uma das principais repórteres da cobertura global nos Jogos Olímpicos de Tóquio. E na Copa, enviada ao Catar que foi, ao mesmo tempo em que poderia participar do Jornal Hoje na Globo com informações sobre a Seleção Brasileira, Karine também era a repórter preferencial no Troca de Passes – Copa e no Tá na Copa, que serão descritos logo.

Entre o corpo de comentaristas, mais uma novidade teve na Copa masculina momento importante de uma trajetória ascendente: Renata Mendonça, jornalista paulistana com passagens por ESPN e BBC Brasil, despontada a partir da coordenação e do trabalho no Dibradoras, site sobre esporte feminino criado por ela com Roberta Nina e Angélica Souza. Há alguns anos Renata já estava habituada a participar semanalmente do Redação SporTV. E a migração foi previsível: em 2020, ela se tornou parte fixa da equipe do Grupo Globo, se alternando entre futebol feminino e masculino. Assim como participou ativamente dos comentários do torneio olímpico feminino nos Jogos de Tóquio, Renata participaria ativamente do Mundial masculino pelo SporTV.

Trajetória mais ascendente – e mais rápida – teve a narradora que chegou ao canal esportivo da Globo em maio de 2021: Natália Lara. A paulistana da Zona Leste, formada em Rádio e TV, fora a quarta colocada no “Narra Quem Sabe” do FOX Sports em que Renata Silveira ganhou a oportunidade na Copa de 2018. Depois, começara a trajetória de narradora na TV Cultura, em jogos de futebol e vôlei. Pouco depois, ampliou seu lado poliesportivo, dando voz a várias modalidades, tanto em NSports, quanto no Canal Olímpico do Brasil.

No futebol, narrou vários torneios no DAZN. Teria um primeiro grande momento em março de 2021, ao chegar aos canais ESPN para narrar várias ligas europeias de futebol, além de começar a dar voz aos jogos da NBA. Durou pouco lá – porque, após só dois meses no novo empregador, o Grupo Globo a levou.

Mas a grande mostra do crescimento do papel feminino nas coberturas talvez tenha vindo de Júlia Guimarães. Mais focada no SporTV (embora colaborando com a TV Globo), a repórter mineira passara por constrangimento lamentável, ao trabalhar na Rússia em 2018 e ser vítima de assédio de um torcedor croata, prontamente repelido por ela. Quatro anos depois, em seu segundo trabalho in loco numa Copa, Júlia trabalhou nos arredores do estádio Khalifa Internacional, cobrindo o ambiente antes de Equador 1×2 Senegal. Foi abordada por uma torcedora equatoriana, que… lhe entregou uma rosa. O gesto gentil – e a comparação inevitável com a impertinência de 2018 – emocionaram Júlia, que registrou isso no SporTV.

No mais, o SporTV teve usos e costumes bem semelhantes aos da Copa de 2018. Começou com um programa de teor histórico, a preparar o terreno para a transmissão dos jogos e a criação dos debates: o Que Copa é Essa?, dominical noturno apresentado por André Rizek, com Paulo Cesar Vasconcellos e Paulo Vinícius Coelho debatendo a história das Copas, de 1930 a 2018, com participantes especiais aqui e ali – Jairzinho, no programa sobre as Copas de 1966 e 1970; Leão, sobre 1974 e 1978; Júnior, sobre 1982 e 1986; Branco, sobre 1990 e 1994; e Cafu, convidado no programa sobre 2002.

Finalmente, na grade de programação do SporTV para a Copa, a estrutura seria a mesma vista na Rússia: informativo abrindo o dia na manhã, programa anterior pré-jogo, os jogos propriamente ditos, debate comentando o que se viu em campo, um debate ainda mais aprofundado, um momento de bom humor, e já tarde da noite, outro noticioso para fechar o dia. Todos, ganhando o epíteto Especial Catar junto aos nomes originais.

A maratona começava com o SporTV News, em que Mariana Fontes (apresentadora experiente dos tempos de Esporte Interativo, vinda ao Grupo Globo para cobrir a licença-maternidade de Janaína Xavier e efetivada após a saída de Janaína) preparava o dia, junto a dois comentaristas – em regra, André Loffredo, parceiro habitual de Mariana no SporTV News “normal”, e o mineiro Henrique Fernandes.

Após o fim dos jogos às 7h, voltava o Redação SporTV. Repórter investigativa cada vez mais elogiada – partiram dela as matérias que puseram a nu os problemas financeiros do Cruzeiro e as denúncias de assédio do ex-presidente da CBF, Rogério Caboclo, a funcionárias da entidade -, em sua primeira Copa do Mundo no Grupo Globo, Gabriela Moreira liderava o debate, tendo em regra a dupla Tim Vickery e Sérgio Xavier Filho na mesa, quando não outros participantes habituais do programa, como o jornalista Aydano André Motta e o baterista/produtor/apresentador (e um amante de futebol, faceta desconhecida até há pouco) Charles Gavin.

Jogos encerrados, era a vez do Troca de Passes – Especial Catar. Nele, Felipe Diniz, apresentador paulista migrado do Globo Esporte estadual para o Troca de Passes habitual que comanda (com PVC comentando), mediava o debate. Que tinha Bárbara Coelho com papel notável: titular da apresentação do Esporte Espetacular na “emissora-mãe”, a jornalista capixaba ganhava na televisão o espaço para comentar que só tivera antes no Rodada Tripla, podcast de mulheres comentando esporte no ge.globo.

Aos domingos, então, Bárbara tinha jornada dupla: EE de manhã, Troca de Passes à tarde. Ao lado dela e de Felipe Diniz, Carlos Eduardo Mansur (símbolo do caderno de esportes do jornal O Globo, onde começara repórter e terminara colunista, Mansur se tornara comentarista do SporTV em 2020) e Elano, responsável por fazer em 2022 o que Grafite fizera no Troca de Passes da Copa de 2018: trazer olhar mais tático e conhecedor das coisas do campo, sem exagerar nos jargões.

Nos dias sem jogos, houve ainda uma versão adicional: o Troca de Passes – Reacts, na qual uma dupla (apresentador-comentarista) assistiam aos lances dos jogos e comentavam, à la internet, o que tinham achado das partidas. Depois, Marcelo Barreto e André Rizek repetiam no Seleção Catar a dupla de mediadores vista na Rússia. Só os comentaristas eram diferentes. Um nome habitual do SporTV (poderia ser Alexandre Lozetti, Carlos Eduardo Lino, Renata Mendonça ou Henrique Fernandes) se unia a vários dos jogadores e técnicos convidados para a cobertura.

Trazendo a experiência de pentacampeão (e da Copa de 2010), Kléberson foi um dos ex-atletas convidados especialmente para os trabalhos. Pelo lado de vindas da Seleção Feminina, Formiga – um ícone do futebol feminino nacional, já habituada a ser convidada especial nas transmissões do Grupo Globo para a equipe brasileira de mulheres – também marcou presença nos jogos e no Seleção. Integrante dos comentários dos jogos da Seleção Brasileira feminina na cobertura dos Jogos Olímpicos passados, Cristiane era nome certo no Seleção. Como Tamires, ainda titular absoluta na lateral esquerda do Corinthians e da Seleção, que também esteve no debate noturno do SporTV.

Recém-demitido do Flamengo, Dorival Júnior chegou na última semana da Copa, participando do Seleção Catar – e com uma opinião polêmica, ao comentar que a Seleção Brasileira precisa ter um técnico nativo. Mas os nomes mais fixos eram outros – e nomes unanimemente elogiados. Técnico do Botafogo, o português Luís Castro trouxe visões consideradas profundas – coroadas com a análise precisa em 8 de dezembro, sobre o que o meio-campo da Croácia poderia fazer (e faria) contra o Brasil, nas quartas de final do dia seguinte.

Outro nome vindo dos campos que, para muita gente, poderia ficar na equipe definitiva do SporTV (se ainda não fosse jogador) foi Filipe Luís. O lateral esquerdo do Flamengo já participara – deixando boas impressões – da transmissão do SporTV para o sorteio dos grupos da Copa, em abril. Após negociações que chegaram a parar, acertou as participações no Seleção Catar. E confirmou a qualidade em seus comentários – especialmente ao mencionar que a Espanha não tinha “a arte do engano”, ao comentar as dificuldades ofensivas espanholas, em referência à derrota para o Japão.

Já um outro ex-jogador vindo para os trabalhos da Copa no SporTV causou impressão oposta: Hernanes. Não, o “Profeta” tão querido dos são-paulinos não chegava a ser mau comentarista. Entretanto, teve como um problema apontado algo parecido ao que causou críticas a Zé Roberto na Globo: a falta de fluência e rapidez em seus comentários. Também tendo um grande exemplo vindo do Seleção Catar, em 7 de dezembro, com a “habilidade” na matemática sendo gozada internet afora.

Quando o Seleção Catar terminava (com o “Diário da Copa”, texto comentando os fatos do dia, escrito ora por Marcelo Barreto, ora por André Rizek), por volta das 22h30, era a hora do humor no SporTV. Com um programa que começou causando desconfianças… e terminou, pelo menos para a maioria, sendo melhor do que a encomenda. Sob o comando da dupla Magno Navarro (exímio imitador, ainda mais quando o focado é Renato Gaúcho, PVC ou Pedrinho)-Igor Rodrigues, o Tá na Área deixou de ser meramente noticioso para acumular o entretenimento a isso. Em sua roupagem para o Catar, convertido em Tá na Copa, o programa teria um convidado futebolístico – Aloísio Chulapa – e mais uma convidada fanática pelo “clima de Copa”, mesmo sendo afastada do meio do futebol: a atriz Deborah Secco.

Com mais tempo (uma hora de programa) e um horário um pouco mais acessível, o Tá na Copa passou impressão um pouco superior ao da Central da Copa na “mamãe Globo”. Um dos símbolos da teledramaturgia global, Deborah Secco foi muito comentada, principalmente pelas customizações que fazia da camisa azul que era o uniforme da cobertura do Grupo Globo.

Mas seus dois quadros no programa faziam sentido. No “Responda a Secco”, Deborah fazia perguntas “capciosas” sobre o dia na Copa aos outros integrantes do programa; no “Deborah Secca”, ela fazia jus ao sobrenome e “secava” adversários do Brasil e rivais considerados perigosos, de secador na mão em meio aos Estúdios Globo. Do lado de Aloísio Chulapa, vinha a leveza e o bom humor que fizeram do ex-atacante personagem querido do meio do futebol – mesmo que ele não pudesse tomar no ar os “danones” (sua gíria pessoal para cerveja) de que tanto gosta. Enfim, o Tá na Copa pode não ter sido bom. Mas ruim também não foi.

Mais voltado ao entretenimento, o “Tá na Copa” causava temor a alguns telespectadores no SporTV, sobre provável “desastre”. Mas se saiu bem dentro de sua proposta, a partir do entrosamento do quarteto Magno Navarro-Aloísio-Deborah Secco-Igor Rodrigues (João Miguel Júnior/TV Globo/Divulgação)

Terminando o dia, voltava o SporTV News. Na edição noturna, o apresentador titular era Luiz Teixeira. Experimentado dos seus tempos de rádio, com o jogo de cintura aprimorado pelas aparições que faz no Redação SporTV e pelo Tá On, programa que apresenta na hora do almoço, Luiz reportava os fatos ocorridos, tendo em geral Camila Carelli (a jornalista carioca foi outra a fazer a transição da extinta Rádio Globo para o SporTV) e Carlos Eduardo Lino a seu lado no estúdio.

E nos jogos? Assim como na matriz Globo, o SporTV teve apenas duas equipes de cabine enviadas ao Catar. No primeiro trio, encarregado da narração dos jogos do Brasil, estavam Milton Leite narrando (mais desenvolto, utilizando-se dos bordões de sempre – como o “Alô, alô, Brasil” apregoado antes do grito de gols da Seleção), Lédio Carmona e Pedrinho comentando – com o ex-meia confirmando sua posição atual, considerado quase unanimemente o melhor comentarista ex-jogador da atualidade.

No segundo trio, que esteve tanto no jogo de abertura quanto na final, Luiz Carlos Jr. foi o locutor. Teve bom entrosamento com Grafite (para ele, o “Grafa”) e PVC – e ainda usou e abusou de um bordão. Bastavam as luzes dos estádios se apagarem, nos intervalos, em meio às músicas de volume alto, para Luiz Carlos exultar: “Virou rave!”.

Das equipes que ficavam no Brasil – todas, tendo Sandro Meira Ricci e Janette Mara Arcanjo como os nomes da “Central do Apito” -, mereceu notoriedade a colaboração vinda do Globoplay, também exibida no SporTV 2. Assim como a Cazé TV, o serviço de streaming do Grupo Globo teria direito a mostrar um jogo por dia. Teria um fato merecedor de atenção: a volta de Tiago Leifert ao grupo que o viu nascer para a televisão – agora, ao invés de apresentar algo, Tiago seria o narrador das partidas e âncora do Hora da Copa, pré-jogo comentando o que ocorria no dia.

A seu lado, uma equipe fixa de comentaristas: Luis Carlos de Lorenzi, o popular (nem tanto, para torcedores de Sport e Santos…) Lisca Doido, junto ao analista de desempenho Thomaz Freitas – trazendo os números de cada jogo em tempo real -, e Fernanda Colombo como a representante da “Central do Apito”.

Só variava o convidado especial: foi de Fábio Porchat ao ator Douglas “DG” Silva, participante do Big Brother Brasil do início do ano, passando pela skatista Pâmela Rosa e terminando, na final, com Gil do Vigor, outro célebre participante do BBB (no caso, o de 2021). Final que, aliás, não teve Tiago Leifert narrando: com Tiago dando prioridade às sessões de quimioterapia por que passa sua filha Lua, em tratamento de um retinoblastoma (tumor na retina – também por esse motivo ele preferiu deixar o trabalho mais contínuo na Globo), coube a Daniel “Dandan” Pereira narrar o Argentina 3(4)x3(2) França no 18 de dezembro.

Mas o grande destaque, entre as equipes de narração que fizeram os trabalhos dos estúdios no Rio de Janeiro, foi de novo Everaldo Marques. Ou melhor, “Ezebraldo” Marques. Tendo geralmente a seu lado Maurício Noriega e Hernanes nos comentários, o locutor paulista quase monopolizou as surpresas da Copa em seu segundo grande evento no Grupo Globo. Tudo começou com ele dando voz ao 2 a 1 da Arábia Saudita na Argentina. O jogo seguinte do trio Everaldo-Maurício-Hernanes? Outra zebra: Alemanha 1×2 Japão. Marrocos 2×0 Bélgica? Everaldo narrando. França 0x1 Tunísia? Lá estava ele. Coreia do Sul 2×1 Portugal? Idem.

Mas seria com a trajetória de Marrocos que o narrador se confirmaria como um dos grandes nomes do SporTV na Copa do Mundo. Foi ele a dar voz à histórica vitória nos pênaltis sobre a Espanha, nas oitavas de final. Pedido pelo público, foi ele também o arauto do triunfo mais histórico ainda sobre Portugal, nas quartas de final, tornando os Leões do Atlas a primeira seleção sul-africana classificada às semifinais de uma Copa do Mundo. E se ficou de fora das semifinais (uma narrada pelo trio Milton Leite-Lédio Carmona-Pedrinho, outra pelo trio Luiz Carlos Jr.-Grafite-PVC), Everaldo Marques teve o previsível prêmio de narrar o Croácia 2×1 Marrocos de 3º/4º lugares. E pôde ouvir de cada vez mais gente que é um narrador vivendo uma fase… “ridícula”.

Outros narradores (e comentaristas) tiveram momentos para se lembrar nos trabalhos da emissora esportiva da Globo. Natália Lara deu a voz emocionada ao primeiro gol da volta do País de Gales a uma Copa do Mundo, no 1 a 1 contra os Estados Unidos, e ao primeiro gol do Canadá na história dos Mundiais, antes da virada da Croácia rumo à goleada por 4 a 1. Goleadas, por sinal, fizeram falta à dupla Renata Mendonça-Kléberson. Comentando Dinamarca x Tunísia, narrado por Júlio Oliveira, testemunharam um 0 a 0.

Depois, México x Polônia, com Rogério Correa dando voz; outro 0 a 0. A dupla de comentaristas opinou sobre Marrocos x Croácia, nos grupos, com Jader Rocha como locutor: nada de gol. Uruguai x Coreia do Sul, com Rogério Correa? Quarto “oxo” seguido na Copa para Renata Mendonça e Kléberson. Que só se aliviaram com o 1 a 0 do Irã no País de Gales. Gol “comemorado” na foto abaixo.

Faltou citar dois outros ex-jogadores? É porque o mais bacana ficou para o fim: fixos no Seleção Catar, Michel Bastos e Andrés D’Alessandro criaram uma relação de amistosas alfinetadas, brincando com a rivalidade Brasil-Argentina. Mesmo em dias em que os dois folgavam, seguiam as brincadeiras. Aos poucos, D’Alessandro tinha sua importância aumentada no debate noturno. Era mais liberado para deixar aflorada sua torcida pela seleção do país natal. Processo coroado no último Seleção Catar: afinal, D’Ale, “Topo”, um dos grandes ídolos do Internacional nos últimos 15 anos, agradeceu ao Brasil por ser “sua segunda pátria”, mas comemorou com lágrimas o terceiro título mundial da Argentina. Com direito a cantar o “Muchachos” que foi o som da torcida albiceleste, a ostentar a bandeira, a vestir a camisa…

Fecho sensível, numa cobertura que fez do SporTV, previsivelmente, líder de audiência nos canais pagos. Mas que avançou pouco em relação a 2018.

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No texto sobre a cobertura televisiva da Copa de 2018, que concluiu o especial publicado nesta Trivela, especulava-se que o rumo das transmissões de futebol vinha tendo perguntas para as quais não haveria respostas definitivas, mas que o cenário talvez estivesse mais definido em 2022.

Pois bem: de fato, algumas características estão bem delineadas agora. Em primeiro lugar, lamente-se ou goste-se, futebol é (ou “está”) entretenimento. Discussões políticas a partir da modalidade andam aborrecendo muitos que a acompanham, e que preferem ver apenas o jogo em si.

Em segundo lugar, a figura do “comentarista” é outra que anda pela “bola sete”. Tanto o comentarista do jogo quanto (e até mais) o de arbitragem. O primeiro é contestado quando tenta explicar o futebol com termos excessivamente táticos, para justificar certas coisas. A eliminação do Brasil foi a prova: bastou ela ocorrer, para muitos criticarem o que, para eles, foi excesso de proteção sobre todo o trabalho de Tite. O comentarista de arbitragem, então, é condenado quase sem direito a defesa: seja qual for o nome, tem “corporativismo” praticamente estampado na testa. Com certa razão, reconheça-se.

Por fim, o fato do Grupo Globo ter aceitado abrir mão dos direitos de transmissão digital desta Copa do Mundo é um sinal do que vem por aí. Após pelo menos 20 anos em que era mais importante ser o “canal exclusivo” de determinado evento, a tendência é de que as opções de transmissão sejam cada vez mais variadas. Casimiro Miguel, que começou este especial, exemplificou bem isso: queria ter a liberdade de comentar em suas “lives” Neymar – O Caos Perfeito, série biográfica da Netflix sobre o dito cujo. Foi liberado. E as comentou, após conversa com o próprio Neymar. Afinal de contas, era mais uma possibilidade para se falar sobre a série, ao invés de restringi-la ao Netflix.

O Grupo Globo já sabe disso. Tanto que, pelo que notícias informam, já assinou contrato com a FIFA (com a qual mantém boa relação), garantindo os direitos de transmissão da Copa de 2026. Mas sem exclusividade. Para nenhum meio: TV aberta, TV fechada, internet. Porque o poder dele pode ser grande (até imbatível, no Brasil), mas o desejo de cada pessoa em ver a Copa do Mundo como quer está maior.

Uma fase se concluiu – e o fim aparente da trajetória de Galvão Bueno como narrador é um sinal involuntário disso. Porém, usando a metáfora que Galvão tem gostado, virou-se uma página, mas o livro continua. 2022 foi o último capítulo. O resto do livro promete ser atraente.

Lista de todos os especiais de Copa na TV:

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