Conheça o jogador

Hristo Stoichkov: o mito búlgaro

Ídolo do Barcelona e ícone cult dos anos 1990, Stoichkov criou uma legião de fãs pelo seu estilo em campo e pela sua sinceridade fora dele

Por Luís Filipe Pereira

“Existe um Cristo lá em cima e outro aqui embaixo, ambos fazem milagres”. Assim Stoichkov se definia nos áureos tempos de Barcelona. Além da facilidade em desequilibrar os jogos com seus dribles e arrancadas, sua carreira foi marcada pelo temperamento explosivo, traço de sua personalidade marcante. Mostra disso são suas declarações, quase sempre polêmicas.

Além do clube culé, onde protagonizou dupla memorável com Romário, Stoichkov marcou época defendendo mais duas equipes. O CSKA Sofia, clube que o projetou no cenário europeu e a seleção búlgara, país sem tradição em Copas do Mundo, que sob sua batuta alcançou um honrado quarto lugar, em 1994. Credenciais mais do que suficientes para que Hristo Stoichkov seja venerado por muitos como o maior jogador do futebol búlgaro em toda a história.

A carreira

Hristo Stoichkov nasceu em Plovdiv, segunda maior cidade da Bulgária, em 8 de fevereiro de 1966. Sua carreira teve início no ano de 1981, na modesta equipe do Maritsa Plovdiv, clube de sua cidade, que disputava a segunda divisão do campeonato nacional. Desde a mais tenra idade, o menino canhoto que demonstrava enorme habilidade e visão de jogo se notabilizava pelas confusões que arranjava. Sabendo dos problemas disciplinares do filho, seu pai o levou para treinar no CSKA Sofia. Sua esperança era de que no time do Exército, o garoto conseguiria desenvolver seu autocontrole e com isso, amadurecer.

Na primeira vez que disputou um título, a Copa da Bulgária de 1985, fez o gol da vitória. No entanto, o jogo contra o aqui rival Levski Sofia terminou numa briga generalizada e Stoichkov acabou envolvido na confusão. As imagens do jogo foram tão contundentes que o Comitê Central do Partido Comunista Búlgaro viu-se na obrigação de conclamar uma reunião entre seus membros, para deliberar algumas sanções aos clubes e aos jogadores. Resultado: alguns jogadores, dentre eles o jovem Stoichkov, foram banidos do futebol. O órgão também determinou que a Copa da Bulgária daquele ano ficaria sem campeão e que os dois times seriam extintos.

Um ano depois, porém, a situação se reverteria. Uma anistia foi concedida e Stoichkov voltou a jogar, não a tempo de disputar aquela que seria sua primeira Copa do Mundo. O craque retornou aos gramados na temporada 1986/87 e conduziu o CKSA – que passou a se chamar Vitosha, uma das punições impostas – ao título no campeonato nacional e na Copa da Bulgária, conquistando a famosa “dobradinha” .

Mais um título da copa foi conquistado em 1988. Também naquele ano, a punição aos clubes foi atenuada e o CSKA retomou seu antigo nome. No ano seguinte o time conseguiu mais uma “dobradinha”. A década de 80 chegava ao fim e a carreira de Hristo Stoichkov ia de vento em popa: além dos títulos em seu clube, ele foi eleito o melhor jogador do país em 1987, 1988 e 1989. Na seleção porém, a história era outra e amargava repetidos insucessos. Situação que se reverteria no Mundial dos Estados Unidos, em 1994.Em 1990, ganhou novamente o campeonato búlgaro e foi o artilheiro do continente. O feito despertou o interesse do Barcelona , que não mediu esforços para contrata-lo.

Apogeu e queda

Com a camisa blaugrana, não tardou para que seus lançamentos precisos e seus potentes arremates de esquerda contribuíssem para agregar mais títulos à vitoriosa galeria de troféus do clube. Em sua primeira temporada, o time quebrou a série de cinco títulos seguidos do Real Madrid no campeonato nacional. Um detalhe: em seu primeiro clássico contra os Blancos, sua faceta craque-problema deu as caras. Um pisão no juiz lhe rendeu seis meses de suspensão. Contra outro time madrilenho, o Rayo Vallecano, conseguiu a proeza de ser expulso após receber dois cartões amarelos no intervalo de seis minutos.

Na temporada seguinte, veio o bi espanhol e o mais importante: o primeiro título do Barcelona na Uefa Champions League. E posteriormente, Stoichkov emendou mais dois campeonatos espanhóis, em 1993 e 1994. Nesses anos, aliás, protagonizou belos momentos ao lado de Romário. Curioso é que a princípio, Stoichkov, não gostou da chegada do brasileiro, uma vez que as regras da época só permitiam três estrangeiros por time em campo e o clube já tinha outros dois: o holandês Koeman e o dinamarquês Michael Laudrup. Por isso, o treinador se via forçado a realizar um rodízio que não agradaria a ninguém. Apesar desses problemas aparentes, Stoichkov não demorou a se tornar amigo do Baixinho.

Em 1994, o Barcelona teve a oportunidade de ser novamente campeão continental, tendo chegado à decisão contra o Milan na posição de favorito. Não contava, porém que a equipe italiana aplicaria um sonoro 4 a 0. Apesar de ter feito, semanas depois uma estupenda Copa do Mundo pela Bulgária, aquela derrota marcou o início de uma decadência para Stoichkov. Na temporada seguinte, a de 94/95, o Barcelona perderia Romário, não conseguiria títulos e veria o seu arqui rival ser novamente campeão. Em meio à campanha, o jogador bateu de frente com o igualmente temperamental técnico do clube,o holandês Cruijff, que acabou vencendo o búlgaro na queda de braço.

Stoichkov então acertou com o Parma, emergente equipe italiana. Foi o começo de uma verdadeira peregrinação por diversos clubes. Na Itália, ficou apenas uma temporada, retornando ao Barcelona em 1996, após a queda de seu desafeto declarado, Johan Cruijff. Só que os tempos já eram outros, e os holofotes ficaram centralizadas em Ronaldo, na temporada 1996/97 e em Rivaldo, na de 1997/98.

Deixou de vez o Barça em 1998, ano em que esteve noutras três equipes: o CSKA, o Al-Nassr e o Kashiwa Reysol . No retorno ao país natal, não deixou tantas marcas. No Al-Nassr, mesmo ficando pouco tempo, ajudou a equipe a conquistar dois troféus. A Supercopa da Ásia e a Copa dos Vencedores da Copa Asiática, tendo aliás, anotado um gol na decisão. No Japão, conquistou uma Copa Nabisco.

Em 1999, decidiu encerrar a carreira para ser assistente técnico da Seleção búlgara. Mas voltou atrás, seduzido pelos dólares da Major League Soccer. Nos Estados Unidos, jogou dois anos no Chicago Fire e outros dois no DC United, onde pendurou de vez as chuteiras, em 2004.

Seleção búlgara

A Copa de 94 reservaria algo de especial aos búlgaros. A situação finalmente seria diferente. Num jogo emocionante a classificação para o torneio foi obtida com uma vitória por 2 a 1 contra a França, em pleno Parc des Princes.
Stoichkov chegou aos Estados Unidos já consagrado mundialmente pelos títulos conquistados com o time do Barcelona e impôs sua liderança num elenco recheado de talentos individuais como Yordanov, Kostadinov e Lechkov.

Na primeira fase, conduziu a Bulgária às suas duas primeiras vitórias em Copas, marcando três gols em dois jogos, inclusive na histórica vitória contra a Argentina. Marcou outros três gols em cada mata-mata: no empate em 1 a 1 contra o México , nas oitavas-de-final; na surpreendente vitória por 2 a 1 que eliminou a Alemanha, com ele marcando o primeiro gol de falta a quinze minutos do fim e dando o passe para que Lechkov fizesse o segundo três minutos depois; e, de pênalti, na semifinal contra a Itália, quando foram eliminados por 2 a 1. Stoichkov deixou a competição como um dos artilheiros, ao lado do russo Oleg Salenko, e receberia ao final daquele ano a Bola de Ouro da France Football como melhor jogador europeu.

Stoichkov também se saiu bem na Eurocopa 1996. Marcou duas vezes, contra Espanha e França, mas não evitou a precoce eliminação búlgara na primeira fase. No ano seguinte, a Bulgária fez bela campanha nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 98. No mundial, porém, o país, com o envelhecido elenco de 1994, fez feio e terminou em último no grupo. Seu último jogo pela Bulgária ocorreu no ano seguinte, válido pelas eliminatórias da Eurocopa 2000. O país acabou não se classificando para o torneio. Em 2004, foi eleito como o melhor jogador búlgaro dos cinquenta anos da Uefa.

Carreira como técnico

Em 2004, mal havia se aposentado dos gramados e iniciou sua carreira de treinador, na seleção da Bulgária. Entretanto, a classificação para a Copa do Mundo de 2006 não veio.

Ainda seguia treinando a Seleção em 2007, quando aceitou o convite para retornar à Espanha, agora como técnico do Celta de Vigo. Após dois anos sem vínculo com nenhuma equipe, em 2010 acertou com o time sul-africano do Mamelodi Sundowns, mas ficou pouco tempo no cargo.

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