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Os outros times da MLS que ganharam a Concachampions: o DC United de 1998 e o LA Galaxy de 2000

Enquanto o DC United tinha Marco Etcheverry como craque, o Galaxy reunia medalhões como Cobi Jones e Alexi Lalas

A MLS comemorou um dos momentos mais importantes de sua história nesta semana. O Seattle Sounders conquistou a Concachampions e quebrou um jejum de 22 anos dos times americanos no torneio continental. Porém, se mesmo o fortalecimento recente não forjou um campeão da MLS de imediato, os primórdios da liga viam seus times serem mais competitivos no cenário internacional. Nas quatro primeiras edições da Concachampions com representantes da nova liga dos EUA, de 1997 a 2000, foram dois campeões e um vice saindo do país. O formato da disputa facilitava, mas não se negava também a força de DC United e Los Angeles Galaxy, potências nacionais responsáveis por aqueles marcos.

Tanto DC quanto LA aproveitavam bons jogadores da seleção americana mesclados com talentos estrangeiros. O DC United tinha Eddie Pope, Jeff Agoos e John Harkes entre aqueles frequentes no US Team, bem como os bolivianos Marco Etcheverry e Jaime Moreno entre suas estrelas. Já as figurinhas carimbadas do Galaxy reuniam Cobi Jones, Alexi Lalas e Paul Caligiuri, com Ezra Hendrickson e Mauricio Cienfuegos dando um toque internacional. Isso sem contar nos técnicos, os qualificadíssimos Bruce Arena e Sigi Schmid, que migraram da NCAA para a MLS. Abaixo, aproveitamos a deixa do Sounders para relembrar as duas campanhas:

DC United (1998)

O DC United surgiu como a primeira potência da Major League Soccer. A equipe da capital apostou na contratação de Bruce Arena, então treinador da Universidade de Virgínia e futuro técnico da seleção nacional, como seu comandante. Também ganhou bons jogadores designados: Jeff Agoos e John Harkes, escolhidos da seleção americana, além dos bolivianos Marco Etcheverry e Jaime Moreno servindo como referência técnica. Já no primeiro draft universitário, Eddie Pope seria uma futura estrela do US Team escolhida, assim como um novato Jesse Marsch para o meio-campo. A montagem do grupo logo se reverteria em títulos.

O DC United conquistou a temporada inaugural da MLS, em 1996. Na decisão, os rubro-negros venceram o Los Angeles Galaxy por 3 a 2, em emocionante partida decidida com um gol de ouro anotado por Pope. Reforçado pelo colombiano Carlos Llamosa, o DC seria também bicampeão em 1997, ao derrotar o Colorado Rapids na final. Por seus sucessos na liga nacional, o time da capital passou a representar os Estados Unidos na Concachampions. A primeira aparição aconteceu em 1997, mas a equipe de Bruce Arena tomou o troco do Galaxy e acabou eliminada na semifinal pelos compatriotas.

A nova chance para o DC United aconteceu em 1998. A equipe reunia jogadores experientes e um treinador que se colocava na vanguarda do futebol nos Estados Unidos. Seria hora, então, de também fazer história na Concacaf. Naquela época, a Concachampions contava com fases classificatórias regionalizadas e, a partir dos mata-matas, o torneio se concentrava em jogos únicos numa mesma sede. Como campeão da MLS, o DC pegou um atalho ao entrar diretamente nas quartas de final. Melhor ainda, a competição era organizada no RFK Stadium, o que garantia aos rubro-negros a vantagem de atuarem em seu próprio estádio.

A jornada do DC United começou diante do Joe Public, de Trinidad e Tobago. Os americanos golearam por impiedosos 8 a 0. Roy Lassiter marcou quatro gols, enquanto Ben Olsen e A.J. Wood assinalaram dois cada. Já na semifinal, a parada seria mais dura contra o León, vice-campeão do Apertura de 1997 e que tinha eliminado o Colorado Rapids na fase preliminar. O DC, todavia, não teria o mesmo destino dos compatriotas e ganhou por 2 a 0. Ambos os gols foram marcados por Lassiter, atacante que tinha sido artilheiro da temporada inaugural da MLS pelo Tampa Bay Mutiny, mas que passou brevemente pelo Genoa antes de desembarcar na capital em 1998.

A decisão da Concachampions reuniu DC United e Toluca, campeão do Clausura de 1998 semanas antes do início do torneio continental. Os Diablos Rojos eram dirigidos por Enrique Meza, símbolo do clube que depois assumiria a seleção mexicana em 2000. Já em campo, o paraguaio José Saturnino Cardozo empilhava gols naquela época e se consagrava como maior ídolo do Toluca, com a companhia de Fabián Estay e Salvador Carmona entre os principais destaques. Era um adversário que demandava cuidados, embora completasse 30 anos sem o título continental.

Bruce Arena também pôde escalar uma equipe forte do DC United na final, diante de 12,6 mil torcedores no RFK Stadium. Destaques na defesa, Pope e Agoos tinham disputado a Copa de 1998 pouco antes com a seleção americana. O meio-campo contava com a experiência de Harkes, presente em dois Mundiais, e Etcheverry, grande craque daqueles primórdios da MLS, dono da camisa 10. Quem também estourava era Ben Olsen, novato do ano em 1998 que logo passou a atuar pela seleção. Mais à frente, Jaime Moreno era um dos atacantes mais prolíficos em atividade na Concacaf e Lassiter vivia fase inspirada. No papel, o triunfo dos americanos parecia possível – e se concretizaria durante os 90 minutos.

O DC United garantiu a vitória por 1 a 0 na final em Washington. Depois de uma bola no travessão, o gol saiu aos 41 do primeiro tempo. Etcheverry cobrou uma falta em direção à área, o goleiro Mario Albarrán saiu mal e Pope marcou no rebote. Sem que o Toluca aproveitasse suas oportunidades, barrado pelas boas defesas do goleiro Scott Garlick, o DC segurou o resultado e garantiu a comemoração no RFK Stadium. Caberia ao próprio Diablo Etcheverry, como capitão, levantar o troféu inédito para os clubes americanos. E teria mais.

Ainda em 1998, o DC United chegou a mais uma final da MLS e perdeu o título para o Chicago Fire. Glória maior aconteceria na Copa Interamericana, torneio que reunia o vencedor da Concachampions contra o campeão da Libertadores, e que teria sua última edição naquele ano. Depois da derrota por 1 a 0 diante do Vasco no primeiro encontro, em Washington, o DC deu o troco com os 2 a 0 em Fort Lauderdale e levou o troféu. Os cruzmaltinos estavam com força máxima naquele segundo jogo. Pope, mais uma vez, seria decisivo aos rubro-negros e anotaria o segundo gol. Já em 1999, o DC United sucumbiu na semifinal da Concachampions. Foi derrotado na pelo forte Necaxa de Alex Aguinaga, que seria o novo campeão continental. Pelo menos deu para recuperar o título na MLS Cup de 1999, com Bruce Arena substituído pelo holandês Thomas Rongen naquela conquista.

Los Angeles Galaxy (2000)

O Los Angeles Galaxy se colocou como o principal rival do DC United naqueles primórdios da MLS. Os californianos perderam a decisão inaugural, em 1996, com o referido gol de ouro anotado por Pope. E seriam eles também os vice-campeões em 1999, novamente diante do DC. Desta vez, a derrota por 2 a 0 selou a decepção do time de LA. E a série de infortúnios do Galaxy passava pela própria Concachampions, anos antes. Como vice-campeão nacional, a equipe ganhou o direito de disputar o torneio continental em 1997. Seria mais uma partida na lista de finais perdidas.

O começo de campanha do Los Angeles Galaxy na Concachampions de 1997 impressionou. Os californianos sapecaram um 4 a 1 sobre o Santos Laguna na fase preliminar, antes dos 2 a 0 sobre os hondurenhos do Luis Ángel Firpo nas quartas. Já na semifinal, o referido troco por 1 a 0 contra o DC United, gol de Cobi Jones. A decisão, por fim, guardou um épico contra o forte Cruz Azul de Óscar Pérez, Juan Reynoso, Francisco Palencia e Carlos Hermosillo. O Galaxy chegou a abrir dois gols de vantagem com menos de 15 minutos, mas os Cementeros buscaram a virada e a vitória por 5 a 3. Ficaria o gosto amargo aos americanos.

Depois do vice na MLS Cup de 1999, o Los Angeles Galaxy reapareceu na Concachampions em 2000. O formato da competição estava mantido, com mata-matas concentrados em sede única. Desta vez, o cenário favorecia os americanos, com jogos realizados na Califórnia. Mas, apesar do apoio da torcida e da chance de atuar em casa, o Galaxy precisaria passar por provações nas fases iniciais. Seriam duas classificações nos pênaltis. Primeiro, nas quartas, os californianos pegaram o Real España, de Honduras. Os dois times não saíram do 0 a 0 e o representante da MLS ganhou por 5 a 3 nos penais. Já na semifinal, outro reencontro decisivo com o DC United. Gregg Vanney abriu o placar para o Galaxy, até que Etcheverry decretasse o empate por 1 a 1 ao DC. De novo os pênaltis traçariam os destinos e o LA prevaleceu com os 4 a 2 no marcador. O goleiro Kevin Hartman pegou os tiros de Etcheverry e Ben Olsen.

O Los Angeles Galaxy encarou na decisão o Olimpia, terror dos mexicanos nas fases anteriores. O clube hondurenho tinha despachado Toluca e Pachuca para alcançar a decisão. Era um time com história na Concachampions, incluindo dois títulos e um vice, apesar do jejum que chegava a 12 anos. Brasileiro naturalizado hondurenho, o atacante Denílson Costa era a grande figura do time. Samuel Caballero e Alex Pineda apareciam entre os principais destaques da seleção local. Podia não ser o adversário mais forte, mas o retrospecto recente na competição respaldava.

O Los Angeles Galaxy na época era treinado por Sigi Schmid, que dirigiu a UCLA por quase duas décadas até aceitar a proposta para trabalhar na MLS. Três vezes campeão da NCAA, o técnico tinha seis antigos atletas da universidade em seu time titular na decisão. E aquela era uma constelação reunida pelos californianos. Paul Caligiuri era uma lenda da seleção, pelo gol que classificou o time à Copa de 1990, e fez carreira na Bundesliga, antes de virar a liderança na defesa do Galaxy a partir de 1997. Tinha a companhia de ninguém menos que Alexi Lalas, símbolo do US Team na Copa de 1994.

Lalas, aliás, caiu de paraquedas naquele Los Angeles Galaxy. O beque tirou 15 meses sabáticos para tentar carreira na música e, semanas antes do início da Concachampions, pediu para treinar com a equipe, ao se mudar para LA. Lalas nem estava cotado para o torneio, mas Danny Califf, titular na zaga, se lesionou praticando surfe e o ruivo acabou assinando às pressas antes da estreia no torneio continental. Ainda na linha defensiva, Greg Vanney e Zak Ibsen eram outros dois que passaram pelo US Team, enquanto Kevin Hartman era um dos melhores goleiros do país naquele momento.

O meio-campo era o setor mais cosmopolita daquele Los Angeles Galaxy. A faixa central era formada pelo granadino Ezra Hendrickson, pelo neozelandês Simon Elliott e pelo salvadorenho Mauricio Cienfuegos, todos importantes em suas seleções. Por ali também estava o americano Peter Vagenas, muito identificado com o LA. Já o ataque vinha embalado pelos dreads de Cobi Jones, que trocou o Vasco pelo Galaxy em 1996 e acumularia recordes com o clube. Tinha a companhia de Adam Frye, o único daquele 11 inicial que nunca defendeu seleção nacional e que substituía o mexicano Luis Hernández. O astro da seleção mexicana alegou uma lesão e não compareceu à competição, que interrompia as férias, realizada em janeiro de 2001.

O Los Angeles Galaxy sofreu, mas venceu a final contra o Olimpia por 3 a 2, dentro do Los Angeles Memorial Coliseum. Os hondurenhos marcaram o primeiro gol num pênalti convertido por Danilo Tosello aos 34 minutos. Dois minutos depois, Ezra Hendrickson empatou de cabeça, após uma cobrança de escanteio aparada por Lalas. Na comemoração, exibiu uma camiseta com o rosto de Bob Marley. Já aos 38, a virada se consumou nos pés de Cobi Jones, que acreditou num lançamento de Lalas que parecia perdido e executou um difícil tiro cruzado. O Olimpia voltou a igualar no início do segundo tempo, com Robert Lima. Os hondurenhos abafavam, até que o triunfo do Galaxy se confirmasse com mais um gol dedicado a Bob Marley por Ezra Hendrickson. Aos 33 da segunda etapa, o meio-campista tabelou pela direita com Cienfuegos e invadiu a área para mandar uma pancada no alto da meta. Selou o triunfo e permitiu que Cobi Jones levantasse o troféu.

Naquele momento, o Los Angeles Galaxy não tinha mais a Copa Interamericana para disputar. Em compensação, o Mundial de Clubes da Fifa ganhava suas primeiras versões e os americanos deveriam figurar na edição de 2001. Entretanto, aquela competição nunca saiu do papel, com seu desmonte após a falência da ISL. Os americanos até haviam sido sorteados no mesmo grupo de Real Madrid, Jubilo Iwata e Hearts of Oak. O torneio que seria realizado na Espanha ficou apenas na imaginação. Ao menos, a Fifa pagou um bônus aos times e cada jogador do LA embolsou US$40 mil.

Após mais um vice nacional em 2001, o Galaxy finalmente conquistou a MLS Cup em 2002, com Sigi Schmid e boa parte da base campeã continental dois anos antes. Outro título com vários daqueles veteranos aconteceu em 2005, incluindo ainda Landon Donovan na equipe, mas sem mais Schmid. O treinador seria depois campeão com o Columbus Crew, antes de assumir o Seattle Sounders. Seu assistente naqueles anos em Seattle era Brian Schmetzer, seu sucessor à frente dos Rave Green a partir de 2016 e também responsável por quebrar o jejum de 22 anos sem um título da MLS na Concachampions. Uma pena que Schmid, falecido em 2019, não tenha presenciado a passagem de bastão.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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