Concacaf

Ônibus da seleção de Belize é parado por homens armados em Porto Príncipe e violência reflete a atual crise do Haiti

Antes que as Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2022 começassem na Concacaf, a seleção de Belize foi vítima de um episódio de violência no Haiti. A delegação belizenha desembarcou em Porto Príncipe e seguia seu trajeto rumo ao hotel quando o ônibus foi parado por homens armados em motocicletas. Batedores da polícia que acompanhavam o veículo conversaram com os insurgentes e os jogadores seriam liberados sem agressões físicas. O Haiti enfrenta um estado de emergência, em mais uma de suas infindáveis crises.

Segundo os relatos, quatro batedores da polícia acompanhavam o ônibus de Belize, a partir do aeroporto de Porto Príncipe. O veículo teve seu caminho interrompido por um grupo bem maior de motociclistas, alguns deles fortemente armados com fuzis. Filmagens feitas pelos belizenhos mostram a cena ameaçadora. Apesar do susto, os visitantes puderam sair a salvo.

Em nota oficial, a federação de Belize expressou seu “desgosto” com a situação. Conforme a entidade, os policiais foram “forçados a negociar com os insurgentes” para que o impasse se resolvesse. “Essa situação nunca deveria ter acontecido, mas temos a satisfação de reportar que nossos Jaguares, embora abalados pela experiência terrível, estão a salvo no hotel”, contou a associação, elogiando a bravura dos jogadores. A federação também declarou que já entrou em contato com a Fifa e com a Concacaf para garantir a segurança.

O Haiti vive protestos intensos desde fevereiro. A oposição e parte da sociedade civil afirmam que o mandato do presidente Jovenel Moise deveria ser encerrado em 2021, após a impugnação das eleições de 2015 e a realização do pleito apenas em 2016. No entanto, Moise, que assumiu em fevereiro de 2017, afirma que cumprirá os cinco anos de mandato aos quais têm direito e que o adiamento do processo eleitoral não interferiu em seu poder. Com o cancelamento das eleições legislativas desde outubro de 2019, Moise governa através de decretos. O presidente também já interferiu no judiciário e destituiu membros da suprema corte durante os últimos meses.

Em abril, deverá ocorrer um referendo sobre a reforma constitucional articulada pelo próprio Moise. Diante da convulsão política, diversos protestos ocorrem nas ruas do país, afirmando que a mudança na constituição não é legítima. Enquanto isso, várias atividades no país não funcionam de maneira plena, incluindo as instituições de ensino. Paralelamente, o Haiti ainda lida com problemas sérios de violência entre gangues, com grupos ligados ao governo e à oposição se digladiando. Segundo uma fundação local, os territórios dominados por essas gangues influenciam diretamente os processos eleitorais.

Na esteira dessa realidade, se insere o estado de emergência decretado em 15 de março. Dias antes, o governo ordenou a invasão de uma área considerada crítica e a gangue local assassinou quatro policiais. Assim, a presidência impôs o decreto, sob a justificativa de conter a violência em algumas regiões. O estado de emergência restringe liberdades e dá poderes excepcionais ao executivo. Cabe dizer, porém, que setores da polícia também estão insatisfeitos com o governo pela falta de apoio. Os protestos contra Moise por forças policiais se intensificaram depois das quatro mortes.

Diante de tal cenário, a ocorrência com a seleção de Belize teve um desfecho bem menos drástico do que poderia. Ainda assim, não é uma situação tranquila para a realização de uma partida de Eliminatórias, com o encontro diante da seleção haitiana marcado para a próxima quinta-feira, no Estádio Sylvio Cator. Fifa e Concacaf também precisam se manifestar, assim como a situação política no Haiti levanta questionamentos sobre a postura da ONU e da OEA em relação ao acúmulo de poderes pelo executivo.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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