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Em ascensão na Concacaf, o Canadá registra a maior goleada dos 135 anos de sua seleção: 11×0 nas Ilhas Cayman

A vaga aos três anfitriões ainda não está confirmada, mas é bastante provável que o Canadá dispute a Copa do Mundo de 2026 como uma das sedes. No entanto, os Canucks tem potencial para encurtar o caminho e registrar seu retorno ao Mundial já em 2022. A equipe ainda precisa disputar a fase inicial das Eliminatórias na Concacaf, mas dá provas de força e parece pronta a ganhar projeção nos próximos anos. Nesta segunda, os canadenses enfrentaram as Ilhas Cayman, um adversário fraco mesmo para os padrões desta etapa do qualificatório. Ainda assim, a equipe aproveitou para golear por 11 a 0 e registrar a maior vitória de sua história, em 135 anos desde a estreia da seleção.

Presente na Copa de 1986, o Canadá poucas vezes conseguiu competir de verdade pelo sucesso na Concacaf. A primeira geração mundialista rendeu ainda um título do então Campeonato da Concacaf em 1985, que selou a classificação à Copa. Já em 2000, os Canucks levariam a Copa Ouro, sem conseguir repetir o impacto nos anos seguintes. Ao longo das últimas três décadas, os canadenses se acostumaram a ficar abaixo de México, Estados Unidos, Costa Rica e Honduras no futebol regional. Além disso, nas Eliminatórias da Copa, não se equiparariam nem mesmo a Jamaica, Trinidad e Tobago ou Panamá, os outros representantes da região nos últimos seis Mundiais.

A melhor chance do Canadá para disputar uma Copa desde 1986 aconteceu nas Eliminatórias para 1994. Sem os EUA pelo caminho, os canadenses acabaram abaixo do México na Concacaf e deixaram a chance escapar na repescagem diante da Austrália – que depois perderia a vaga no Mundial para a Argentina. Desde então, os Canucks haviam aparecido no hexagonal final do qualificatório da Concacaf apenas em 1998, sem alcançar a fase decisiva nas últimas cinco edições das Eliminatórias. Contudo, as chances parecem melhores para 2022.

A transformação do hexagonal final em octogonal final, logicamente, amplia as oportunidades do Canadá para se colocar entre as melhores seleções da Concacaf. Ainda assim, a impressão é que o nível dos canadenses anda bastante alto em comparação aos desafios nesta primeira fase das Eliminatórias. Ao todo, 30 times estão divididos em seis grupos e apenas o líder avançará à fase seguinte – na qual se formarão três confrontos diretos em ida e volta, que definirão os últimos três classificados ao octogonal final, já que cinco seleções estavam automaticamente garantidas na fase decisiva. Os Canucks demonstram plenas condições para se juntarem ao quinteto principal composto por México, EUA, Costa Rica, Honduras e Jamaica.

O Canadá estreou no Grupo B da primeira fase das Eliminatórias com uma vitória fácil sobre Bermudas por 5 a 1, com direito a uma tripleta do atacante Cyle Larin. Já na segunda rodada, veio os 11 a 0 sobre as Ilhas Cayman. O jogo realizado nos Estados Unidos teve o atacante Lucas Cavallini como destaque, autor de três gols. Alphonso Davies e Mark-Anthony Kaye marcaram dois cada, enquanto Cyle Larin, Frank Sturing, David Whotherspoon e Alistair Johnston completaram o placar. Resultado é contundente, especialmente quando o saldo de gols pode servir de critério de desempate.

O maior adversário do Canadá no Grupo B é Suriname, que conquistou de forma inédita a vaga para a próxima Copa Ouro e se impulsiona graças à convocação de jogadores nascidos nos Países Baixos. O confronto direto na rodada final deve ser o grande desafio aos canadenses nesta etapa, mas por enquanto os Canucks vão ficando com a vantagem do empate – e ainda sem terem enfrentado Aruba, pior ranqueado do grupo. Se os Canucks passarem desta fase de grupos, aí deverão fazer um confronto direto mais duro valendo vaga no octogonal final. Haiti ou El Salvador, quem vencer o Grupo E, deve ser o adversário.

Em termos de talento, de qualquer maneira, o Canadá se coloca como “o time a ser batido” nesta etapa das Eliminatórias da Concacaf. Os Canucks se valem bastante de uma geração de imigrantes acolhidos pelo país. É o caso de Alphonso Davies, que saiu de um campo de refugiados para se tornar a grande estrela da companhia, atuando como ponta na seleção. Outro candidato a protagonista é Jonathan David, filho de haitianos e que nasceu nos EUA, antes de imigrar para Ottawa. Também vale prestar atenção em Liam Millar, que trocou Toronto pela Inglaterra na adolescência e, após se destacar na base do Liverpool, hoje ganha rodagem emprestado ao Charlton. Já no Wolverhampton, desponta Theo Corbeanu, que jogou pelas seleções de base da Romênia antes de optar pelo Canadá, onde nasceu.

Se a geração de jovens talentos é a que mais salta aos olhos, o Canadá possui outros jogadores mais rodados em ação pela Europa. Junior Hoilett possui a Premier League no currículo e hoje está na Championship com o Cardiff City; Cyle Larin é o vice-artilheiro do Besiktas, onde é companheiro de Atiba Hutchinson, de longa passagem pelo clube turco; já o goleiro Milan Borjan veste a camisa do Estrela Vermelha e acumula participações nas copas europeias. Além do mais, a importância dos clubes canadenses na Major League Soccer e a própria criação de uma liga local aumentam as possibilidades, valorizando os talentos surgidos no país. O próprio Cavallini é um exemplo, atualmente no Vancouver Whitecaps, embora o filho de pai argentino tenha dado seus primeiros passos como profissional no Nacional de Montevidéu.

O potencial do Canadá é evidente, sobretudo com Alphonso Davies em excelente forma, para muitos o melhor jogador da Concacaf atualmente. As respostas precisam vir em campo e, por enquanto, as expectativas são corroboradas nas Eliminatórias. Ainda não é uma equipe totalmente confiável e a eliminação contra Haiti nas quartas de final da Copa Ouro de 2019 é um sinal de cautela, por mais que a vitória histórica sobre os Estados Unidos meses depois apresente o outro lado da moeda. Comparecer no octogonal final já parece um justo salto ao país que nem isso conseguiu neste século. A partir de então, os Canucks ganharão o direito de desafiar os caciques em busca de uma das quatro vagas da Concacaf no Mundial de 2022. Seria uma motivação e tanto antes da expansão do esporte local rumo a 2026.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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