Boicote dos jogadores da seleção canadense termina, mas disputa sobre premiação está longe do fim
Protestos dos jogadores exigem mais transparência da Federação Canadense e o pagamento igualitário de premiações para seleções masculina e feminina
O amistoso entre Canadá e Panamá no último domingo foi cancelado depois de jogadores da seleção canadense terem se recusado a treinar e jogar a partida. O motivo é simples, mas a resolução parece complexa: dinheiro de premiação. Há vários pontos que os jogadores contestam na Federação Canadense, desde transparência nas contas até uma divisão igualitária da premiação entre seleções feminina e masculina.
O jogo entre Canadá e Panamá foi cancelado menos de duas horas antes do início. O protesto começou ainda na sexta-feira, quando os jogadores não compareceram ao treinamento e nem a entrevista coletiva que estavam marcadas. Escolheram também boicotar o jogo como forma de protesto e pedindo uma negociação com os dirigentes.
Em uma carta divulgada pelos jogadores da seleção canadense, chamada de Dear Canada, os jogadores pedem mais transparência em relação aos acordos de direitos de transmissão, que, nas palavras dos jogadores, “algemaram” a confederação em relação às mudanças. Os jogadores querem uma porcentagem maior da premiação que a Canadian Soccer receberá (40% do total) e pagamentos de premiações iguais para as seleções masculina e feminina.
O contexto exige alguma explicação: em 2018, a Canadian Soccer, a Federação Canadense, assinou contrato com a Canadian Soccer Business, uma empresa independente que tem como donos os donos de clubes da Canadian Premier League. Esta entidade, CSB, representa a Canadian Soccer em todos os seus negócios de direitos de transmissão e patrocínios. Para os jogadores, não está claro para onde vai o dinheiro que entra por esses acordos.
Os jogadores contam que em março iniciaram tratativas com a Canadian Soccer, mas alegam que as negociações foram “desnecessariamente prolongadas”. “Canada Soccer esperou até a noite do dia 2 de junho para apresentar uma proposta arcaica e o secretário-geral e presidente da Federação só ficaram disponíveis para falar com os jogadores no dia 4 de junho, às 4h da tarde”, diz o comunicado.
O que os jogadores pedem?
Nas palavras dos jogadores na carta, estas são as exigências:
– Transparência e revisão de acordo com a Canadian Soccer Business;
– Uma liderança que possa otimizar este momento e gerar receitas de patrocínios corporativos que devem ser usados para conduzir o jogo adiante em todos os níveis pelos anos pela frente (futebol amador, categorias de base e times principais);
– Uma estrutura equivalente com nossa seleção feminina que compartilhe as mesmas diárias de jogos, porcentagem de premiação recebida das suas respectivas Copas do Mundo e o desenvolvimento de uma liga feminina doméstica;
– Premiação da Copa do Mundo que inclua 40% da premiação e um pacote amplo para amigos e família para a Copa do Mundo;
– Mais ex-jogadores das seleções femininas e masculinas e dos times paralímpicos integrados nas posições de liderança dentro da diretoria e organização da Canada Soccer.
“Esses são elementos fundamentais que nós defendemos para mudar o futebol no nosso país”, diz a carta.
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A reação da Canada Soccer
Os dirigentes da Canada Soccer reagiram fortemente. O presidente da entidade, Nick Bontis, e o secretário-geral Eral Cochrane deram uma entrevista coletiva para tratar do assunto. O tom foi tenso e a resposta foi dura, com Bontis dizendo que a proposta era “insustentável”.
“Gostaríamos de ter uma discussão baseada em fatos dentro da realidade fiscal com a qual a Canada Soccer tem que conviver todos os dias”, disse Bontis. “O Canada Soccer está comprometido com os princípios de justiça e equidade e acreditamos que apresentamos uma oferta justa aos jogadores. Comparamos nossa oferta com outras seleções de todo o mundo. Sobre a questão da equidade de gênero levantada na carta dos jogadores, a oferta da Canada Soccer também se comprometeu a fornecer exatamente os mesmos termos à nossa seleção feminina. À medida que avançamos, o compromisso estratégico da Canada Soccer é apoiar todos os nossos programas, desde as bases até as primeiras equipes de elite”.
Retorno aos treinos e negociações
Nesta segunda-feira, novamente pelo jornalista Rick Westhead, os jogadores comunicaram que decidiram voltar a treinar novamente, de forma a preparar o time para a disputa da Copa do Mundo no Catar.
Os jogadores contaram que se reuniram com lideranças da Canada Soccer no domingo à noite, mas que “perguntas ainda precisam ser respondidas e ações ainda precisam ser tomadas”. Segundo eles, as negociações continuarão. “Seguimos adiante na esperança que a Canada Soccer irá trabalhar conosco para resolver a situação”, diz a carta.
O time tem um jogo marcado contra Curacao pela Liga das Nações da Concacaf, nesta quinta-feira, em Toronto. Depois, enfrenta Honduras, pela mesma competição, em San Pedro Sula, no dia 13, próxima segunda-feira.
Ao que parece, a situação parece longe de uma resolução, mas ao menos as negociações estão acontecendo.



