Brasil

Encontro no vestiário, política e Vasco: Payet mostra lado diplomata durante visita de Macron

Meia do Vasco encontrou Macron nesta semana, e a longa relação com o presidente da França ajuda a explicar a situação política e social do país

O meio-campista Dimitri Payet, do Vasco, viveu dias de diplomata no Brasil. Nesta última semana, entre quarta e quinta-feira, o jogador francês, liberado pelo Cruz-Maltino, que apenas treina de olho no Campeonato Brasileiro, compareceu a compromissos presidenciais em São Paulo e Brasília. Neles, além do presidente Lula, encontrou um velho conhecido: Emmanuel Macron, presidente da França. A relação dos dois já vem de alguns anos e ajuda a explicar a situação política e social do país europeu.

Camisa 10 do Vasco, Payet foi convidado pelo Consulado da França para comparecer a um jantar em um hotel de luxo em São Paulo, na última quarta-feira. Lá, se encontrou com Macron e Lula, e, inclusive, entregou uma camisa do Vasco para cada um. Os três posaram para fotos com as camisas. No dia seguinte, o meia voou até Brasília para participar de um evento com os presidentes no Itamaraty, ao lado do ex-jogador Raí.

Nas poucas imagens divulgadas dos dois eventos, foi possível ver um Payet muito à vontade, conversando e rindo com os dois presidentes. E a relação com o mandatário francês vai além do campo diplomático. Começou como ídolo e torcedor e passou por um importante apoio a Macron na eleição francesa de 2022.

Emmanuel Macron é torcedor declarado do Olympique de Marselha, clube em que Payet atuou por oito temporadas e do qual é ídolo. Em 2017, após um amistoso entre França e Inglaterra, vencido pelos franceses por 3 a 2, em Paris, Macron, já como presidente, visitou o vestiário do time. Lá, o camisa 10 brincou com o político e disse que o país, “enfim, tinha um presidente que apoia uma equipe de verdade”.

https://twitter.com/domstoujours/status/1433071764100296705

Ainda em 2017, Macron aproveitou uma passagem por Marselha para bater uma bola com os jogadores do Olympique de Marselha no CT do clube. Em 2021, em nova visita à região, Macron recebeu uma camisa do clube das mãos de Payet, que registrou o jantar presidencial nas redes sociais.

Naquele mesmo ano, Payet também participou Congresso Mundial da Conservação, evento pró-preservação do meio ambiente que aconteceu em Marselha. O jogador foi ao evento por convite de Macron, que, na época, disse que Payet iria participar de ações sobre conservação da biodiversidade.

 

Payet apoiou Macron contra a extrema-direita

Mas o fato mais forte desta relação aconteceu em 2022, quando o presidente francês concorria a reeleição. No segundo turno, o craque do Vasco assinou uma carta com outras 49 figuras do esporte francês, como o ex-jogador de basquete Tony Parker, o tenista Jo-Wilfried Tsonga e o piloto de Fórmula 1 Pierre Gasly, em apoio a Macron e contra a candidata de extrema-direita Marine Le Pen.

O manifesto não deixou de apontar algumas críticas a Macron, mas ressaltou que a opção por Le Pen poderia ser ainda pior para a França.

– Estamos completamente cientes das dificuldades enfrentadas pela população francesa e, por isso, estamos convencidos de que votar em um partido que coloca em perigo os valores republicanos seria o pior remédio. O esporte no qual acreditamos, com os valores olímpicos, é feito de amizade e respeito; é um lugar de diversidade e que recusa a discriminação – diz um trecho da carta.

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Apoio de Payet a Macron não é por acaso

Payet é natural da Ilha de Reunião, um departamento ultramarino da França, que fica no oceano Índico, muito mais perto do sul da África do que da Europa. A ilha está a 9 mil quilômetros de Paris, por exemplo. Apesar de ter uma passagem pela base do Le Havre, Payet chegou a jogar profissionalmente pelo Excelsior, antes de se transferir ao Nantes e se consolidar na elite do futebol francês.

Mas a realidade de pessoas como Payet, na França, não é fácil. Pela origem, raça e até cor da pele, os franceses nascidos em departamentos ultramarinos costumam ser alvos de preconceito no país, assim como imigrantes, filhos de imigrantes e franceses muçulmanos, grupos muitas vezes atacados por apoiadores de Le Pen, que prometia políticas mais duras contra a imigração no país.

– Eles sofrem muito preconceito, mas muito. A cor da pele é mais escura, eles não são exatamente da França, são de territórios, então costumam sofrer muito preconceito. Isso é uma marca dessa ala mais conservadora da França, ala da nova direita, ala da ultradireita, que costuma, sim, ser muito preconceituosa. Aliás, para eles é a mesma coisa, o cara que é, por exemplo, da Ilha de Reunião e o cara que, por exemplo, é um francês muçulmano, dá no mesmo – disse à Trivela o professor de política internacional Tanguy Baghdadi, que também é criador do podcast Petit Journal.

– É o preconceito que muita gente tem com relação, por exemplo, ao Benzema, que também é filho de argelino. O Zidane atualmente está num outro patamar, né? Ele é um cara muito diferente em termos do que ele conseguiu, mas foi um cara que também sofreu, por exemplo, no início. Nem sei se ele chegou a cantar o hino francês, muitas vezes ele não cantava. E muita gente dizia “está vendo? Ele não gosta da França, ele se aproveita da França”. Às vezes tem jogador que, de repente, não canta o hino, mas com relação ao Zidane, com relação ao Benzema, se torna um problema. E o Payet acaba numa situação parecida – completou Baghdadi.

Nesse sentido, é possível entender o apoio da Payet a Macron e, principalmente, o repúdio a políticos como Marine Le Pen na eleição de 2022, na França. Em um cenário de crescimento da extrema-direita e com as pequisas indicando, na época, uma votação apertada, o jogador francês não se escondeu e se posicionou contra o avanço da direita no país.

– Existe uma preocupação grande na Europa e na França em particular com a ascensão da extrema-direita, essa nova extrema-direita. Não é a extrema-direita do pai da Marine Le Pen, o Jean-Marie Le Pen, que era um cara da extrema-direita antiga, que tinha contornos muito mais nazistas, fascistas. E a Marine Le Pen, com essa nova face da nova direita, ela tenta ser muito mais amigável, ela tenta ser mais palatável, isso é um fenômeno que não é da França, é um fenômeno global. E a vitória do Macron foi importante porque ela juntou todo mundo que não queria um projeto como esse. Então o Macron, apesar de ser um banqueiro, de ser um cara da elite, ele recebeu, por exemplo, os votos da esquerda. Ele conseguiu juntar os votos da esquerda em torno dele contra a Marine Le Pen – disse Tanguy Baghdadi.

Seleção é símbolo de resistência na França

Muito antes de 2022, o futebol francês já se viu envolto em debates políticos e sociais importantes no país. A seleção que conquistou o título da Copa do Mundo de 1998 foi tratada como um símbolo de uma união que, por vezes, acontecia mais dentro de campo do que pelas ruas e fronteiras do país.

– A vitória da seleção francesa de 98 é um marco muito importante para a sociedade francesa. Aquela seleção era considerada um retrato da nova França. Eles falavam sobre a França “black-blanc-beur” (negra-branca-árabe, em tradução livre). Aquela seleção representava uma França que dava as costas para esse projeto, por exemplo, do Jean-Marie Le Pen, que é o pai da Marine Le Pen. É algo que muda muito a percepção do que a França pode ser. Então, acaba sendo um espaço de uma certa resistência a esse projeto da ultra-direita. As próprias polêmicas envolvendo Benzema, que não é exatamente uma pessoa fácil de lidar, mas acaba tendo uma carga maior por conta, exatamente, dessa postura mais crítica que ele tem com relação a um determinado projeto de França e que os ultranacionalistas, naturalmente, utilizam bastante. A vitória da seleção francesa de 2018, o destaque que o Mbappé tem, por exemplo, muito longe de ser um “francês tradicional”. Tudo isso acrescenta algumas camadas na construção de uma França diferente daquela que a ultra direita gostaria – finalizou o especialista.

Foto de Gabriel Rodrigues

Gabriel RodriguesSetorista

Jornalista formado pela UFF e com passagens, como repórter e editor, pelo LANCE!, Esporte News Mundo e Jogada10. Já trabalhou na cobertura de duas finais de Libertadores in loco. Na Trivela, é setorista do Vasco e do Botafogo.

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