Ligue 1

Payet não conquistou títulos com o Olympique, mas se despede como lenda

Payet ofereceu doses cavalares de magia ao Olympique de Marseille e foi o dono do time por quase uma década. Ele ainda não quer se aposentar agora

Dimitri Payet não conquistou um título sequer com a camisa do Olympique de Marseille. Num clube de história tão gloriosa, com feitos únicos dentro do futebol francês, a seca incomoda, especialmente pela quantidade de vices nos últimos anos. Porém, não é isso que impede o meia de se despedir do estádio Vélodrome como uma lenda celeste.

Somando as duas passagens de Payet pelos marselheses, foram oito temporadas e meia no clube, com:

  • 326 partidas
  • 78 gols
  • 95 assistências

Ele proporcionou momentos de magia, que o tornaram um dos jogadores mais queridos de uma torcida tão fanática. Inspirou gerações com seus chutaços de fora da área, os lançamentos de trivela, os cortes secos. Por isso mesmo, sua despedida é emotiva.

O anúncio do Olympique de Marseille foi bem básico: “Simplesmente, muito obrigado. Todo o clube deseja a Dimitri Payet, bem como à sua família, o melhor para o futuro. O OM sempre será a sua casa”. Entretanto, não era necessário um adeus com pompas para valorizar o que se construiu durante tanto tempo. A história está escrita.

Aos 36 anos, Payet perdeu espaço na última temporada e suas aparições se tornaram mais raras, também pela queda física. O capitão ainda tinha um ano de contrato, mas ambas as partes avaliaram melhor antecipar o fim. O técnico Marcelino García Toral não vê encaixe para o craque em sua ideia de jogo num 4-4-2, sem um meia armador ou um ponta agressivo.

Payet não participou da pré-temporada do Olympique de Marseille na Alemanha por razões pessoais. Já nesta sexta-feira, o clube convocou uma coletiva para anunciar a despedida. E se o presidente Pablo Longoria estava emocionado, Payet não conseguiu conter as lágrimas. Declarou-se como um “marselhês pelo resto da vida” e prometeu voltar um dia num cargo diretivo – possibilidade que foi oferecida pelo próprio clube. No entanto, o meia não deseja pendurar as chuteiras ainda. Avalia que pode oferecer um pouco mais sua magia ao futebol.

+ LEIA MAIS: Noriega: Pelé e Messi nos EUA têm diferenças além do campo

A primeira passagem por Marselha

Payet nasceu em Reunião, território ultramarino francês no Oceano Índico, e se mudou para a Europa na adolescência. O garoto buscava seu sucesso no futebol e se juntou primeiro às categorias de base do Le Havre. Payet ainda voltou para atuar brevemente em Reunião, pelo Excelsior, antes de iniciar sua trajetória na Ligue 1 com o Nantes. O ponta virou um dos grandes ídolos do Saint-Étienne por quatro temporadas e depois brilhou no Lille que tinha acabado de conquistar a Ligue 1. A esta altura, Payet já tinha inclusive estreado pela seleção principal da França em 2010. No entanto, o Olympique de Marseille ofereceu uma nova dimensão ao armador.

O Olympique pagou barato para levar Payet, apenas €11 milhões em 2013/14. Logo na estreia, o ponta anotou dois gols numa vitória sobre o Guingamp. Era o suficiente para cair nos braços do povo. Foi uma boa temporada de Payet como referência na equipe, mas ele cresceu ainda mais em seu segundo ano no Vélodrome. Marcelo Bielsa chegou e o viu mais como um meia-armador do que como um ponta. Transformou o camisa 17 em ponto gravitacional do ataque. Payet terminou a Ligue 1 2014/15 com 21 assistências, líder no quesito. Todavia, se despediu da torcida diante de uma proposta do West Ham, de €15 milhões. Saiu a contragosto, em saldão feito pela diretoria.

A passagem de Payet pelo West Ham marcou seu período de maior visibilidade. O ponta arrebentou na Premier League 2015/16. Tamanho sucesso o transformou em titular da seleção da França e ele seria um dos melhores do time na campanha até a final da Euro 2016. Entretanto, a relação de Payet com os Hammers se quebrou rapidamente e, em sua segunda temporada, ele deixou claro como não queria permanecer em Londres. Diante da atitude negativa do meia, forçando sua saída, o rompimento se tornou a melhor solução. E o Olympique de Marseille, sob nova direção, recebeu o ídolo de braços abertos – mas precisando pagar €29,3 milhões pelo jogador valorizado pelo futebol inglês.

A consolidação do ídolo

Dimitri Payet, do Olympique de Marseille (NICOLAS TUCAT/AFP via Getty Images/One Football)

Payet recuperou seu melhor futebol no Olympique de Marseille rapidamente. Seu empenho na volta ao Vélodrome era outro. Chegou em janeiro de 2017 e auxiliou o time na metade final da temporada. Já seu grande momento aconteceu em 2017/18. Payet liderou a campanha dos marselheses à final da Liga Europa, num feito importante especialmente pela história do clube em competições continentais. O capitão teve algumas atuações espetaculares, sobretudo nos mata-matas. Implodiu Athletic Bilbao, RB Leipzig e Red Bull Salzburg. Entretanto, não pôde evitar a derrota dos celestes na decisão contra o Atlético de Madrid.

Aquele foi um momento essencial para entender a dimensão de Payet como ídolo do Olympique de Marseille. O meia não estava em suas melhores condições físicas e foi para o sacrifício na final. Permaneceu apenas 32 minutos em campo e saiu com uma lesão muscular, às lágrimas. Chegou ao seu limite. E a maneira como colocou o clube acima de tudo prejudicou, também, sua história na seleção. Payet continuava como uma alternativa da França e Didier Deschamps aguardou a final da Liga Europa para fazer a convocação à Copa do Mundo. A contusão custou definitivamente sua presença do jogador de 31 anos no torneio. Viu de longe a conquista do Mundial da Rússia e, depois disso, entrou em campo pelos Bleus só mais uma vez.

Nos últimos cinco anos, a carreira de Payet se concentrou no Olympique. O veterano foi capaz de outros tantos momentos de brilhantismo. Foi o dono do time, afinal. Continuou rendendo muito bem na Ligue 1, sobretudo na temporada 2021/22. Terminou eleito o jogador da temporada dos celestes e também foi escolhido para a seleção do Campeonato Francês. Sua equipe terminou na segunda colocação, além de ter alcançado as semifinais da Conference League sob a cátedra do armador. Já na temporada passada, Payet disputou apenas 827 minutos da Ligue 1 – sua menor presença numa temporada de liga nacional desde 2006. Perdeu espaço com Igor Tudor na equipe titular e queda se tornou abrupta.

Payet é um tipo de jogador que depende muito mais da qualidade técnica do que do físico, até pelos problemas com a balança frequentes nos últimos anos. Possivelmente não tem a intensidade que o Olympique de Marseille vai exigir de seus jogadores com Marcelino García Toral. Porém, ainda sobra em campo pela maneira como bate na bola e resolve partidas. Pode ser rei em clubes do meio da tabela na Ligue 1 ou então fechar um ciclo de volta a uma das velhas casas. Seria bacana também vê-lo indo ao resgate do Saint-Étienne na segunda divisão do Campeonato Francês, mesmo que sua saída não tenha sido tão amistosa. Qualidade não falta.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
Botão Voltar ao topo