Brasil

Tite não tem moral para cobrar ética de Neymar

Em 2001, estava cobrindo um treino do Corinthians, comandado por Luxemburgo, no Parque São Jorge. Era semana decisiva, o time se preparava para decidir a Copa do Brasil, contra o Grêmio. O primeiro jogo, no Sul, havia terminado em 2 a 2.

De repente, algo inusitado. O treino ainda rolava e alguns seguranças subiram as escadas para expulsar alguém, de boné e óculos escuros. Não era torcedor. Era Cleber Xavier, auxiliar-técnico do time gaúcho, que assistia, escondido, ao treino do Corinthians.

O técnico do Grêmio era Tite, que se recusou a falar sobre o assunto.

Agora, Tite diz que Neymar, por haver simulado algumas faltas e falado alguma besteira para Guilherme Andrade, é um mau exemplo para as crianças do Brasil. Ora, Tite, que papo é esse? Houve ética no caso do Cleber Xavier?

E no caso do Sheik, que mordeu o dedo do jogador Caruzo, do Boca? É ético? É bom exemplo?

Cobrar ética dos outros na derrota é fácil. Calar-se quando pego na boca da botija é feio.

Quanto ao Sheik, ele fez muito bem em morder a mão do argentino. Melhor ainda porque o juiz não viu. Futebol é um esporte e não vejo nada de errado em um jogador tentar burlar as regras. Há um árbitro em campo para punir as pancadas que Caruzo e Ervitti deram em Shieki. Há auxiliares para denunciar a mordida do Sheik.

Se o Neymar simula sofrer com faltas, azar dele que se distancia cada vez mais do longínquo sonho de se parecer com Messi. Mas ele, e todo jogador, tem o direito de simular, de enganar, de fazer o que quiser em campo. O que for fora das regras merece uma punição. Nada mais.

Não merece é choro ético de quem nem sempre usou a ética na vida futebolística. Ou o Tite acha o Neymar pior do que o Kia e o Dualib, com quem trabalhou no Corinthians?

Foto de Anderson Santos

Anderson Santos

Membro do Na Bancada, professor da Unidade Educacional Santana do Ipanema da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo