Brasileirão Série B

Diretoria joga Ponte Preta em calvário, jogadores entram em greve e buraco pode culminar em Série C

Sem dinheiro para pagamento dos jogadores, atletas da Ponte Preta entram em greve e não treinam nesta segunda-feira (06)

Quando parece que nada pode piorar na Associação Atlética Ponte Preta, mais um escândalo surge para aumentar ainda mais a crise institucional e administrativa que o clube vem passando em 2023. Após a derrota para o Avaí por 1 x 0, em casa, na 36ª rodada da Série B, a Macaca desceu para a 17ª colocação da competição e é o primeiro time dentro do Z4. A queda na tabela foi concretizada após a vitória do Tombense diante do Sampaio Corrêa por 2 x 1, em São Luís.

Mas os dez jogos sem vitórias da Ponte Preta é um fruto amargo, colhido após o plantio de sementes de uma má administração, que percorre os bastidores do Estádio Moisés Lucarelli desde o ano passado e que está cobrando o seu preço no fim da atual temporada. Após o título do Campeonato Paulista A2 nesta temporada, todos em Campinas alertaram para o risco real de disputar a Série B com o mesmo elenco. Alegando falta de recursos financeiros para aumentar a qualidade do grupo, o primeiro a pular fora do barco ponte-pretano foi o ex-treinador e comandante do time na brilhante campanha do estadual, Hélio dos Anjos.

A saída do treinador da Macaca pode ser considerado o primeiro de três capítulos que ajudam a explicar o porquê da Ponte Preta estar próxima de ser rebaixada para a Série C em 2024. Os outros dois dizem respeito à falta de planejamento em relação à escolha do treinador que seguiria com o time para o restante do ano, que termina com um atraso de quatro meses no pagamento de salários e até mesmo o despejo das categorias de base do clube de seu centro de treinamento em Jaguariúna, por falta de pagamento do aluguel.

Capítulo 1: a crise Hélio dos Anjos

Rebaixada no Campeonato Paulista em 2022, a Ponte Preta montou um time competitivo e não sofreu sustos na Série A2 do estadual neste ano. Em 21 jogos na competição, a Macaca venceu 14, empatou seis e perdeu apenas um, ainda na fase de classificação, justamente para o Novorizontino, vice-campeão da competição. A boa campanha e bom desempenho de algumas peças como Élvis, Jeh e Pablo Dyego trouxeram a esperança ao torcedor de ver a Macaca bem na Série B e brigando pelo acesso à principal divisão do futebol brasileiro em 2024.

Entretanto, no dia 11 de abril deste ano, ainda na festa de premiação dos melhores jogadores do Campeonato Paulista da A2, o então técnico da Ponte, Hélio dos Anjos, afirmou em alto e bom som que o time campineiro necessitava de reforços para a disputa da Série B, ao menos, para brigar pelo acesso. Logo na primeira rodada da competição, a Macaca viu que precisaria de mais qualidade em seu elenco, ao perder para o Vitória por 3 x 0. Pior do que ser goleado na estreia foi o que aconteceu momentos depois, com o pedido de demissão de seu comandante, que alegou que o presidente do time campineiro, Marco Antônio Eberlin não cumpriu com o pagamento de um valor atrasado de seu salário, algo que foi acertado em pagar em caso de título da A2.

O atraso nos salários foi algo recorrente durante o ano de 2023, mas isso será abordado na terceira parte desta matéria. Por enquanto vamos nos ater as consequências que a falta de um treinador mais qualificando trouxe à Ponte Preta, que desde a saída de Hélio dos Anjos não se encontrou mais.

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Capítulo 2: trocas questionáveis de treinador

Com Hélio dos Anjos no comando, treinador que esteve durante toda a temporada de 2022, segurou a bronca do descenso no Paulista, mas reergueu o time tanto na Série B da temporada passada, como no Paulista A2 deste ano, a Ponte Preta disputou 45 jogos, com 13 vitórias, 15 empates e 17 derrotas. Após a sua saída, a Macaca fez 34 jogos, venceu apenas sete, empatou 14 e perdeu 13 duelos. Neste meio tempo, foi treinada por Felipe Moreira, Pintado e vai encerrar a temporada sob o comando de João Brigatti, treinador que ainda não conquistou nenhuma vitória no comando do time.

As únicas vitórias da Ponte Preta no 2º turno na Série B foram conquistadas em jogos em casa, diante da Chapecoense, na 22ª rodada e frente ao Londrina, na 25ª. De lá para cá a Macaca disputou dez jogos, dos quais perdeu seis e empatou apenas quatro. Para agravar ainda mais a situação do time, a Ponte não marca um gol sequer há quatro rodadas, e fechou a 35ª rodada dentro da zona de rebaixamento, sem perspectiva de melhora, não só pela falta de qualidade do elenco, mas também de um planejamento de identidade na maneira como o time jogaria após a saída de Hélio dos Anjos.

Ainda na 2ª rodada da Série B, após derrota da Ponte Preta para o Criciúma pelo placar de 2 x 1, em pleno Moisés Lucarelli, Marco Antônio Eberlin, presidente da Ponte Preta, invadiu a coletiva de imprensa do então técnico Felipe Moreira para afirmar que o jovem treinador seria o técnico da Macaca até o fim do Campeonato Brasileiro da Série B. Foi com Felipe que o time ponte-pretano inclusive conseguiu a maior sequência de jogos sem perder na competição.

Entretanto, os resultados seguiram não acontecendo e após 17 jogos, com cinco vitórias, sete empates e cinco derrotas, mais uma vez caiu sobre o técnico a responsabilidade dos maus resultados. Felipe Moreira foi demitido e Pintado foi escolhido para o seu lugar. A partir daí as coisas só degringolaram na Ponte Preta, incluindo atraso no pagamento de salários, seja de jogadores e até mesmo de funcionários.

Capítulo três: a derrocada financeira

Com este cenário ruim se desenhando, a Ponte Preta seguiu apostando e contratando jogadores de qualidade questionáveis e investindo um alto valor, que não podia, em jogadores que não tinham nenhum perfil para vestir o tão tradicional manto ponte-pretano. Três jogadores vindo do Náutico na 2ª janela de transferências, sendo eles Paul Villero, Souza e Gabriel Santiago, pouco, ou nada acrescentaram ao time.

Souza, que teve passagem de destaque pela própria Macaca, foi um dos primeiros a pedir a rescisão de seu contrato no 2º semestre após alegar problemas familiares. André, atacante badalado com passagens por Corinthians e Santos, foi outro jogador de peso contratado e que nada fez pelo time, além de um gol antológico contra o Vitória na primeira rodada do returno da Série B.

 

Por estes e outros motivos, o torcedor da Ponte Preta foi se afastando do time, o que gerou uma crise de arrecadação, que culminou em um efeito dominó que parece não ter fim, e terminou de forma no mínimo trágica nesta segunda-feira com uma greve dos atletas, que reivindicam o pagamento de seus ordenados, atrasados há quatro meses.

Segundo informações do jornalista Lucas Rossafa, os jogadores da Ponte Preta se reapresentariam nesta segunda-feira, um dia após a derrota para o Avaí, em casa, por 1 x 0, porém foi re-agendada para esta terça-feira, em decorrência de mais um atraso no pagamento dos valores devidos. Ainda segundo informações, existe o risco real de não haver nenhuma atividade no CT, mesmo na terça, caso os ordenados não sejam pagos.

O movimento de paralisação das atividades do elenco tem como principais coordenadores os jogadores mais experientes do grupo, peças há mais tempo dentro da Ponte Preta e donos dos salários mais altos. Ainda segundo o jornalista, são os atletas que mais recebem que estariam com um prazo maior de atraso nos vencimentos.

Crise financeira na Ponte Preta atinge as categorias de base do clube

Fora o risco da greve continuar, a Ponte Preta chegou ainda mais fundo em sua crise ao ter suas categorias de base despejadas de seu centro de treinamento. Por falta de pagamento do aluguel da estrutura, a Justiça determinou que os atletas do sub-15, sub-17 e parte do sub-20 fossem despejados do local, que fica localizado em Jaguariúna, cidade localizada a 30 quilômetros de Campinas.

Na atualização mais recente do processo, a dívida da Ponte Preta com os mandatários do local chega em torno de R$637 mil reais. Portanto, o futuro é muito incerto para o clube campineiro, entidade mais do que centenária, e um dos clubes em atividade mais antigos do Brasil. Os torcedores temem pelo pior e já não tem mais força nas arquibancadas para tentar apoiar um time rachado e sem vibração pela falta de profissionalismo de sua diretoria. O que acontecer daqui para frente depende da força de vontade dos mandatários da Macaca em manter a Associação Atlética Ponte Preta na elite do futebol brasileiro.

Foto de Lucas de Souza

Lucas de SouzaRedator

Lucas de Souza é jornalista formado pela Universidade São Judas em São Paulo. Possui especialização em Marketing Digital pela Digital House, e passagens pelos sites Futebol na Veia e Futebol Interior.

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