Belém quer voltar para Série A: Como Remo pode encerrar jejum de 31 anos com acesso histórico
Há mais de três décadas sem disputar elite nacional, Leão só depende de si na Série B para conquistar acesso histórico
A cidade de Belém do Pará vive um 2025 especial. Por causa da COP30, a cidade se tornou a capital temporária do Brasil para receber lideranças globais na conferência do clima promovida pela ONU. E no futebol, o torcedor do Remo ganhou motivos de sobra para acreditar no futuro.
A duas rodadas do fim da Série B, o Leão só depende de si para conquistar o acesso à elite do Brasileirão. O time de Guto Ferreira enfrenta Avaí, na Ressacada, e Goiás, em casa, com expectativas de dar fim ao jejum de 31 anos longe da elite nacional.
Para subir de divisão já neste sábado (15), o Leão precisa vencer em Florianópolis e torcer para as derrotas de Chapecoense, que visita o já rebaixado Volta Redonda, e Criciúma, que joga em Santa Catariana contra o Botafogo-SP. Caso a combinação de resultados não aconteça, tudo será definido na última rodada, no Pará, no próximo dia 23.
A Trivela conversou com o jornalista Caio Maia, coordenador de conteúdo do portal “O Liberal”, e com o presidente azulino Antônio Carlos Teixeira, o Tonhão, para entender o fenômeno Remo, que está brigando pela segunda subida de divisão seguida após jogar a Série C em 2024.
O melhor momento da história do Remo
Nos anos 1990, período pós-ditadura militar no Brasil, o Pará concedeu incentivos por meio de patrocínios aos principais clubes do Estado, que eram geridos por clãs familiares. Nessa época, o Remo viveu sua era de ouro, incluindo títulos regionais e campanhas históricas em competições nacionais.
Nortista mais tradicional na Copa do Brasil, em 1991 o Remo chegou a uma histórica semifinal. Durante a campanha, eliminou o Vasco de Sorato nas oitavas (0 a 0 no Baenão e 1 a 1 em São Januário) pic.twitter.com/aKlKaAA5g1
— Enciclopédia do Leão (@Enciclopedia_CR) March 11, 2022
Em 1991, o clube azulino foi semifinalista na Copa do Brasil, a melhor campanha de um time do Norte até hoje na história da competição. Quem eliminou o Leão foi o Criciúma de Luiz Felipe Scolari, que levantou o título daquela edição sobre o Grêmio.
Dois anos depois, o Remo conquistou a posição mais alta de um time da região na Série A do Campeonato Brasileiro: 7º lugar. Contudo, em 1994, a torcida azulina se despediu da elite nacional com um rebaixamento e, desde então, nunca mais jogou a primeira divisão.
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O que explica o renascimento?
Dali para frente, o Leão viu seu arquirrival Paysandu se tornar o protagonista do futebol paraense no início dos anos 2000 — inclusive jogando a Copa Libertadores em 2003. O Remo, por sua vez, chegou até mesmo a ficar sem divisão em três temporadas posteriores (2009, 2011 e 2013).
Após momentos de instabilidade na década de 2010, o clube azulino viveu um processo de reformulação administrativa a partir de 2019 com a gestão de Fábio Bentes, que apostou na profissionalização dos departamentos e equilíbrio financeiro para colher os frutos dentro de campo.
— (Bentes) conseguiu emitir a certidão negativa de débitos com a Justiça, o Remo não tem mais processos judiciais abertos, feitos por jogadores por atraso salariais e tudo mais. O Remo hoje paga em dia, e esse movimento credibiliza o clube não só para o mercado, como também para os atletas — explicou Maia.
Mais estruturado e com o caixa sólido, o orçamento do Leão cresceu nas últimas temporadas. Em 2021, o Remo voltou à Série B depois de 13 anos, mas acabou rebaixado ao final da temporada. Mesmo assim, os dirigentes azulinos não abriram mão da fórmula que já havia dado resultado.
Antônio Carlos Teixeira, o Tonhão, é o novo Presidente do Clube do Remo com 1.014 votos e comandará o Leão no triênio 24/26. pic.twitter.com/UCa0Oq3pKJ
— Clube do Remo (@ClubeDoRemo) November 12, 2023
Ao final de 2023, Tonhão foi assumiu a presidência do Leão, após ocupar o cargo de vice-presidente na gestão de Bentes. Figura constante na política azulina desde a década de 1990, ele reforça a importância de apostar em pessoas de conhecimento técnico para tocar os bastidores.
— Futebol não se faz só com 11 bons jogadores, é todo um contexto, desde a valorização da marca, captação de investimento, aplicação correta e valorizar aqueles que vão a campo pra batalha representando a instituição.
Primeiro semestre turbulento
Depois do acesso em 2024, o Remo viveu um momento de instabilidade interna no primeiro semestre da temporada. Em maio, Sérgio Papellin, então executivo de futebol, deixou o cargo para se juntar ao Fortaleza. O dirigente havia sido o responsável por montar o elenco que subiu da Série C.
Para substituir Papellin, os azulinos trouxeram Marcos Braz, que ficou conhecido no futebol brasileiro por sua atuação na vice-presidência de futebol do Flamengo entre 2019 e 2024 — um dos períodos mais vitoriosos da história rubro-negra.
Marcos Braz é o novo executivo de futebol do Clube do Remo. Com ampla experiência no cenário nacional, ele chega para somar na construção do nosso projeto dentro e fora de campo.
— Clube do Remo (@ClubeDoRemo) May 31, 2025
Seja bem-vindo ao Rei da Amazônia! 🦁#OReiDaAmazônia pic.twitter.com/9cTG09xM2Z
Como executivo, o dirigente não ficou limitado às negociações de reforços. Gestor de processos dentro do departamento de futebol, Braz também lida diretamente com assuntos estruturais, como as dependências do Baenão, e o futuro CT do Leão, cujo terreno já foi adquirido.
— Ele mudou alguns processos administrativos dentro do clube, sobretudo envolvendo a comissão técnica, departamento médico, sociedade de comunicação — salientou o jornalista “d’O Liberal”.
No início de junho, o Remo estava na 6ª posição da Série B e a um ponto do G4, mas foi pego de surpresa com a saída de Daniel Paulista — contratado em março e recém-campeão estadual. O Sport pagou a multa rescisória do treinador, que tem forte identificação com o clube pernambucano.
António Oliveira, ex-Corinthians e Sport, sucedeu Paulista, porém, ele afastou a equipe azulina da briga pelo acesso à Série A. Em três meses com o treinador português, o Leão somou apenas 15 pontos no campeonato, o que motivou sua demissão.
Ponto de virada do Remo

Ao final da 27ª rodada da Série B, o clube azulino estava na 12ª posição e sete pontos atrás do 4º colocado. Só que tudo mudou a partir de setembro com a chegada de Guto Ferreira, que está invicto nos oito jogos que comandou com seis vitórias (consecutivas) e dois empates.
Caio Maia avalia que a reação do Remo foi possível graças ao trabalho de Guto em “trazer o ambiente positivo para o vestiário”, além resgatar o que já tinha dado certo em 2025 com Daniel Paulista. Diferente do antecessor português, o treinador adotou um estilo de jogo “mais reativo, de velocidade e operário”.
Outro mérito de Guto Ferreira foi extrair o melhor dos reforços azulinos. Nomes como os atacantes Diego Hernández e Nicolás Ferreira assumiram a responsabilidade com gols e assistências. O volante grego Panagiotis Tachtsidis, com longa bagagem europeia, também se provou um achado no mercado.
Pana, como ficou conhecido, merece um capítulo à parte. O meio-campista de 34 anos começou a carreira em 2007 e até esteve no elenco da Grécia que disputou a Copa do Mundo de 2014, apesar de não ter entrado em campo. Ao longo dos últimos anos, passou por Genoa, Roma, Torino, Hellas Verona, Cagliari e Lecce, além de Olympiacos, Nottingham Forest, Al-Fahya da Arábia Saudita, Khorfakkan dos Emirados Árabes Unidos e Cluj.
Um jogador grego fez gol para o Remo na reta final da Série B: Panagiotis Tachtsidis!
— Última Divisão (@ultimadivisao) October 25, 2025
A carreira dele é demais: jogou na Itália, no Oriente Médio, na Romênia e… agora fez gol em Cuiabá! pic.twitter.com/gNGODS8BnF
O grego chegou em setembro, no fim da janela, como um meia central para ajudar o elenco de Guto. Tachtsidis disse que foi convencido pelo projeto do Remo e que se encantou pelo futebol do país a partir dos companheiros brasileiros que teve na sua carreira. Ele chegou a dividir vestiário com Rivaldo no AEK, onde começou a jogar.
Por fim, outro acerto recente do Leão foi voltar ao Baenão. O Remo vinha mandando seus jogos no Mangueirão, que possui maior capacidade, porém, os resultados não apareciam. A mudança de estádio, para voltar à tradicional casa azulina, criou uma atmosfera de união com a torcida e pressão aos adversários.
— Perguntei para o Braz qual era o motivo de trazer jogo para o Baenão. Ele me revelou: “Quando vim para Belém, ainda sem contrato, fiquei apaixonado por esse estádio. Eu sei que a torcida é uma coisa muito importante para um time de massa, e eu vi quão próximo a torcida fica do gramado, quanta pressão pode fazer diante do adversário” — declarou Maia.
Pará de volta ao Brasileirão?

Como o acesso ainda não foi concretizado, o mandatário azulino garante que o clima é de expectativa, mas sem “oba oba e salto alto”. Concentrados para as últimas decisões da temporada, o Remo sonha em recolocar o Pará no centro do futebol brasileiro.
— Sem dúvida seria um grande presente ao Estado que tanto investe no esporte, e principalmente para o torcedor do Remo que nunca deixou de apoiar o clube, independente do momento. Futebol é algo macro, mexe com a economia, geração de empregos e renda — sintetizou Tonhão.
Sem pular etapas, o presidente do Leão garante que só vai começar a discutir o planejamento para 2026 depois da definição do campeonato. Mas, ainda segundo Antônio Carlos Teixeira, o torcedor azulino pode ficar tranquilo, pois a diretoria “está ciente das principais necessidades do clube”.
Ao remista, resta torcer para que o sonho da Série A seja realizado.



