Brasil

Em decisão inédita, STJD pune Hélio dos Anjos, técnico do Paysandu, por homofobia

Segundo súmula de jogo entre Papão e Volta Redonda, Hélio dos Anjos teria chamado o árbitro Gustavo Ervino Baurmann de "veado"

A 4ª Comissão Disciplinar do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) tomou uma decisão inédita e importante no combate ao preconceito nesta quinta-feira (19). O técnico de 65 anos Hélio dos Anjos, do Paysandu, recebeu uma punição de nove jogos por xingamentos homofóbicos proferidos contra o árbitro Gustavo Ervino Baurmann em 3 de setembro, quando o time paraense empatou em 1 x 1 com o Volta Redonda pela 1ª rodada do Grupo C do quadrangular da Série C do Campeonato Brasileiro.

Na ocasião, Hélio se revoltou com o árbitro pelo tempo de acréscimo dado no jogo e foi expulso. Após o término da partida, o técnico experiente se dirigiu a Gustavo e, segundo a súmula do juiz, proferiu diversos xingamentos: “Veadinho, vai tomar no c*, veado, veadinho”.

Hélio dos Anjos, presente no julgamento virtual, apresentou defesa sobre a acusação de Gustavo e afirma que não xingou o árbitro. Ele ainda pode recorrer da decisão. Caso se confirme a punição, os nove jogos de suspensão serão cumpridos nas rodadas iniciais de torneios organizados pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) disputados pelo Paysandu no próximo ano, são eles: Série B do Brasileirão, Copa do Brasil e Copa Verde. Vale destacar que na esfera criminal, a homofobia é crime inafiançável desde 2019 no Brasil.

O STJD já havia punido clubes por homofobia de torcidas, mas nunca treinadores ou jogadores, mostrando ser uma decisão inédita na história do futebol brasileiro.

À Trivela, Onã Rudá, fundador do coletivo de torcidas Canarinhos LGBTQ+, afirmou que uma punição na temática é sempre importante, mas o principal é a conscientização sobre o assunto dentro dos clubes, desde o grupo de jogadores até os membros da comissão técnica.

– Toda punição tem um grau de importância porque ela é uma forma de coibir, ou tentar coibir, ou punir os maus atos. Agora, o mais importante é a conscientização, a gente precisa aprofundar no trabalho dentro do futebol, o combate à LGBTfobia no cotidiano, com os atletas, com os elencos, com as equipes técnicas – disse Rudá, que completou:

– Ainda tem no Brasil muita resistência com isso, é uma dificuldade de a gente conseguir fazer esse trabalho, dar um passo à frente dentro desse ambiente do futebol, é tudo muito blindado. Julgo como uma decisão importante [a punição de Hélio]. Agora, não vamos conseguir avançar no que a gente precisa de punição em punição do STJD, precisamos que as instituições que hoje operam o futebol brasileiro se comprometam com esse combate à LGBTfobia de forma sistêmica – completou o também fundador da primeira organizada LGBTQIA+ do Bahia, a Torcida LGBTricolor.

As instituições citadas por Onã Rudá são, principalmente, os clubes. Segundo o especialista, a CBF e o STJD têm agido de forma exemplar no combate à homofobia, bem diferente das gestões dos times, o que dificulta debater a temática no meio do futebol

– O ponto é como que a gente consegue convencer os clubes, que lidam com as torcidas, com os elencos, com quem faz o futebol acontecer naquele momento mais sublime dele que é o jogo. […] O que os clubes fazem quando um atleta ou alguém da equipe técnica envolvido em um episódio como esse? – questionou.

Segundo levantamento dos Canarinhos LGBTQ+, até outubro de 2023, nove denúncias de homofobia no futebol brasileiro foram enviadas aos tribunais, sendo oito ao STJD e uma ao Tribunal de Justiça Desportiva (TJD).

No ano passado, outro estudo do coletivo revelou que o STJD julgou 12 casos de homofobia e condenou seis clubes (Fluminense, Atlético-MG, Atlético-GO, Remo, Red Bull Bragantino e o próprio Paysandu), além de absolver o Remo em outras duas oportunidades e realizar com Grêmio, Cruzeiro, Corinthians e Avaí transações disciplinares, quando os clubes reconhecem a culpa e promovem ações de combate à homofobia.

Paysandu promoveu ação no dia do Orgulho LGBTQIA+

Em uma ação nas redes sociais junto do rival Remo, o time de Hélio dos Anjos, o Paysandu, celebrou o Dia Internacional do Orgulho LGBT, comemorado em 28 de junho. No vídeo, são exibidas notícias envolvendo os crimes homofóbicos, enquanto quatro torcedores com os uniformes dos caminham. Quando eles se encontram e se beijam é exibida a mensagem “Nenhuma travessia foi tão importante! Contra o preconceito não há rivalidade”.

Grande incentivadora desses projetos, a Federação Paraense de Futebol (FPF) criou a campanha “Parazão Inclusivo” durante o campeonato estadual desse ano, destacando ações inclusivas, incluindo da causa LGBTQIA+.

Hélio dos Anjos já foi condenado pela justiça por homofobia

Em outubro de 1992, quando era treinado do Joinville, Hélio dos Anjos insinuou que um comentarista de uma rádio local era homossexual porque criticava os meio-campistas da equipe catarinense para favorecer o jogador Edmílson Paulista. Quase 23 anos depois, em junho de 2016, a 1ª Câmara Civil do Tribunal condenou o treinador a indenizar o ex-atleta.

Outra declaração homofóbica foi feita por Hélio em 2009. Na ocasião, quando estava no Goiás, afirmou que um jogador ter inveja de outro colega é “viadagem”. “O que en­­tendo de inveja de homem para ho­­mem é frescuragem, viadagem. Eu não trabalho com homossexual, não tem viado no meu grupo”, disse à época.

Depois, Hélio dos Anjos disse ter se expressado mal e que não teria problema em trabalhar com homossexuais.

– Quan­­do disse frescuragem, viadagem, foi na linguagem do futebol. Não tem nada a ver com a opção sexual de ninguém – justificou.

Nesse ano, em março, o técnico comandava a Ponte Preta e alegou ter sido vítima de homofobia e racismo em um jogo contra o Brasil de Pelotas-RS. Na súmula, o árbitro do jogo, Felipe Fernandes de Lima, detalhou as queixas de Hélio, que disse ter sido xingado por um torcedor de “negão filho da p…” e ouviu “Hélio, viado” vindo de parte da torcida nas arquibancadas.

Na entrevista após a partida contra o Brasil, o treinador disse não querer buscar a Polícia Civil porque, segundo ele, “não adianta”.

– Não vou fazer nada. Acha que vou perder meu tempo indo para delegacia falar sobre isso? […] Não adianta. Não adianta na Europa, olha o que o Vinícius Júnior está passando lá. E está adiantando o que? Em um continente desenvolvido […] Estamos aqui pensando numa coisa que não vai mudar no país. Entra presidente A, presidente B, presidente C, e não muda. Não muda porque não tem punição. Na Europa não tem – desabafou.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius é nascido e criado em São Paulo e jornalista formado pela Universidade Paulista (UNIP). Escreveu sobre futebol nacional e internacional no Yahoo e na Premier League Brasil, além de esports no The Clutch. Como assessor de imprensa, atuou no setor público e privado.
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