Brasil

Seleção tinha urgência de resultado e, sofrimento à parte, encontrou leveza

Depois de uma série de resultados sofríveis ao longo dos últimos meses, time tem sim o que comemorar após empate com a Espanha

A seleção brasileira não pode jogar nove vezes num ano e perder cinco, fechando a temporada com uma sequência insossa de derrota inoperante em Montevidéu, virada cantada de Luis Díaz em Barranquilla e queda morna, sem brilho algum, diante dos argentinos no Maracanã. Havia uma demanda por terminar os jogos com placares mais dignos depois dos meses sofríveis, e assim o time nacional o fez, sofrendo e competindo mal em Madri, é verdade, mas com uma vitória, um empate sob pênaltis controversos e quatro gols marcados na Europa, cenário que teria sido aceito de véspera se Dorival Júnior pudesse escolher seu futuro há dez dias. É justa a satisfação do elenco e da nova comissão técnica.

Interessante pensar na importância de se enfrentar as campeãs mundiais depois de anos em que os amistosos foram renegados, via de regra, a jogos neutros sem tanto clima ou repetições das partidas de sempre contra os vizinhos. Claro que é preciso registrar a cascata da motivação da luta contra o racismo – uma jaqueta preta, um jovem jogador negro jogado aos leões para segurar o peso do mundo e depois vestir a braçadeira de capitão, uma chuva de comentários preconceituosos por toda parte e nada de novo no país que reproduz crime e violência semanalmente contra um jogador de futebol. Mas, em campo, valeu muito, pela confiança e até para que se escancarem as dificuldades e diferenças que só surgem mais evidentes em jogos nesse tipo de tamanho, responsabilidade e atmosfera, passando aperto ao encontrar equipes de primeiro nível técnico.

No estádio do Real Madrid, o Brasil deixou uma péssima impressão até o intervalo. Talvez é preciso voltar a julho de 2014, aqueles dias mesmo, para lembrar um passeio ao nível de Yamal, Olmo e Nico Williams na primeira metade do Bernabéu. Eles rodearam a área de Bento ao próprio gosto, cortando para dentro e para fora, escolhendo o melhor colega para finalizar, tirando a linha de defesa e os volantes brasileiros de sparing. O pênalti, cavado, não deixa de ser símbolo disso, da tranquilidade em invadir a área de um lado, contrastando com a completa dureza do outro. A caneta (foram quantas?) de gol em Beraldo fez ameaço de goleada. A seleção não teve gás para pressionar, muito menos conseguiu proteger a área, e a saída de bola, travada e sem boas combinações, foi uma tragédia.

Apesar do pouco treino, haveria de se buscar formas de tentar jogar. Danilo, Bruno Guimarães, Paquetá e Raphinha foram à Copa do Mundo, João Gomes atua na pressão da apertada Premier League, Vinicius está acostumado a receber de costas com o lateral pendurado. Jogaram muito pouco. O Brasil titular, que não dominou a Inglaterra e mesmo assim conseguiu jogar e chegar na frente o tempo todo, dessa vez foi um time óbvio e sem enfrentamento no meio-campo.

Por sorte está naturalizada a patacoada de goleiro com passe pelo meio da área, e foi oferecido um gol de desconto à péssima atuação brasileira. Dorival foi bem em revirar o time no vestiário. André teve mais dinâmica, mas não traduziu em boas jogadas iniciais, e a sensação é que Douglas Luiz poderia ganhar uma chance melhor se houvesse um próximo jogo agora, diante da dificuldade de Bruno e João em construir – a cria do Vasco está bem, confiante no um contra um, e jogou só meia hora na soma das duas partidas. Yan Couto dá mais leveza para a primeira bola, mas não foi um grande escape no lugar de Danilo, discreto. Andreas Pereira e Endrick, esses, sim, empurraram o time à frente.

O centroavante adolescente merece todas as hipérboles. Em outubro de 2022, quando o Palmeiras rumo ao título perdia para o Athletico-PR em Curitiba, ele entrou no intervalo e virou o jogo em meio do segundo tempo. No ano seguinte, quando se tornou reserva nas finais do Paulistão, também entrou para a etapa final e empatou a decisão contra o Água Santa em dois palitos. Novamente mero substituto até a reta final do Brasileirão do ano passado, virou titular e ganhou o campeonato para o time paulista. Na estreia do Pré-Olímpico fez um gol aos quatro. Contra a Inglaterra, precisou de nove. Diante da Espanha, de cinco. A carreira ainda é promissora, mas seu bate-pronto de esquerda, rasante, como contra o Botafogo ou o Corinthians, já é uma marca. O moleque fede a gol. Sua presença é um foguete de carisma numa relação abalada com a amarelinha. Como não se encantar com Endrick?

Já Andreas é, para mim, a grata surpresa da semana. Jogou leve, acertou os toques mais decisivos, está solto em campo e, na ladeira que estava o jogo em Madri, pareceu preencher o campo de forma mais inteligente e eficiente que a média do time. Se o Brasil parecia espaçado, o ex-flamenguista cortou caminhos. No seu ritmo, o time melhorou naqueles quinze minutos que deu um calor nos europeus, empatou o jogo e poderia até ter virado no embalo. É uma opção a ser levada em consideração, seja com dois ou três atacantes, na divisão de responsabilidade com Paquetá, que não achou espaço encaixotado no amasso espanhol.

Acrescentaria um destaque óbvio a Bento, bombardeado por Fabián Ruiz, Rodri e companhia, que pareciam se multiplicar nas sobras na entrada da área tão mal defendida pelo Brasil. Gostei de Fabrício Bruno, ágil e presente no combate; Beraldo, tão calmo com a bola no pé, talvez podia ter subido um degrau no enfrentamento, normal para um zagueiro tão jovem, mas talvez uma tendência da geração, mais posicionada e técnica, menos do choque (às vezes fica a impressão de que falta a linha de trás chegar mais junto).

A lateral-esquerda é uma incógnita, a posição mais difícil para se convocar para um torneio. Na frente, Paquetá e Rodrygo sofreram contra um time que mantém a bola e pressiona rápido, mas o camisa 10 ainda se saiu melhor e deu suas escapadas, na agressividade leve de sempre para ir para cima. Vinicius Jr, exageradamente exposto no extracampo, não aproveitou os poucos lances que teve para arrancar, e ainda carece de achar o conforto que tem no Real, onde passeia mais por dentro e tem uma companhia mais equilibrada para dividir o foco.

A próxima lista de Dorival Júnior já vale para a Copa América, e fica a expectativa para ver caber Ederson, Alisson, Marquinhos, Gabriel Magalhães, Casemiro e Martinelli, os cortados por lesão. Voltarão a um vestiário mais confiante, depois da esquecível e esquisita temporada, onde o plano era esperar, do jeito mais mambembe possível, um treinador famoso. Até faria certo sentido se estivesse tudo certo, mas o final da história foi patético. Ao menos a seleção, agora e tardiamente, retomou a urgência de grandeza, um incômodo com o resultado que Ramon e Fernando Diniz não passaram nem perto de demonstrar, nem de levar para o campo. É só um começo de um novo dia, mas está melhor que ontem.

Foto de Paulo Junior

Paulo Junior

Paulo Junior é jornalista e documentarista, nascido em São Bernardo do Campo (SP) em 1988. Tem trabalhos publicados em diversas redações brasileiras – ESPN, BBC, Central3, CNN, Goal, UOL –, e colabora com a Trivela, em texto ou no podcast, desde 2015. Nas redes sociais: @paulo__junior__.
Botão Voltar ao topo