Brasil

Seis meses

Ricardo Gomes não fez muito para merecer a contratação repentina pelo São Paulo. Seu melhor trabalho no Brasil foi com o Juventude, quadrifinalista do Brasileirão de 2002. De resto, foram vários trabalhos medianos. Na Europa, foi mais ou menos a mesma coisa. E sempre foi partidário de equipes voltadas para a defesa, algo que vai contra o desejo da diretoria tricolor de ver seu time jogar um futebol mais atraente.

O fato de o ex-zagueiro ter sido chamado ajudou ainda mais a reforçar a tese de que “acabou uma era” no Morumbi. No caso, a “Era Muricy”. Ou a era dos títulos, porque ficou evidente que o (supostamente) planejado São Paulo demitiu seu treinador por impulso, sem haver um plano B. Assim, o clube sólido e vencedor daria espaço a um que veria seus recursos serem drenados pela reforma do Morumbi para a Copa de 2014.

Há uma chance razoável de isso acontecer, mas ainda é prematuro para cravar. De fato, o São Paulo passa por um momento relativamente delicado em sua vida financeira (pelo menos, para seus padrões). O clube se inchou muito nesta temporada, com a contratação de um banco de reservas muito caro. Para piorar, não houve nenhuma grande venda à Europa, o que a própria diretoria sempre disse ser fundamental para fechar o ano no azul.

Não é de se estranhar que já surjam rumores de que o clube enfrenta dificuldades para pagar os salários. Uma situação que pode ficar ainda mais delicada com a intensificação das obras do Morumbi. Daí a dizer, neste momento, que o clube vai passar por longo período de vacas magras vai uma distância.

Justamente por ter um elenco pesado, o Tricolor pode se desfazer de alguns nomes (como Hernanes, Jorge Wagner ou Washington) sem tanto trauma. Além disso, as categorias de base são-paulinas tiveram bons resultados nos últimos anos, o que dá a pista de que pode haver uma dose razoável de talento entre a garotada. Ou seja, é possível se manter forte.

O problema é que, para isso, a diretoria precisa se repensar. Parar de achar que é única dona do modelo perfeito de gestão esportiva no Brasil. Será preciso aprender com seus erros, se adaptar à nova realidade. E se redimensionar, ter humildade para entender que, caso se mantenha forte, o São Paulo dificilmente terá forças para lutar pelo título nacional. A contratação de Ricardo Gomes dá sinais de que não houve a reflexão adequada e que muita gente nos corredores do clube jogou a toalha. Mas é preciso dar uma chance para o técnico mostrar que melhorou depois de quatro anos na França.

Por isso, ainda é preciso tempo para saber se o Tricolor realmente mudou de mentalidade ou morrerá abraçado a seus equívocos. Seis meses é um tempo razoável para ter essa noção. Assim, a segunda metade de 2009 será muito importante para o futuro são-paulino. E, ao final desse período, será realmente possível dizer se “acabou uma era” no morumbi.

11 contra 11

“Mais que um time, precisamos ter um elenco”. A frase é dita por dez entre dez treinadores antes, durante e ao final do campeonato. O lema é dito sem grandes reflexões, como se a repetição exaustiva fosse incutir a mensagem na cabeça dos outros na forma de lavagem cerebral. Mas não adianta.

Dizer que um clube precisa ter 18 ou 20 jogadores em condição de entrar em campo sem que haja queda de desempenho é correto. No entanto, isso só faz sentido se o time sabe como usar o tal elenco. Coisa que os jogadores, técnicos e clubes brasileiros não sabem. Os atritos no São Paulo expuseram isso definitivamente (pelo menos para quem ainda não acreditava).

No Brasil, ter elenco significa contar com um time titular forte e um time reserva decente. Assim, quando o calendário aperta, o técnico pode escalar uma equipe alternativa e ainda é capaz de arrancar uns pontos. Foi assim com o São Paulo em 2006 e com o Internacional nesse começo de Brasileirão. Já está bom? Claro que não.

Outro mantra repetido pelos técnicos é que a equipe tem “15 ou 16 titulares”. Não é verdade. Ainda que alguns reservas entrem em campo com razoável constância, os times sempre trabalham com o pensamento que, na hora H, a formação ideal é sempre a mesma. Por mais boa vontade que tenha, quem está fora desse 11 ideal se vê como reserva.

Foi isso o que ocorreu no ataque do São Paulo. Washington, Borges e Dagoberto estavam em condições relativamente iguais na briga por duas vagas. Muricy Ramalho experimentou as três combinações possíveis de duplas, mas cada vez uma se mostrava mais forte. A imprensa e os jogadores cobraram uma definição de quais seriam os dois titulares. Mas isso não deveria ser necessário.

Nesse caso, trabalhar o elenco não é definir a melhor dupla titular e saber que tem um reserva bom no banco. É ter três opções de duplas, cada uma com suas virtudes e defeitos. Os dois atacantes seriam definidos de acordo com a necessidade para cada jogo, considerando a estratégia são-paulina e a característica do adversário.

O técnico tentou fazer isso, mas poucos entenderam. A carência de um rótulo de “titular” desagradou aos três jogadores, à diretoria e à imprensa. Não foi esse atrito que definiu a queda do treinador, mas ajudou a desgastar o ambiente – e, em última instância, o futebol – do São Paulo nas últimas semanas.

Que a lição seja aprendida.

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo