Em seus tempos de jogador, Renê reunia diferentes virtudes para brilhar no meio-campo. O apoiador defendia, armava e concluía com qualidade. Tinha uma forma física privilegiada, mas também boa dose de talento. E, assim, construiu uma carreira recheada de conquistas. Seu auge aconteceu no . Mesmo considerado um “reserva de luxo” em certos momentos, disputou 143 partidas e fez parte de grandes feitos tricolores – campeão Brasileiro em 1984, além de tri carioca em 1985. Mais do que isso, também teve seu brilho por , America-RJ e . Era um atleta exemplar e muito elogiado por sua inteligência, mesmo sem ser um craque.

Depois de pendurar as chuteiras, o ex-meia também viveu momentos importantes à beira do campo. Foi técnico da seleção sub-20 e de vários clubes pelo país, embora os maiores títulos tenham vindo como assistente de Paulo Autuori – chegando a levar Brasileiro e Libertadores. Aos 59 anos, seguiu na ativa até outubro, compondo a comissão técnica do Botafogo. Já na última quarta-feira, depois de três semanas internado, tornou-se mais uma vítima do coronavírus no Brasil. E que seu nome seja mais facilmente assimilado aos trabalhos nos últimos anos, Renê também merece ser lembrado pelo muito que fez em campo.

Renê Weber nasceu na cidade gaúcha de Roque Gonzales, na região fronteiriça com a Argentina. No município então com 5 mil habitantes, cresceu jogando nos campos de várzea. “Eu sempre gostei de bola e passei minha infância correndo. Organizava as peladas, era o dono da bola e do time. Naquela época, jogava como centroavante, fazia muitos gols, mas também estava em todos os lados do campo”, contou o jogador ao Jornal dos Sports, em 1986. Na época, o guri era fanático pelo Grêmio e tinha pôsteres dos jogadores enfeitando seu quarto. O destino, entretanto, o levou para o outro lado da rivalidade.

Aos 15 anos, Renê tentou a sorte no futebol de Porto Alegre. Através de um amigo, porém, acabou arranjando um teste no Internacional. Disputou alguns treinos e acabou se juntando às categorias de base coloradas. Passou a morar longe da família, a 500 quilômetros de Roque Gonzales. Apesar da saudade, vingou no Beira-Rio. Durante o final dos anos 1970, enquanto o Inter ainda reinava no futebol nacional, Renê também acumulou títulos com os juniores. Antes de se somar à equipe principal, ainda passou alguns meses emprestado ao São Bento de Sorocaba, onde ganhou destaque. Apesar das propostas de Palmeiras e Santos, os colorados levaram de volta a sua promessa.

O problema de Renê no Inter foram as comparações. O jovem apoiador passou a ser considerado o ‘novo Falcão’. As expectativas acabaram minando o seu espaço. O meia fez parte do elenco campeão gaúcho em 1983, mas perdeu lugar na reta final da campanha. “Para mim, as comparações com Falcão eram o fim. Sempre o achei um grande craque, mas viver a personalidade dele, como queriam, jamais. Foi aí que comecei a ver que ali não era mais meu lugar”, contou também ao Jornal dos Sports. A chance para Renê ganhar mais visibilidade surgiu através da seleção olímpica. O gaúcho conquistou o Pré-Olímpico no início de 1984 e por lá conheceu Carlos Alberto Parreira, que o levou depois para o Fluminense.

Emprestado pelo Inter, Renê chegou a Laranjeiras elogiado. O Jornal dos Sports o avaliava como “comunicativo, inteligente e possuidor de um futebol de toque e velocidade”. Já o Jornal do Brasil ressaltava como “distribui muito bem as jogadas e sua movimentação é intensa no meio-campo”. Ainda assim, o meia levou um tempo até emplacar, relegado ao banco de reservas. Até fez parte do elenco que conquistou o Campeonato Brasileiro de 1984, mas sem grande sequência. Foram nove jogos na campanha e um gol, nos 5 a 0 sobre o Coritiba durante as quartas de final. O gaúcho também entrou no segundo tempo do primeiro jogo decisivo contra o Vasco. Jandir e Tato, titulares no time de Parreira, haviam sido seus companheiros na base do Internacional.

A concorrência não ajudava muito Renê, especialmente por disputar posição com Assis e Deley. Foi apenas no ano seguinte que ele ganhou uma sequência como titular. O jovem de 23 anos chegou a se queixar publicamente da perseguição de um dirigente, que atravancava sua situação no Tricolor. O clube demorou a definir sua contratação permanente, ao mesmo tempo em que bloqueou o interesse do Vasco. Só depois a resolução seria favorável ao gaúcho, para que seguisse apresentando seu talento em Laranjeiras.

Em 1985, enfim, Renê pôde mostrar seu talento à torcida do Fluminense com mais regularidade. O meia virou solução ao time após a fracassada campanha na Copa Libertadores e ganhou moral após participar de excursões pelo exterior. Seu maior destaque viria no Campeonato Carioca de 1985, sob as ordens de Nelsinho Rosa. Mesmo usado tantas vezes a partir do segundo tempo, Renê teve grande contribuição no tricampeonato estadual do Flu. O apoiador anotou alguns gols decisivos nas fases iniciais, garantindo vitórias contra Bonsucesso e Volta Redonda. Era um substituto a Romerito, especialmente durante as convocações à seleção paraguaia, e apareceu de vez com a contusão de Assis. Sua consagração aconteceu no triangular que definiu a taça naquele ano. Na decisão contra o Bangu, o gaúcho foi um dos melhores da equipe durante a vitória por 2 a 1 e participou da construção do gol de Assis.

Renê seguiria como um nome frequente no Fluminense até o início de 1987. Saiu porque teve problemas com Antônio Lopes e, a pedido do treinador, os dirigentes não quiseram renovar seu contrato. Naquele momento, o meia atraiu atenções do exterior e acabou acertando com o Vitória de Guimarães. Antes disso, passou emprestado pelo America do Rio por dois meses, até iniciar a pré-temporada em Portugal. Nesta época, o apoiador era visto como um ‘contestador’, que não se conformava com o nível do futebol e com a incapacidade dos dirigentes. “A mentalidade do jogador de futebol hoje é outra. Não são mais os mesmos ignorantes de outras épocas. Aí é que está o problema: em qualquer sistema, quem reivindica não interessa. É figura a ser eliminada”, comentou, ao Jornal do Brasil.

Em Portugal, Renê passou quatro temporadas no Vitória de Guimarães. Foi titular dos Conquistadores sobretudo nos dois primeiros anos, perdendo espaço depois disso. E seus primeiros meses no clube seriam especialmente marcantes: além de disputar a Copa da Uefa, com a campanha até a terceira fase, também foi vice-campeão da Taça de Portugal – derrotado na final pelo Porto, campeão europeu um ano antes. Caio Júnior era outro destaque brasileiro do Vitória naquele período. Já na temporada seguinte, Renê faturou a Supertaça em cima do próprio Porto e também figurou na Recopa Europeia.

A volta de Renê ao Brasil aconteceu em 1992. E o Fluminense abriu as portas ao veterano, que disputaria poucos jogos, a maior parte pelo Brasileirão. Depois disso, de novo o meia assinou com o America. Acabaria encerrando a carreira em breve, mas logo assumindo a prancheta. O primeiro trabalho de Renê Weber como técnico aconteceu à frente do Arraial do Cabo na segunda divisão carioca. Logo depois, iniciaria a parceira com Paulo Autuori. A marca vitoriosa dos tempos de jogador se repetiu logo na primeira experiência, com o Botafogo erguendo a taça no Brasileirão de 1995. Pouco tempo depois, também acompanhou Autuori na conquista da Libertadores de 1997 com o Cruzeiro.

Como técnico principal, Renê Weber assumiu seus primeiros clubes na virada do século. Ganharia notoriedade por seu trabalho na seleção sub-20. Além de conquistar alguns títulos em torneios amistosos, disputou o Sul-Americano e o Mundial Sub-20 em 2005. O Brasil foi vice no torneio continental, perdendo a taça para a Colômbia de Radamel Falcao García e Hugo Rodallega – este, o fenômeno da competição. Já no Mundial, a Argentina eliminou os brasileiros nas semifinais, com gols de e Pablo Zabaleta. Entre os jogadores daquela geração canarinho estavam Rafael Sóbis, Diego Souza, Rafinha, Filipe Luís, Arouca, Tardelli e Diego Alves.

Renê Weber arranjou alguns trabalhos no Oriente Médio e, no Brasil, dirigiu principalmente times nas divisões de acesso. Durante a última década, voltou a reeditar a parceria como assistente de Paulo Autuori, além de ter sido coordenador no São Paulo. Seu último trabalho seria no Botafogo, novamente como braço direito de Autuori, até a demissão do comandante. Deixou uma história vitoriosa, que deve ser exaltada por diferentes torcidas.