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‘Meu psicólogo é Deus’: fala de Endrick é problemática e especialistas nos mostram o porquê

Endrick apontou que não precisa de um psicólogo porque Deus e a família cumprem esse papel

Um verdadeiro fenômeno nas categorias de base do Palmeiras, o atacante Endrick não precisou nem brilhar no profissional do clube paulista para ser vendido ao Real Madrid, aos 16 anos, em uma negociação que pode bater os R$ 400 milhões pelo cumprimento de metas. Hoje com 17, a poucos meses de se juntar aos colegas na Espanha, o jogador mostra uma maturidade nas entrevistas que dá, sempre sereno e, aparentemente, bem assessorado. No entanto, em uma fala à Revista Placar, o jovem diminuiu a importância do trabalho da psicologia, o que gerou reações negativas e é tratado como uma declaração problemática, segundo especialistas da área ouvidos pela Trivela.

Ao ser questionado sobre o papel da psicologia, Endrick, evangélico, disse que não precisa contar com o profissional da saúde mental, que nem o conheceria, porque “Deus e a família” são seus psicólogos.

– […] Meu psicólogo, primeiramente, é Deus. Eu não preciso abrir meu coração para mais ninguém. Eu tenho Deus na minha vida, eu não preciso desabafar com outra pessoa que não vai nem conhecer meus pais, não vai nem conhecer minha pessoa. Então eu somente tenho que conversar com Deus, tenho que orar. […] Se eu estou com minha família, eu estou feliz e eles estão me fazendo bem. E creio que não preciso nem achar uma pessoa que nem conhece minha família direito. Para mim, meus psicólogos são minha família e Deus – disse.

O primeiro ponto destacado pelos psicólogos do esporte ouvidos pela Trivela é: dá para conciliar os três. A religião ou a família não substitui a psicologia e vice-versa.

– Psicólogo não é Deus de ninguém, nem Deus é psicólogo de ninguém. Uma coisa é você ter uma crença religiosa, fundamentada, como no caso do Endrick, e a outra coisa é você ter um trabalho com um psicólogo. Uma coisa não exclui a outra e nem substitui a outra, por isso que gera tanto debate essa fala. Outra coisa, a questão da família, que é igualmente importante, mas família, a crença religiosa e a psicologia são três fatores que devem ser estudados isoladamente, você não pode juntar, falar que Deus é o psicólogo, que a família é o psicólogo. Psicólogo não é a família, você não pode, não são valências que você pode substituir, então por isso que a fala dele se torna tão problemática. – disse João Ricardo Cozac, psicólogo do esporte e presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte e do Exercício.

Rodrigo Bravim, psicólogo do esporte e professor da pós-graduação de Medicina do Esporte na Faculdade Uniguaçu, detalhou à Trivela que a declaração de Endrick também entra em campo de influência negativa para outros jovens. Ainda mais para uma área que não é 100% consolidada no Brasil, visto que na última Copa do Mundo a Seleção Brasileira não tinha um profissional para saúde mental e, em reportagem exclusiva da Trivela em setembro do ano passado, foi revelado que apenas metade dos times do Campeonato Brasileiro tinham psicólogos.

– A fala de Endrick pode incentivar que muitos jovens deixem de buscar ajuda profissional acreditando que são autossuficientes para resolver os próprios problemas ou buscando apenas um suporte religioso/espiritual que é, de inúmeras formas, diferente de um trabalho terapêutico profissional direcionado a cada transtorno ou doença de forma específica. – afirma Bravim.

– A psicologia é uma ciência, é uma linha de trabalho, se trabalha com comportamento, com a parte emocional, psicológica, não tem nada a ver com crença religiosa, então a fala dele pode sem dúvida nenhuma influenciar a crença de muitos outros garotos sobre o trabalho psicológico – reitera Cozac.

Bravim ainda afirma que, por vezes, o olhar de um familiar pode ser “enviesado”, atrapalhando o entendimento de uma pessoa em determinada questão. Com a visão externa, o psicólogo daria o suporte para uma compreensão maior.

– Diferente da família que sempre estará com um olhar protetor enviesado em defesa de um jogador, sem fazer com que ele se responsabilize pela situação em que ele se colocou, o psicólogo buscara fazer com que ele entenda o porquê tais situações estão acontecendo, muitas vezes o colocando no lugar do outro – expôs o psicólogo do esporte.

No que a psicologia poderia ajudar Endrick, campeão, com passagem pela Seleção Brasileira e a meses de jogar no Real Madrid?

Já na base, Endrick recebia grandes holofotes, mas nada comparado ao que aconteceu a partir de sua negociação com o Real. Depois, veio a primeira convocação para a Seleção Brasileira e o primeiro título definitivamente como um protagonista (Brasileirão de 2023). Contratos milionários com marcas, propagandas, milhões e milhões de seguidores nas redes sociais. Muitas emoções e mudanças repentinas. Para lidar com tudo isso, o acompanhamento psicológico individual é fundamental, aponta Cozac.

– A importância de um trabalho psicológico para o Endrick é fundamental. Principalmente porque ele está chegando para ser ícone de uma geração, que vai jogar no Real Madrid, que vai ser cobrado, que vai ter uma porção de mudanças significativas no ambiente e na vida como um todo. Não tem a menor dúvida que o trabalho psicológico para ele seria igualmente importante ao que foi para o Richarlison quando ele estava sem marcar gols e entrando em depressão, e ele fez um trabalho psicológico e começou a melhorar muito.

– Os atletas muitas vezes eles esperam ter uma demanda muito forte no campo psicológico para buscar o trabalho terapêutico. Lamentamos porque a psicologia ela precisa ser enxergada e concebida como prevenção e promoção de saúde mental.

Endrick viajou para Espanha e acompanhou jogo do Real Madrid (Foto: Icon Sport)

Cada vez mais os jogadores assumem que contam com um trabalho individual de psicologia. Além de Richarlison, os goleiros Ederson e Dibu Martínez, dois exemplos do esporte no mais alto nível, afirmaram contar com um profissional para saúde mental. Atletas jovens também buscam isso, como o meio-campista Ronald, de 21 anos, do Grêmio, que no ano passado conversou com a Trivela.

– [A psicologia] ajuda de diversas formas, principalmente com os erros dentro do campo. Uma coisa que eu e minha psicóloga sempre conversamos, que os erros não podem afetar o teu andamento na partida. Isso é o principal, de tu errar e ter consciência que na próxima você vai acertar, para continuar tentando – destacou Ronald, à época.

Endrick utilizou estrutura de psicologia do Palmeiras durante má fase no ano passado

A Trivela apurou que, no Palmeiras, ninguém se opõe ao trabalho do psicólogo, na base ou no profissional – e isso inclui Endrick. Diariamente, os profissionais atuam com os jogadores, que recebem avaliações físicas e psicológicas. Inclusive, a psicóloga Gisele Silva viaja com a delegação alviverde aos jogos.

Em fevereiro do ano passado, o Uol publicou que, durante uma seca de gols, o jovem atacante fazia sessões de terapia dentro e fora do clube – algo parece ter mudado para Endrick.

Importante citar que há diferenças entre o trabalho do psicólogo que atua no clube e o externo. Dentro de um time, o profissional busca potencializar o atleta em questões voltadas ao jogo, enquanto o psicólogo de fora trata de aspectos pessoais e mais individuais.

– O psicólogo que está num time de futebol não vai atender clinicamente um atleta da equipe que ele trabalha, o foco aí é a equipe em termos de trabalho psicológico. E individualmente pode fazer um apontamento, um trabalho de orientação ou até de encaminhamento, mas jamais fazer um trabalho de atendimento clínico a um atleta cuja equipe o psicólogo trabalha na área da psicologia do esporte. Quando tem um atleta passando por alguma dificuldade, o profissional do clube deve encaminhar esse jogador a um atendimento externo para fazer uma psicoterapia – concluiu Cozac.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius é nascido e criado em São Paulo e jornalista formado pela Universidade Paulista (UNIP). Escreveu sobre futebol nacional e internacional no Yahoo e na Premier League Brasil, além de esports no The Clutch. Como assessor de imprensa, atuou no setor público e privado.
Foto de Diego Iwata Lima

Diego Iwata Lima

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero, cursou também psicologia, além de extensões em cinema, economia e marketing. Iniciou sua carreira na Gazeta Mercantil, em 2000, depois passou a comandar parte do departamento de comunicação da Warner Bros, no Brasil, em 2003. Passou por Diário de S. Paulo, Folha de S. Paulo, ESPN, UOL e agências de comunicação. Cobriu as Copas de 2010, 2014 e 2018, além do Super Bowl 50. Está na Trivela desde 2023
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