Brasil

Para baixo, e avante!

Algum mês no meio de 2007 (não lembro precisamente qual, mas era entre maio e julho). Na reunião que definiria a pauta da revista Trivela para a edição seguinte, surge uma ideia: “o renascimento do futebol carioca”. Fazia algum sentido. O Fluminense estava entre os melhores da Copa do Brasil, o Botafogo brigava na ponta do Brasileirão, o Vasco fazia uma campanha digna na Série A e o Flamengo vinha de uma Libertadores decente e dava sinais de que estava se estruturando para voltar a ser forte.

Nem parece que se passaram apenas dois anos. Se todas as divisões do Campeonato Brasileiro terminassem neste momento (a coluna é escrita na noite de terça, 14 de julho), o Flamengo seria o único carioca na Série A. A Segundona teria quatro representantes do Rio de Janeiro: Botafogo e Fluminense, que cairiam, e Vasco e Duque de Caxias, que estão na Série B e nela permaneceriam. Como comparação, São Paulo teria nove times na elite.

Muito difícil acreditar que esse cenário se mantenha. O Vasco já reage na Segundona e deve se meter entre os quatro primeiros em breve. Também é factível acreditar que Botafogo e Fluminense consigam se recuperar. Nem que seja um deles. De qualquer modo, isso não apaga o fato de que o Rio de Janeiro precisa repensar seu modelo de futebol.

Cada clube tem sua história de crise. Empolgado pela arrancada na reta final do Brasileirão de 2007, o Flamengo quis apressar sua recuperação e passou a gastar mais do que podia, contratando atacantes e meias como se fossem aspirina. Hoje, o time é bom e tem condições de ficar entre os melhores do Brasil, mas está fora da realidade da Gávea e é bem possível que, em 2010, o elenco rubro-negro seja bastante diferente.

Seus conterrâneos passam por momentos mais delicados. O Botafogo vinha em um bom caminho, mas não soube esperar uma melhoria de suas categorias de base. Sem criar seus próprios jogadores, o Alvinegro se vê obrigado a contratar muito, assumindo o risco inerente a essa política. O Fluminense não percebeu que a parceria com a Unimed é interessante na emergência, pois o clube precisa ser autossustentável. Hoje, a relação entre tricolores e a empresa entrou em um impasse: os interesses de uma não coincidem com os da outra. E o Vasco ainda tenta se recuperar dos anos de desorganização.

Como diria Cléber Machado, “os problemas são pontuais, mas são estruturais”. Afinal, há um ponto em comum em todos eles: a ausência completa de pensamento em longo prazo. Aí, não é só falta de visão dos dirigentes, mas também de parte da torcida e até da imprensa.

De fato, os clubes cariocas davam sinais para otimismo em 2007. E não era pelos resultados em campo. Flamengo e Botafogo pareciam ter descoberto um modo de montar times financeiramente acessíveis e vivia rara estabilidade política. O Fluminense continuava com uma equipe bancada pela Unimed, mas as revelações das categorias de base davam a entender que havia um caminho para o futuro próximo. O Vasco ainda cambaleava, mas Eurico Miranda já estava com os dias contados.

O problema é que os trabalhos não foram mantidos, sobretudo na Gávea, em General Severiano e nas Laranjeiras. Fla, Flu e Bota acharam que já haviam terminado o processo de reestruturação, quando, na verdade, este ainda estava no meio. Com isso, o Rio de Janeiro voltou ao patamar de anos atrás: é preciso adotar uma gestão mais profissional, baseada na realidade econômica de cada clube, não mudar de planos no meio do caminho e aceitar que haverá temporadas de vacas magras antes de voltar a ser protagonista.

Obs.: sobre a reunião mencionada no primeiro parágrafo. A conclusão da conversa foi de que era preciso esperar um pouco mais para cravar que o futebol carioca estava realmente renascido. A reportagem nunca foi feita. Menos mal.

Reféns da tabela

Palmeiras e Fluminense têm como técnicos, pela ordem, Jorginho e Vinícius Eutrópio. Quer dizer, têm como técnicos interinos. Mas, na dificuldade de vislumbrar boas opções no mercado, já cogitam a possibilidade de efetivar seus comandantes. Uma situação que os dois clubes sabem que é errada, mas que se torna difícil de evitar diante do cenário que se apresenta.

O Palmeiras tem um time cheio de problemas, com defesa fraca, ataque pouco confiável (ainda mais depois da saída de Keirrison) e banco de reservas ruim. Ainda assim, o Alviverde está na terceira posição do Brasileirão e tem motivos justificados de se considerar na briga por um lugar na próxima Libertadores.

Nas Laranjeiras, a situação é quase inversa. O Flu caiu para a zona de rebaixamento, mesmo tendo uma equipe razoável no papel. Ainda que um retorno à Segundona pareça apocalíptico demais, é preciso sair logo da parte de baixo da tabela para não ver uma repetição de 2008, em que os torcedores sofreram muito mais que o necessário na Série A.

Esse compromisso com o resultado imediato acaba sobrepujando qualquer tentativa de planejamento em longo prazo. A aposta em um técnico sem “grife” é arriscada, pois uma queda de rendimento será considerada um erro de avaliação da diretoria. A opção seria buscar um treinador reconhecido por torcedores e imprensa. O problema, aí, é lidar com questões como alto salário, não aceitação de uma parte da diretoria e, principalmente, necessidade de dar tempo para um trabalho consistente aparecer.

Enquanto o clube vasculha o mercado, o técnico interino vai fazendo seu trabalho. Quase invariavelmente, ele tem o apoio dos jogadores e esse ânimo inicial se reflete em bons resultados. É a senha para os dirigentes considerarem mais viável seguir com o ex-auxiliar do que investir em um treinador já consolidado.

Pode ser um grande erro. Técnicos-tampões funcionam no ânimo do elenco após a saída de um comandante que já vinha desgastado. Em médio prazo, a falta de experiência do novo treinador faz que o trabalho se degenere. Alviverdes e tricolores até sabem disso, mas estão atados pelo imediatismo. Ambos não podem se dar ao luxo de terem uma pequena série de resultados ruins. Mesmo que seja necessário para ter um final de campeonato melhor.

Wagner Mancini se perde

Depois de um bom início, o trabalho de Wagner Mancini no Santos era uma caricatura. O técnico perdeu o comando do elenco – que tem membros que têm mais poder do que deveriam no clube – e não sabia mais o que fazer. Para piorar, não soube administrar o fato de ter sempre a sombra de Vanderlei Luxemburgo (algo sempre presente na Vila Belmiro) e, nos últimos tempos, de Muricy Ramalho.

Como resposta, Mancini adotou uma estratégia equivocada. Tentou ser ele o novo Luxemburgo, buscando entrar em choque com jogadores como forma de mostrar força e comandar todos os aspectos do clube. Mas esse é Luxemburgo, não Wagner Mancini. Nâo deu certo e o Santos se afundou ainda mais.

Sua saída foi natural. Ainda mais se Marcelo Teixeira percebe que há tantos técnicos bons dando sopa no mercado. Era uma boa oportunidade para demitir Mancini e ter boas opções para substituí-lo.

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Equipe Trivela

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