‘Ponta de faca’: Fala irônica de Ceni após derrota do Palmeiras corrobora Abel
Técnico do Bahia preferiu tripudiar em vez de constatar a obviedade de um problema que também é seu
O Palmeiras quer fazer uma reclamação formal à CBF acerca do péssimo gramado da Arena Fonte Nova. O clube entende que as condições do campo podem ter contribuído para as lesões de Lucas Evangelista e Piquerez, na derrota por 1 a 0 para o Bahia, pelo Campeonato Brasileiro.
Até as primeiras horas desta segunda-feira (29), o Palmeiras ainda não havia divulgado o resultado dos exames do posterior da coxa de Evangelista e do joelho direito de seu lateral uruguaio. De modo que não dá para cravar que o campo teve de fato alguma interferência.
O ponto é que, a despeito de ter ou não havido influência nas lesões, o gramado da Arena Fonte Nova não é admissível para a prática do futebol profissional. Mesmo sendo de grama natural.
Na entrevista coletiva após o jogo, Abel Ferreira disse que não usaria o gramado como justificativa. Porque Abel tem uma série de problemas em sua conduta com o microfone na boca. Mas hipocrisia e falsidade não são dois deles.
Ao contrário, Abel fala até com sinceridade demais do ponto de vista do que estamos acostumados no futebol brasileiro. Não faz muito, disse com todas as letras que o gramado sintético do Allianz Parque estava muito ruim, gerando mal-estar interno e dando arma para os outros clubes espezinharem o Palmeiras e desmerecerem as suas conquistas no terreno — do clube e de Abel.
Rogério preferiu ironizar o técnico do Palmeiras
Já Rogério Ceni, técnico do Bahia, indagado sobre as falas do português, decidiu ironizar o colega de profissão. Hipócrita e deselegantemente, desmereceu as falas de Abel, que inúmeras vezes declarou admiração pelo ex-goleiro.
— Acho que a cor (do gramado) estava muito feia. Para o Palmeiras, é melhor gramado ruim porque só fazem ligação direta, quase. A característica de jogo deles é Weverton-Flaco-Vitor Roque. A gente se prejudica mais porque joga desde trás no chão. Também gostaríamos que o gramado tivesse em melhor condição, mas acho que atrapalhou mais para nós. Sobre lesão, me desculpa, mas para quem joga em gramado sintético reclamar de lesão em gramado natural, aí fica feio. Não é o ideal? Concordo. Mas lesão muscular na conta do gramado é demais — disse Ceni.
Ao dizer que não falaria mais sobre gramado e calendário em sua entrevista, Abel disse que seguir falando sobre o tema seria dar murro em ponta de faca:
— Eu já falei muito sobre isso. Sabem, é muito duro tu veres um treinador que chegou aqui há cinco anos e tá a falar numa coisa que é histórico, não é de hoje. Portanto, eu, ao longo deste tempo todo, percebi que é bater em ponta de faca. E, depois, quem sangra, quem se prejudica, sou eu. O ricochete é muito grande(…) Vamos continuar a jogar de três em três dias, dois de dois em dois dias, o que for. E, às vezes, entregar também, porque é assim que funciona, um pouquinho à sorte das lesões, dos jogos, do tempo de recuperação que temos de um jogo para o outro, porque é preciso ter essa pontinha de sorte para não apanhar gramados como este, não ter a sorte como o nosso adversário que hoje não teve nenhuma lesão, e nós tivemos duas.
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Gramado ruim é problema de todos os clubes
Com sua fala, Rogério Ceni comprova o que disse Abel. Não adianta querer falar em melhorar o futebol se cada clube, cada técnico, pensar apenas em si. O gramado ruim da Fonte Nova, do Allianz, do Maracanã e quaisquer outros são problemas do futebol brasileiro, e não do clube A ou B.
A declaração do técnico do Bahia é a prova de que lutar para combater este tipo de mazela é mesmo perda de tempo. Quando um personagem com a relevância histórica de Rogério Ceni escolhe tripudiar e tomar o caminho da galhofa no afã de comemorar uma vitória, Abel entende um pouco mais o futebol do Brasil e ganha mais razão nas críticas que faz ao ecossistema nacional da bola.
O mesmo ecossistema que faz com que o Flamengo entre com um processo judicial para bloquear o repasse de valores de direitos de TV do Campeonato Brasileiro colocou os clubes que integram a da Libra em rota de colisão.
A medida tomada pelo Flamengo bloqueia o repasse de R$ 77 milhões referentes a uma das parcelas pela porcentagem de direitos de transmissão em canais por assinatura (pay-per-view). Caso o bloqueio permaneça, o valor congelado pode chegar a R$ 240 milhões até o final do ano, asfixiando os caixas de Atlético-MG, Bahia, Grêmio, Palmeiras, Red Bull Bragantino, São Paulo, Santos e Vitória.



