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O outro técnico estrangeiro que ajudou o Brasil a ser campeão do mundo

O domingo foi especial para o esporte brasileiro. A seleção feminina de handebol alcançou uma conquista sem precedentes em sua história. Ignorou a pressão da torcida em Belgrado, venceu a Sérvia e levantou a taça do Campeonato Mundial pela primeira vez. Uma campanha irretocável, sem uma derrota sequer, com vários momentos épicos.

O feito da equipe de handebol, obviamente, não aconteceu do nada. Nos últimos anos, o esporte passou a receber mais investimentos, a nata do elenco acumulou experiência fora do país. E, há quatro anos, um dos mentores da conquista foi contratado pela Confederação Brasileira de Handebol: o técnico Morten Soubak, que assumiu o comando do time e foi fundamental para a melhora dos resultados.

Aí você pergunta: o que o handebol feminino tem a ver com futebol? É que a experiência vinda de fora do país também ajudou o Brasil a ganhar sua primeira Copa do Mundo, em 1958. A seleção brasileira não teve o seu Morten Soubak, que conduzisse o processo. Porém, contou com grande influência de um dos maiores técnicos da história, que passou breve temporada pelo país: Béla Guttmann, comandante do São Paulo a partir de 1957.

Quando chegou ao Brasil, Guttmann já era um treinador de ponta internacionalmente. Tinha começado sua carreira pelo Hakoah Viena, clube de origem judaica que fez sucesso entre as décadas de 1920 e 1930; passou pelo Milan, onde não foi campeão, mas teve em mãos uma forte equipe, liderada por Juan Alberto Schiaffino, Nils Liedholm e Gunnar Nordahl; e teve a honra de dirigir o Honvéd, clube que servia de base para a seleção húngara encabeçada por Ferenc Puskás. Foi em uma excursão ao Brasil com o time, aliás, que Guttmann acabou parando no São Paulo.

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Sua grande contribuição para a seleção brasileira, contudo, não veio na descoberta de algum craque, mas na forma como ele pensava o jogo. Ao lado de Gustáv Sebes, técnico da seleção húngara, Guttmann ajudou a revolucionar as táticas. Principalmente a partir de suas experiências no Milan e no Honvéd, transformou o esquema 3-2-2-3, o famoso WM, em 4-2-4. Os centroavantes de suas equipes voltavam ao meio e embaralhavam as defesas adversárias, enquanto os laterais ganhavam mais liberdade.

Guttmann foi o pioneiro do 4-2-4 no Brasil. E a mudança tática vivida pelo São Paulo ajudou bastante, com a conquista do Campeonato Paulista de 1957. O húngaro permaneceu por um ano no Tricolor, saindo já em 1958. O suficiente para que seus conhecimentos fossem absorvidos por Vicente Feola, seu assistente no clube, técnico da seleção a partir de maio daquele ano. E o esquema tático seguiu com Feola na equipe nacional, bastante funcional para a conquista do Mundial da Suécia. Se o jogo de Didi, Pelé, Garrincha, Nilton Santos e tantos outros craques fluiu tão bem na competição, a mudança tática teve grande influência também.

A partir de Feola, de seus conhecimentos adquiridos com Guttmann e da geração de ouro que fez esse estilo funcionar, o Brasil iniciou sua hegemonia internacional. Uma história que pode servir de inspiração para Soubak e suas jogadoras, diante da enorme oferta de talento que a seleção de handebol também usufrui. E que também serve para levantar uma questão: por que não buscar de maneira mais intensa esse intercâmbio de conhecimento entre técnicos estrangeiros e brasileiros também no futebol? Não há mais nada para se aperfeiçoar? Tudo bem que o Brasil é pentacampeão do mundo. Mas só chegou a essa condição graças a esse aprendizado.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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