De ‘homem de aço’ no Santos a lesionado toda hora no exterior: o que acontece com Neymar?
Neymar tem lidado com diversas lesões nos últimos anos, mas quando era atleta do Santos, raramente perdia um jogo; médico de sua passagem no Peixe falou com a Trivela
Além da péssima atuação que resultou na derrota do Brasil para o Uruguai, por 2 a 0, no estádio Centenário, em Montevidéu, a partida da última terça-feira (17), válida pela 4ª rodada das Eliminatórias para a Copa do Mundo ficou marcada pela grave lesão sofrida pelo atacante Neymar, que rompeu o ligamento cruzado anterior e menisco do joelho esquerdo. Esta foi a 30ª lesão sofrida pelo atleta desde que saiu do Santos, em 2013. Antes de deixar a Vila Belmiro, o camisa 10 da Seleção Brasileira não sabia o que era perder uma partida por conta de contusões.
Mas por que no Santos Neymar não sofria com lesões e na exterior elas passaram a lhe acompanhar de maneira tão próxima? Para entender isso, a Trivela procurou o ortopedista e médico do esporte Rodrigo Zogaib, que viu toda a passagem do atacante pelo Santos. Desde a chegada às categorias de base do clube, em 2003, até a sua transferência para o Barcelona, da Espanha, em 2013.

De acordo com Zogaib, que trabalhou no Departamento Médico do Santos por 24 anos e é professor de ortopedia na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e na Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp), alguns fatores precisam ser levados em consideração para chegar a essa resposta.
– O primeiro ponto é que estamos falando de um Neymar que jogou efetivamente no profissional do Santos por três anos e que, depois de vendido ao Barcelona, já está há dez anos no exterior. Então, estamos comparando três anos intensos no Brasil com 10 anos muito mais intensos na Europa. Lá, o futebol é muito mais veloz, tem muito mais marcação e muito mais deslocamento dos jogadores dentro de campo. Quanto mais você se desloca numa partida, maior a chance de ter lesão, maior a chance de ter contato com outros jogadores. A competitividade é muito maior, e eu acho que esses são fatores importantes na hora de analisarmos essa situação – explica o médico.
Mais liberdade no futebol brasileiro
Isso significa que apesar de esbanjar toda a sua habilidade, inteligência e também ser caçado pelos adversários enquanto principal jogador do Santos, entre 2010 e 2013, Neymar tinha mais liberdade para jogar e não precisava se deslocar em campo na mesma velocidade, quantidade e intensidade que passou a fazer desde que deixou o Peixe.
– Por outro lado, existem fatores que fariam o Neymar ter menos lesões na Europa. A partir da transferência para a Espanha, ele ganhou muita massa muscular, melhorou o preparo físico e o treinamento. Isso o favoreceria a não ter tantas lesões. Porém, existe um ponto importante que tem que ser prestado atenção. As piores lesões do Neymar foram sem contato direto com o oponente. Exceto a agressão que sofreu do Zuniga, da Colômbia, na Copa do Mundo de 2014, a maioria das lesões, como essa diante do Uruguai, foram com movimentos torcionais, chamadas de entorses. Eu diria até que foram acidentes de jogo – acrescenta Zogaib.
No futebol, lesões torcionais ocorrem mais frequentemente nas articulações dos tornozelos e joelhos, nesta ordem. As de joelhos são as lesões cirúrgicas mais frequentes neste esporte
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O que de fato aconteceu em Montevidéu?
Ao se referir à lesão contra o Uruguai, por exemplo, como um acidente de jogo, o médico detalha o que de fato fez o atacante da Seleção Brasileira sofrer a ruptura do ligamento cruzado anterior e do menisco do joelho esquerdo que irá lhe tirar do restante da temporada do Al-Hilal, da Arábia Saudita.
– Ele, em contato com o solo e o peso do corpo em cima do joelho esquerdo, sofreu uma rotação com o pé numa posição e com o corpo rodando em outra direção, às vezes associado a um movimento em valgo (quando ambos os joelhos apontam um para o outro, e não para frente). Este é o mecanismo mais comum da lesão – diz o médico.
É um momento muito triste, o pior.
Sei que sou forte mas dessa vez vou precisar ainda mais dos meus (família e amigos)
Não é fácil passar por lesão e cirurgia, imagina passar isso tudo de novo após 4 meses recuperado.
Fé eu tenho, até demais …
Mas a força eu entrego nas mãos… pic.twitter.com/H7Rm7elzBA— Neymar Jr (@neymarjr) October 19, 2023
Por que o Neymar sofre tanto com entorses?
A lesão sofrida em Montevidéu foi a primeira de joelho sofrida pelo atacante na carreira. Mas os problemas de entorses nos tornozelos perseguem Neymar há alguns anos.
Segundo Zogaib, entorse de uma articulação é o movimento rotacional muitas vezes ligado a uma inclinação lateral ou medial. Tanto dos joelhos como dos tornozelos durante as ações de mudança de direção. Ou seja, os dribles ou as tentativas de dribles, na maioria das vezes, levam a mudança de direção em campo e favorecem as entorses.
– O estilo de jogo do Neymar leva à incidência maior de possíveis lesões por entorse, porque ele é um jogador que tem o drible como uma das principais características. E não vejo esses problemas de entorses como falta de alguma valência física dele. Enxergo como algo mais relacionado ao estilo de jogo, a região do campo em que atua e a proposta que ele tem de drible – explica o ortopedista.
A idade contribuiu para essa lesão?
Atualmente com 31 anos e caminhando para a reta final da carreira, a idade não influenciou para que Neymar sofresse a entorse no joelho esquerdo no estádio Centenário. Conforme Zogaib, o atacante da seleção vive uma realidade médica oposta à dos jogadores que passam dos 30 anos.
– Essa lesão não tem qualquer relação com a idade. Até porque, conforme o atleta que vai ficando mais velho, aumenta a frequência de lesões musculares. Mas com o Neymar está acontecendo o contrário. As lesões que ele teve, depois dos 26, 27 anos, foram torcionais. O Neymar sofreu muito pouco com problemas musculares. Esse problema que ele teve no joelho é muito mais comum de acontecer com jogadores mais jovens – comenta o especialista.
Desfalque nas Eliminatórias para a Copa
Em razão do problema no joelho, Neymar é desfalque certo para os dois próximos compromissos do Brasil pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2026, que serão disputados no mês que vem contra Colômbia, em Barranquilla, e Argentina, no Maracanã.
Depois disso, as Eliminatórias só voltarão a ser disputadas em setembro de 2024 e a presença do camisa 10 nos duelos contra Equador, no Brasil, e Paraguai, no Paraguai, dependerá da sua recuperação.
Terceiro lugar nas Eliminatórias
Com a derrota para o Uruguai, a Seleção Brasileira ocupa a terceira colocação das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2026, com sete pontos somados.
La tabla de posiciones de las #EliminatoriasSudamericanas tras la Fecha 4! ??
A tabela de posições das #EliminatoriasSulAmericanas após a quarta rodada! ⚽️?#CreeEnGrande #AcrediteSempre pic.twitter.com/JU7nIaLeeu
— CONMEBOL.com (@CONMEBOL) October 18, 2023
A Argentina, atual campeã mundial, lidera a competição com 12 pontos, enquanto o Uruguai, com os mesmos sete pontos do Brasil, aparece na segunda colocação por levar vantagem no saldo de gols (8×7). A Venezuela, também com sete, mas com cinco gols de saldo, é dona da quarta posição.



