A missão foi cumprida: a casa do Corinthians é uma realidade, mas ainda não pode receber visitas
O sensato prefere fatos à ilusão. Não gosta de arriscar, criar falsas esperanças. O receio do torcedor corintiano, particularmente, foi reforçado pelas inúmeras tentativas fracassadas. No entanto, nem o mais cético mantém o direito de duvidar. O Corinthians tem uma casa com quatro paredes e um teto. Precisa de alguns reparos, o colchão ainda faz contato com o assoalho e a panela ferve o miojo em cima de tijolos, mas a Arena Corinthians já foi utilizada oficialmente.
Neste sábado, pela primeira vez na história, o time profissional do Corinthians treinou em seu próprio estádio, em Itaquera. A primeira ação real do sonho da casa própria foi um treinamento comandado por Mano Menezes, na ensolarada manhã deste sábado, de olho no decisivo confronto contra o Penapolense, que pode definir a classificação do clube para as quartas de final do Campeonato Paulista.
Não chegou a haver coletivo, mas o rachão que os jogadores adoram fazer antes das partidas teve clima de jogo. Os operários que estão trabalhando desde 30 de maio de 2011 ganharam uma folga para acompanhar o bate bola. E torceram como se aquela movimentação valesse três pontos. Vibraram e aplaudiram os gols como se estivessem no Pacaembu vendo Emerson destruir a defesa do Boca Juniors mais uma vez. O que importa, afinal, é o espírito com o qual você encara as coisas.
Se houve ludismo nas arquibancadas semi-prontas, a angústia esteve presente nos bastidores. A inauguração do estádio do Corinthinas é o capítulo final da trajetória de um time que conquistou os principais títulos que disputou. E o capitão que levantou aquelas taças, do Campeonato Brasileiro de 2011 ao Mundial de Clubes do ano seguinte, não vai ter a chance de repetir esse gesto em Itaquera. Sequer tocar na bola em um jogo profissional.
Alessandro aposentou-se no final do ano passado e não se arrepende. Sabe que perdeu a luta contra o tempo e que o corpo não aguenta mais. Mas é inevitável que sinta o coração apertado por não poder participar desse momento ao lado dos ex-companheiros. “Dá uma vontade imensa de estar ali com eles, de chuteiras. Há três meses eu estava jogando”, disse o calvo ex-lateral direito, que está negociando um meio termo para poder aplacar um pouco da ansiedade. “Já cobrei do Andrés que ele vai ter que dar um jeito de organizar um jogo para eu vestir a camisa de novo na nossa casa maravilhosa”, contou.
Esse jogo, provavelmente, será a inauguração do estádio. Andrés Sánchez, ex-presidente e atual coordenador das obras, deseja que a primeira partida da Arena Corinthians seja um “Corinthians contra Corinthians”, com o máximo de ex-jogadores que a organização puder reunir. “A minha vontade é essa, mas depende do presidente do Corinthians”, disse.
Enquanto Mário Gobbi, com quem as relações não são mais as mesmas, decide se realiza a vontade do seu antecessor, Andrés trata de garantir que a conta seja paga. Com o atraso do financiamento do BDNES, o clube precisa pagar juros, que, segundo o dirigente, batem na casa dos R$ 100 milhões. Ainda é necessário achar parceiros privados para as estruturas provisórias da Copa do Mundo, como uma área maior para a imprensa, por exemplo, que “não vão passar de R$ 60 milhões”.
“Alguns órgãos estão preocupados se o Corinthians vai pagar, mas pode ter certeza que vai. Não vai dar calote não, como tanta gente por aí”, disse. O Corinthians pretende lucrar com o próprio estádio. De acordo com Andrés, o custo operacional será de R$ 25 a R$ 30 milhões por ano. Ele prevê uma renda anual de cerca de R$ 175 milhões. Metade do lucro vai para a prestação, metade para os cofres do clube. E ainda há os naming rights, mas os detalhes dessa negociação são secretos. “Se tiver novidade, você não vai saber”, ressaltou.
A entrega está prevista para 15 de abril, depois de “dois ou três eventos-teste”. Andrés avalia que o Corinthians fará de quatro a oito partidas no estádio, “talvez sem a capacidade máxima”, antes da Copa do Mundo. O cronograma foi atrasado pelo acidente com a cobertura que causou a morte de dois operários. Por isso, o palco da abertura ficará pronto menos de dois meses antes da primeira bola da Copa do Mundo de 2014 rolar. Dificilmente, tudo correrá perfeitamente, mas Andrés não quer saber. “Se a Fifa não tolerar (pequenos problemas), que faça a Copa em outro lugar”, avisou.
Algumas modificações podem ser feitas depois do Mundial porque a estrutura do estádio comporta uma expansão para até 70 mil pessoas. A capacidade oficial é de 48 mil, com mais 20 mil assentos provisórios. E também há a questão dos alambrados. Durante a Copa, nada, além da boa educação, vai impedir o torcedor de invadir o gramado. Resta decidir se isso vai ser estendido para o futebol brasileiro também. “Tem uma ala de pessoas que querem isso (alambrado). Eu sou contra. Seria que nem o mal vencer o bem. Acredito na educação do povo”, afirmou. “Se um dia puserem grade aqui, não venho mais para o jogo”.
Andrés não faz parte do grupo dos sensatos. Desde o começo da obra, nunca duvidou que, desta vez, tudo daria certo. E tinha razão. O controverso ex-presidente orquestrou a construção da casa do Corinthians e agora visita o seu filho de concreto de duas a três vezes por semana para garantir que tudo continue correndo bem. “Não tenho palavras. É um sonho realizado de nós coritianos. Sou emotivo, é difícil falar. A missão foi cumprida, não só minha, mas de todos os corintianos”, encerrou.