Brasil

Titular no papel, incógnita no corpo: Militão vira ponto de interrogação da Seleção

Prestigiado por Ancelotti, defensor soma poucos jogos nas últimas três temporadas e vira alerta físico às vésperas do Mundial

Éder Militão não é exatamente uma dúvida técnica na seleção brasileira. Pelo contrário. Em virtude da relação construída com Carlo Ancelotti no Real Madrid, da confiança irrestrita do treinador e do repertório defensivo que oferece, o zagueiro parte, hoje, como nome praticamente certo na lista da Copa do Mundo — e com chances reais de ser titular.

A questão que paira sobre sua presença, no entanto, é outra: em que condições físicas ele chegará ao torneio?

Carlo Ancelotti em coletiva de imprensa da seleção brasileira (Foto: Imago/ Brazil Photo Press)
Carlo Ancelotti em coletiva de imprensa da seleção brasileira (Foto: Imago/ Brazil Photo Press)

A discussão não é nova, mas ganhou força nas últimas semanas. Militão virou ausência na Data Fifa de março — a última antes da convocação final — justamente por conta de lesão, reforçando um padrão que se repete com frequência incômoda. Mais do que episódios isolados, o que chama atenção é a sequência de problemas físicos que impediram o defensor de manter regularidade competitiva ao longo das últimas três temporadas.

Enquanto outros selecionáveis chegam à reta decisiva do ciclo tentando ganhar espaço ou consolidar status, o defensor de 28 anos vive uma realidade diferente: não precisa provar o que joga, mas sim se conseguirá chegar inteiro ao Mundial.

O recorte recente ajuda a dimensionar o problema. Militão soma apenas 16 partidas na atual temporada, depois de ter disputado 18 jogos em 2024/25 e 13 em 2023/24.

Para um jogador de elite, em um clube como o Real Madrid, a minutagem reduzida não é um detalhe estatístico — é um indicativo direto de indisponibilidade. E, no caso de Militão, essa indisponibilidade tem sido constante.

Militão: lesões em sequência e um corpo que já não oferece previsibilidade

Militão deixa gramado do Bernabéu lesionado
Militão deixa gramado do Bernabéu lesionado (Foto: No Third Party Sales / AFLOSPORT / Imago)

O ponto mais sensível da análise vai além da quantidade de jogos: está no tipos de lesões que vem afastando Militão dos gramados. O zagueiro não conviveu com problemas pontuais de baixo impacto. Seu histórico é marcado por contusões graves e recorrentes, capazes de interromper por longos períodos sua presença em campo e, principalmente, de comprometer ritmo e continuidade competitiva.

O episódio mais recente veio em dezembro de 2025, durante a derrota do Real Madrid para o Celta de Vigo, por LaLiga. Militão deixou o gramado ainda no primeiro tempo e, no dia seguinte, o clube confirmou o diagnóstico: ruptura no bíceps femoral da perna esquerda, com acometimento do tendão proximal. Foi essa lesão que o deixou de fora da última lista de Ancelotti.

Esse episódio se soma a um histórico pesado. Nos últimos anos, o zagueiro já havia enfrentado duas rupturas de ligamento cruzado, além de problemas musculares no processo de retorno. Segundo o “Transfermarkt”, ele perdeu 48 jogos em 2023/24, 58 em 2024/25 e 26 — até o momento — na atual temporada.

Para uma Copa do Mundo, isso é determinante. Não basta estar apto para estrear — é preciso sustentar nível e intensidade em um intervalo curto de partidas, com desgaste acumulado e exigência máxima. E é justamente esse tipo de resposta que Militão ainda não conseguiu oferecer de forma consistente no período recente.

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Ancelotti confia em Militão — mas improvisação pode cobrar ainda mais

Militão e Ancelotti durante treino do Real Madrid
Militão e Ancelotti durante treino do Real Madrid (Foto: Oscar J. Barroso / ZUMA Press Wire / Imago)

A discussão fica ainda mais relevante porque Militão não entra no radar da Seleção apenas como zagueiro. Em um cenário no qual Marquinhos e Gabriel Magalhães aparecem fortes para formar a dupla central, o defensor também desponta como alternativa bastante plausível para a lateral-direita, posição em que já foi testado e na qual sua força física, leitura defensiva e versatilidade podem ser vistas como trunfos importantes.

Do ponto de vista tático, a ideia é compreensível. Militão oferece segurança em duelos, imposição pelo alto, velocidade de correção e experiência em jogos grandes. Além disso, carrega a confiança total de Ancelotti, que o conhece de perto e sabe exatamente o tipo de entrega que costuma receber quando o atleta está em boas condições.

Mas há um contraponto incontornável: atuar pelo corredor direito cobra fisicamente de maneira ainda mais agressiva. Diferentemente do zagueiro central, o lateral é exposto com mais frequência a acelerações longas, coberturas em amplitude, recomposição constante e duelos em campo aberto.

Em outras palavras, exige mais repetição de esforços explosivos — justamente o tipo de demanda que acende o alerta quando se fala em um jogador que vem de lesões musculares e graves interrupções na carreira.

Eder Militão em aquecimento antes de jogo do Real Madrid
Eder Militão em aquecimento antes de jogo do Real Madrid. Foto: IMAGO / NurPhoto

Seleção convive com uma certeza técnica — e uma incerteza física

O caso de Militão concentra uma das contradições mais relevantes da Seleção neste momento. Ele é, ao mesmo tempo, um jogador em quem Ancelotti confia profundamente e um atleta cuja condição física já não oferece garantias mínimas de previsibilidade.

Não se trata de discutir se ele tem qualidade para estar na Copa — isso, em condições normais, parece praticamente consensual. A dúvida real é outra: quanto do Militão ideal estará disponível quando o torneio começar?

Se estiver saudável, ele vai para a Copa. E, muito possivelmente, vai jogar bastante. O problema é que, nos últimos três anos, essa tem sido justamente a parte mais difícil de garantir.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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