Brasil

Mariano Soso, novo técnico do Sport, teve família perseguida na ditadura e é fã de Paulo Freire

Recém-contratado, Mariano Soso assumirá projeto do Sport em 2024

Para disputa da Série B do Campeonato Brasileiro em 2024, o Sport buscou sair do óbvio das opções para técnico. Após análise de estilo de jogo pelo departamento de scout e entrevistas por vídeo com a direção, o clube divulgou no início de dezembro que o novo comandante é o argentino Mariano Soso, com contrato até o fim do próximo ano. Já apresentado em entrevista coletiva, o treinador de 42 anos mostrou facetas interessantes, como os princípios de seu estilo de jogo pautado na posse de bola e pressão, sua origem e até uma admiração pelo educador brasileiro Paulo Freire.

A Trivela também ouviu dois dirigentes do clube, o diretor de futebol, Jorge Andrade, e o executivo das categorias de base, Rafael Fernandes, para explicar o motivo da escolha e falar também de como pretende utilizar os garotos no elenco atual.

Conheça mais da história de Soso, do nascimento em Rosário até o último trabalho do técnico no Melgar, do Peru.

Filho de educadora e ativista dos diretos humanos, Mariano Soso se formou em assistência social

Mariano Andrés Soso nasceu em 30 de abril de 1981, em Rosario, cidade argentina que respira futebol (e política), berço de figuras como Lionel Messi, Marcelo Bielsa e César Luis Menotti no que envolve o esporte e, no âmbito político, Che Guevara, a figura da Revolução Cubana em 1959.

O caminho natural para um garoto de Rosario fã de jogar bola é seguir carreira no futebol, seja pelo Newell’s Old Boys ou Rosario Central. Soso ingressou no infantil dos Leprosos, mas teve seu sonho de ser jogador interrompido aos 12 anos, quando foi comunicado pelo técnico Claudio Vivas – um dos principais auxiliares de Marcelo Bielsa – que seria desligado do clube.

Sem espaço no esporte, encontrou na assistência social uma nova carreira, se formando em 1999. E há motivos pela escolha dessa área em específico. O agora técnico é filho de Alicia Lesgart, educadora e ativista pelos direitos humanos que viu sua família sofrer com a perseguição da sanguinária ditadura militar argentina (1976-1983). A prima de Alicia, Susana Lesgart, foi uma das 16 pessoas baleadas Massacre de Trelew (episódio no qual militantes foram fuzilados em uma base da Marinha Argentina).

Susana também teve três dos quatro irmãos desaparecidos (María Amelia Lesgart e Rogelio Lesgart, desaparecidos em 1976, e Adriana Lesgart, em 1979) – Liliana, a quarta irmã, não sofreu com a perseguição porque se exilou na França.

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O pequeno Soso e a mãe (Foto: Reprodução/Redes sociais)

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A admiração por Paulo Freire

Por ser filho de uma educadora, Mariano Soso conheceu o educador Paulo Freire, justamente um pernambucano, e consumiu muita literatura do autor de “Pedagogia do Oprimido”, “Educação como Prática da Liberdade”, “Pedagogia da Autonomia”, “Pedagogia da Esperança”, dentre outros livros. Ele explicou isso durante a coletiva de apresentação no Sport, questionado porque havia postado na rede social X (ex-Twitter), em 2019, uma frase do educador.

– Nasci em uma casa onde minha mãe é educadora popular, alfabetizadora, e onde Paulo Freire foi lido desde muito cedo. É alguém que respeito e admiro. A cultura deste país [Brasil] é muito presente na minha infância. Por isso, também estou muito honrado que me convoquem, em particular, por esse clube, pela forma de sentir o futebol e o apoio incondicional da torcida – disse o técnico argentino, admitindo em seguida uma admiração pela cultura brasileira:

– Minha mãe é muito próxima da cultura brasileira, não só em termos educativos, como em outros elementos também e isso me atingiu. Por isso, sempre manifesto publicamente uma profunda admiração pelo país – finalizou Mariano.

A frase publicada por Soso no X foi tirada do livro “Ação cultural para a liberdade e outros escritos”.

“Estudar não é um ato de consumir ideias, mas de criá-las e recriá-las”, Paulo Freire.

O início no futebol

Já na assistência social, Soso recebeu a oportunidade de virar auxiliar de Claudio Viras, aquele mesmo técnico que o dispensou do Newell’s quando tinha apenas em 12 anos, que não esqueceu aquele garoto curioso, questionador e inquieto da base dos Leprosos. Acompanhou o experiente profissional entre 2004 e 2014 no futebol argentino, mexicano, paraguaio até chegar ao peruano, onde, em 2015, recebeu a primeira para ser o treinador principal, do Real Garcilaso.

Com aproveitamento de 68% no Garcilaso, logo na temporada seguinte foi contratado pelo Sporting Cristal, um gigante do Peru, e venceu o primeiro (e único) título da carreira, ao conquistar o Campeonato Peruano batendo o Melgar na decisão. O bom trabalho o levou de volta à Argentina, no Gimnasia y Esgrima, mas durou apenas 12 jogos em uma passagem esquecível.

Mariano Soso no período como técnico do Sporting Cristal (Foto: Divulgação/Sporting Cristal)

Após o Gimnasia, partiu para o Emelec e, apesar de não ser campeão, conseguiu classificar a equipe para Libertadores de 2019. Ainda teve curtos trabalhos em Defensa y Justicia (neste, pediu demissão após a diretoria vender jogadores importantes) e San Lorenzo, deixou o O’Higgins em oitavo no Campeonato Chileno de 2022 até que retornou ao Peru neste ano, no Melgar, onde voltou a ter um trabalho consistente, levando a equipe para pré-Libertadores com o vice do campeonato nacional.

O que a torcida do Sport pode esperar de Mariano Soso?

Como Soso é um admirador do gigante Marcelo Bielsa, a torcida do Leão já sabe que pode esperar um time que tentará ser protagonista nos jogos, saída de bola estruturada, sempre pelo chão, muita posse de bola e uma pressiona incessante. Isso foi visto em seus trabalhos, principalmente no Peru. Dentre as formações, utilizou normalmente um 4-3-3 ou 3-4-1-2.

Em entrevista exclusiva à Trivela, o diretor-executivo do Sport, Jorge Andrade, disse que o estilo de jogo do técnico argentino era exatamente o que clube buscava para próxima temporada, na qual o acesso será o grande foco.

– A gente tinha já pensado essa filosofia de jogo para 2024, de muita intensidade, jogo ofensivo, posse de bola, foi o que a diretoria definiu. Esse modelo de jogo que se caracteriza muito com o que a torcida do Sport gostaria e gosta de ver. Começamos as buscas e abrindo dentro da nossa pesquisa de mercado, juntamente com o nosso departamento de análise, o nome de alguns treinadores do Brasil, da América do Sul e até da Europa. E aí chegamos no nome do Mariano – detalhou Andrade.

Outra característica de Bielsa que Mariano ostenta é a utilização das categorias de base, que tem contado com maiores investimentos no clube pernambucano e trazido frutos, como a utilização do jovem Fábio Matheus durante a última Série B e a melhor campanha da história na última Copinha.

E o argentino já tentou trabalhar isso logo quando foi apresentado no início de dezembro, conforme revelou Rafael Fernandes, diretor-executivo da base do Leão, à Trivela. Soso conversou com o técnico do Sport sub-20, Thiago Larghi, que, segundo o executivo, tem um estilo de jogo parecido com o treinador do profissional.

– São estilos [de jogo] muito parecidos. O Thiago e o Soso gostam da formação com a saída de três, com o lateral fechando por dentro. Acredito que vai ajudar muito ali essa transição base profissional. Soso já esteve aqui no CT, em algumas reuniões, o Thiago já interagiu com ele, que quer muito se aproximar do técnico da base. Até os horários de treino do sub-20 serão os mesmos do profissional. Vai facilitar muito – detalhou Rafael.

Mariano Soso terá oportunidade de ver os Leões da Base, como são conhecidos os juniores do Sport, a partir de 4 de janeiro de 2024, quando estreiam na Copinha.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius AmorimRedator

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.

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