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MA Cunha: ‘Calendário europeu é a quem não entende futebol’

A discussão sobre o calendário do futebol brasileiro poucas vezes esteve tão aquecida, ainda mais depois da entrada de alguns dos principais jogadores do Brasileirão. Alguns pontos são praticamente consensuais, como o excesso de jogos. Outros ainda são polêmicos, como a adequação do período da temporada nacional à europeia. E, se os defensores da manutenção do sistema atual querem algum aliado, podem procurar Marco Aurélio Cunha.

O ex-dirigente são-paulino, atualmente vereador em São Paulo e aliado de Kalil Rocha Abdalla na chapa de oposição às eleições tricolores do ano que vem, foi enfático ao defender que a temporada brasileira precisa começar em janeiro e terminar em dezembro. “Adequar o campeonato, fazer o verão virar inverno, ter jogo no Natal, é só para quem não entende de futebol”, comentou.

Em entrevista exclusiva à Trivela, MAC também defendeu Paulo Autuori (com quem trabalhou em 2005) e, como cabo eleitoral de uma chapa de oposição, deu suas cutucadas na diretoria são-paulina, sobretudo no gerenciamento das categorias de base.

Nas últimas semanas, o calendário tem sido um dos principais temas de debate no futebol brasileiro. Como você avalia essa discussão?

É absolutamente absurda a adequação ao calendário europeu. Ele é feito baseado no hemisfério norte, em cima de um calendário escolar onde as pessoas têm férias de verão. Ele é feito em países que não têm a visão do Ano Novo e do Natal como somos educados. Evidentemente, não há como imaginar nós, no verão brasileiro, jogando em janeiro. Quero ver quem vai ser o gestor que vai arrumar passagens para jogar em Salvador no dia 28 de dezembro. O calendário europeu joga no inverno para preservar o verão, as férias. Fala-se isso para os times não perderem jogadores no meio do campeonato. Ocorre que hoje muitos atletas vão para países que também adotam o calendário anual. Quem propõe isso não tem noção do que é a vida de um atleta de futebol.

Mas uma longa reclamação de alguns clubes, sobretudo o São Paulo, era a falta de brecha para os clubes brasileiros voltarem a excursionar pela Europa.

O que o Brasil tem que dar é uma janela para que se faça excursões no mês de julho ou agosto, na Europa, com uma janela. Os times viajariam, apresentariam suas marcas e voltariam ao Brasileiro. Isso sim. Mas adequar o campeonato, fazer o verão virar inverno, ter jogo no Natal, é só para quem não entende de futebol.

O Andrés Sánchez está reunindo alguns dirigentes e organizando um movimento para bater de frente com a Conmebol. Em entrevista ao UOL, ele afirmou que o único dos clubes brasileiros com o qual entrou em contato e não retornou foi o São Paulo. Como você vê a organização do movimento e dos campeonatos pela Conmebol?

O Andrés tem toda a razão quanto aos valores baixos pagos pela Libertadores e pela Copa Sul-Americana, pela pouca transparência nos acordos com a televisão e nos contratos publicitários que são feitos pela Conmebol. Todo fórum de discussão merece atenção. Se eu for convidado, eu compareço para debater, mesmo estando na contramão da opinião. Essas forças, eu diria, revolucionárias, sempre têm sentido. Poderão não ter razões completas, mas vai haver um esforço para que a Conmebol reveja suas posições. Sou contra a insurgência, mas sou a favor das buscas às melhores respostas, a movimentos para reflexão. Neste ponto, o Andrés tem meu apoio. Talvez a forma possa ser debatida melhor. Não sei se vale a pena um boicote, mas vale uma ampla discussão, para que a Conmebol se apresente rentável aos clubes, não às organizações.

Nas últimas semanas, crescem as críticas à forma como o São Paulo compra jogadores da base de outras clubes. Como reatar o elo quebrado com essas equipes?

Nunca gostei dessa prática, mas o futebol passa por algumas situações que são criadas. Um jogador entra em litígio com outro clube, quer sair, a estrutura do São Paulo é bonita, ele quer vir e tal. Não pode ser por um salário maior, por algo que corrompa um garoto de 15 anos, o pai dele, porque o processo já começa degenerado. Você pode criar uma negociação com o clube que o acolheu, tentar fazer um acordo. Porque senão você já começa pessimamente a educação esportiva desse menino que, com 16 ou 17 anos, vai sair atraído por um empresário europeu. Essa cadeia predatória é do mais fraco para o mais forte. Nós estamos em uma etapa de força, mas aquém ainda dos grandes capitais europeus..

Você manifestou sua confiança no trabalho do Muricy e declarou que faltou coerência nas atitudes da presidência atual. Como você analisa a demissão do Paulo Autuori?

Ou você analisa primeiro por conhecer o Paulo Autuori, por ter trabalhado com ele em uma Libertadores e um Mundial, saber o estilo dele, se aquilo se aplicava ao momento do São Paulo, se ele era o melhor nome para a situação, ou não o trouxesse. Se achou que era aquilo, se fosse até o fim. Aí vem um e diz que ia cair. Então erraram em trazer. O que não pode é um campeão do mundo ficar dois meses no clube e ser demitido. Quem tem que ser demitida é a diretoria de futebol.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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