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Lesão de LCA, o ligamento cruzado anterior: por que tão frequente e temida por jogadores?

Panorama da contusão no futebol atual, sintomas, cirurgia e o longo processo até voltar a jogar

Em setembro, o atacante Pedro, do Flamengo, passou por uma cirurgia para reconstruir o ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo (LCA).

Trata-se da mesma lesão sofrida por Neymar, que o mantém longe dos gramados desde outubro de 2023. Nos últimos dias, Rodri, Carvajal e Bremer foram acometidos pela mesma contusão.

Frequentemente nos deparamos com a notícia de que determinado jogador rompeu seu LCA. A fratura em questão é uma das mais comuns e temidas no meio futebolístico. Mas por quê?

Na tentativa de entender as nuances do LCA, a Trivela consultou dois especialistas no tema.

Definições importantes, panorama no futebol atual, sintomas, cirurgia, tempo de recuperação: os ortopedistas Rodrigo Nunes e Matheus Pezzini concederam entrevista ao site e esclareceram esses e outros tópicos pertinentes.

Nunes é médico ortopedista especializado em cirurgia do joelho e membro da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia.

Já Pezzini, além de ortopedista e membro da mesma Sociedade, também atua como médico da equipe sub-20 do América-RJ.

O que é ligamento cruzado anterior?

Em termos mais populares, o médico Rodrigo Nunes nos traz a definição de ligamento cruzado anterior. Em linhas gerais, trata-se de um dos ligamentos mais importantes do joelho.

Tal estrutura é responsável por estabilizar a articulação, principalmente em movimentos de aceleração, desaceleração e giro — fundamentais na prática esportiva, incluindo futebol. 

— O ligamento cruzado anterior é um ligamento que fica no interior do nosso joelho. Juntamente com o ligamento cruzado posterior, ele forma o pivô central, que é o centro de rotação da articulação do joelho. Ele é uma estrutura responsável por estabilizar o joelho durante a prática esportiva. Então, a função primária dele é estabilizar a tíbia em relação ao fêmur, e estabilizar toda a tíbia em relação ao joelho e ao seu movimento rotacional — disse.

Neymar lesão Brasil x Uruguai
Neymar em desespero após romper o LCA e o menisco do joelho esquerdo (Foto: Icon Sport)

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Como ocorre a lesão de LCA

A lesão do LCA é o estiramento ou ruptura das fibras do ligamento cruzado anterior. Na maioria das vezes, ela acontece por torção do joelho, como explica o doutor Rodrigo Nunes.

— O principal movimento que ocorre a lesão de LCA é com o pé apoiado, fixo. O atleta faz um giro, e esse giro acarreta a dissipação desse movimento dentro da articulação do joelho, chegando até o limite de tensionamento desse ligamento e fazendo com que ele venha a romper — pontua.

Eis o mecanismo clássico: pé apoiado ao solo, o atleta gira a tíbia para dentro, o fêmur gira para fora e, ao mesmo tempo, ele faz um estresse em valgo — ocorre quando uma articulação é submetida a uma carga que a força a se desviar para dentro. Isso acaba levando a lesão de LCA.

Nunes ainda destaca outro tipo de movimento que pode levar a lesão do cruzado: a hiperextensão. Basicamente, ela ocorre quando o atleta estica demais o joelho, além do seu limite normal, indo para trás da linha da perna.

Momento em que Carvajal sente a lesão do LCA
Momento em que Carvajal sente a lesão do LCA (Foto: IMAGO Images)

Sintomas da LCA

Em quase toda lesão do LCA, é possível ouvir um estalido e sentir o joelho se deslocando.

O Dr. Rodrigo chama atenção para os principais sintomas após o susto: dor, inchaço, instabilidade e sensibilidade na articulação.

— O principal sintoma é a dor. Geralmente vem uma dor aguda na articulação, muitas vezes acompanhada de um estalido, que pode ser audível — a pessoa escuta o estalo. Imediatamente esse joelho começa a inchar, que caracteriza o que a gente chama de derrame articular — uma limitação para apoiar o pé ao solo e dificuldade de pisar. Isso tudo na fase aguda — afirma, antes de concluir:

— Após a fase aguda, o que o atleta vai sentir é uma instabilidade nesse joelho. Essa é a principal característica da lesão do LCA. Ou seja, toda vez que o atleta for tentar fazer uma atividade esportiva e/ou precisar fazer uma mudança de direção, esse joelho escapará do lugar. Ele vai sentir o joelho torcer novamente.

Rodri se contorce de dor ao lesionar o LCA
Rodri se contorce de dor ao lesionar o LCA (Foto: IMAGO Images)

O futebol atual propicia mais lesões de LCA?

Muito se questiona se há uma maior incidência de lesões de LCA no futebol atual se comparado às décadas anteriores. Intensidade elevada e movimentos mais bruscos em campo são apontados como possíveis causadores de tal suposição.

A suposição, no entanto, não é verdadeira.

Nunes e Pezzini compartilham da mesma visão: contusões de LCA sempre foram frequentes no futebol. Para ambos, o que cresceu foi a prática do esporte, além da evolução da medicina que, hoje, fornece diagnósticos mais rápidos e precisos.

— O futebol acaba levando a muitas lesões LCA porque é um esporte de contato, é um esporte em que existe bastante esse movimento de giro, principalmente com o pé apoiado ao solo. E também, por vezes, ocorre o imprevisto de um contato, ou de um movimento, tirando o centro de gravidade do atleta e fazendo com que ele tenha o movimento mais brusco em cima desse joelho.

— Essas lesões são muito frequentes atualmente. No passado, elas também eram. A lesão de LCA sempre aconteceu na prática do futebol — diz Rodrigo Nunes.

— É evidente que atualmente o futebol está mais físico, com uma intensidade maior. Em compensação, o preparo físico e muscular dos atletas também acompanhou essa mudança. Melhora dos campos, as tecnologias das chuteiras evoluíram. O futebol, como um esporte de contato e de alta intensidade associado a mudança brusca de direção, tem um risco aumentado de lesões do LCA.

Mas não vejo uma maior incidência comparado a outras épocas, até por que na medicina também temos que levar em consideração alguns vieses para levantar essas estatísticas. A prática tornou-se mais popular, o diagnóstico das lesões mais precisos e as notificações também. Então, por vezes podemos ter a impressão de ver um número maior de lesões — complementa Matheus Pezzini.

Ainda existem poucas pesquisas na literatura acadêmica sobre incidência da lesão em esportes de alto rendimento.

Uma delas é a monografia “Incidência de lesão no ligamento cruzado anterior em jogadores de futebol: revisão narrativa da literatura”, assinada por Miranne Cardoso da Silva e apresentada no Departamento de Esportes da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), no ano de 2017.

Nas considerações finais do trabalho, Miranne traz o dado que acontecem 0,523 lesões de LCA a cada 1000 horas de jogo no futebol brasileiro

Além disso, “a incidência de lesões de LCA em situação de jogo foi maior em mulheres (0,871/1000h) do que em homens (0,507/1000h)”, segundo o mesmo estudo.

Cirurgia, tempo de recuperação e processo até voltar a jogar

A cirurgia do LCA consiste na elaboração de um novo ligamento. Como? Através da reconstrução do LCA rompido com ‘fragmentos de tendão’ — chamado de enxerto — do próprio joelho do paciente.

— Na cirurgia, fazemos a reconstrução do ligamento cruzado anterior. Para isso, a gente se utiliza de um enxerto de tendão, que ficará no lugar desse ligamento. Esse enxerto vai ser colocado dentro da articulação e fixado exatamente na origem do ligamento original — explica o Rodrigo Nunes.

Sobre o tempo de recuperação e processo até voltar a jogar, considera-se o seguinte cronograma:

  • 1ª etapa — reabilitação mais lenta nos primeiros dois meses;
  • 2ª etapa — recuperação em termos de fortalecimento (academia);
  • 3ª etapa — com quatro meses, geralmente o atleta é liberado para começar a correr;
  • 4ª etapa no quinto mês, inserção de treinos de musculação mais intensos, além de corrida e bicicleta;
  • 5ª etapa — gesto esportivo no sexto mês, com treinos de mudança de direção no campo;
  • 6ª etapa — o item acima se intensifica até o nono mês, quando é realizada uma avaliação funcional específica para saber se o atleta já reúne todas as características necessárias para o retorno ao esporte

E caso o atleta não seja aprovado nessa avaliação, o que acontece? O doutor Rodrigo responde:

— Bom, nesse caso, o atleta volta para academia, volta para o treinamento e melhora a questão muscular. A partir daí, repete os testes. Quanto tiver tudo ok (musculatura, confiança), é hora de voltar ao campo. Geralmente entre o nono e o 12º mês de pós-operatório.

Reação de Bremer ao contundir o joelho em RB Leipzig x Juventus, pela Champions League
Reação de Bremer ao contundir o joelho em RB Leipzig x Juventus, pela Champions League (Foto: IMAGO Images)

Há alguma forma de prevenir essa lesão?

Alguns fatores aumentam as chances do jogador ser acometido pela lesão de LCA. A Trivela lista alguns deles:

  • Desequilíbrios musculares;
  • Má postura;
  • Falta de fortalecimento adequado da musculatura de suporte do joelho;
  • Superfícies de jogo inadequadas (gramados ruins e/ou desnivelados)

A prevenção, por sua vez, está diretamente ligada aos elementos citados acima, como Matheus Pezzini destaca.

— Devemos fazer um bom trabalho muscular, com o fortalecimento dos músculos, em geral, do membro inferior. Trabalhar também propriocepção e deixar o atleta ‘equilibrado’ em toda musculatura. Às vezes, uma fraqueza muscular não identificada pode acabar aumentando o risco de uma lesão. Basicamente o fortalecimento muscular com treinos de propriocepção seriam suficientes, além do bom equilíbrio muscular. Materiais de boa qualidade (chuteiras) e um campo regular também ajudam na prevenção.

Técnicas adequadas de movimento, como aterrissagem e mudanças de direção, também são essenciais como forma de prevenção.

 

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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