Genival Lacerda é um símbolo da música nordestina. O paraibano se consagrou como um dos maiores nomes do forró, deixando como legado dezenas de discos e algumas canções memoráveis – em especial “Severina Xique-Xique”, seu maior sucesso. As roupas extravagantes e as letras divertidas, quase sempre com duplo sentido, eram marcas do músico. Com a saúde debilitada nos últimos meses, Genival faleceu nesta quinta-feira aos 89 anos, em decorrência da COVID-19. Será para sempre lembrado por sua autenticidade, por seu bom e pela maneira como exaltava suas raízes. Uma referência do Nordeste que, curiosamente, também possui sua ligação com o futebol.

Nascido em Campina Grande, Genival Lacerda torcia para o Treze. Sua paixão pelo clube, porém, não se limitava às arquibancadas. Antes de seguir carreira no forró, o paraibano vestiu a camisa do Galo da Borborema e atuou como zagueiro. A passagem pelos gramados aconteceu na adolescência do futuro músico, durante a virada dos anos 1940 para os 1950. O beque passou por diferentes clubes amadores de Campina Grande, como o Flamengo da Bela Vista e o Ypiranga. Já no Treze, permaneceu restrito ao segundo quadro, com outros jovens aspirantes.

“Joguei bola em quase todos os times de Campina Grande. Onde tinha um campinho de futebol, eu jogava. Passei pelo Treze, o melhor time! Joguei no segundo quadro, de aspirantes. Eu desfiava o sol pros outros. Começava às duas horas, até três, três e meia, quando às quatro horas o time principal entrava. Eu era um zagueiro de usina. Touro! Passou, o pau come. ‘Olha a rasteira!’ Se um atacante como o Neymar passasse na minha frente, coitadinho… ele não ia não. Ficava ele, a chuteira e tudo. Deixar o cara fazer gracinha na minha frente? Quem faz graça sou eu, não ele”, contou o brincalhão Genival Lacerda a André Gallindo, em conversa no programa ‘Espaço Pernambuco’, da Rede Globo.

Contudo, em tempos nos quais o futebol local ainda era amador e o dinheiro do bicho se concentrava entre os atacantes, Genival Lacerda desistiria da trajetória cedo. Sem querer “morrer de fome”, segundo suas próprias palavras, sequer chegaria ao time principal do Treze. Sorte da música, que logo veria Genival participar de programas de calouros e se mudar a Recife, onde gravou seu primeiro disco em 1955. Na nova cidade, aliás, adotaria o para apoiar. “Naquele tempo, Deus me defenda, a gente jogava futebol e recebia choro. Cadê o dinheiro? Não tem. Ganhava um bichinho muito mixuruquinha. Eu digo: acho que vou deixar essa profissão, vou pra outra. Aí fui! Fui cantar!”, disse também o forrozeiro ao , em matéria reproduzida nesta quinta pelo obituário assinado por Cisco Nobre no GE.com.

Genival Lacerda seguia manifestando seu amor pelo Treze por onde passasse e não abandonou o clube mesmo depois de virar um grande nome do forró. Em 2010, durante entrevista a Jô Soares, o cantor até falou que Dunga “deveria convocar todo o time do Treze pra Copa do Mundo, porque é uma seleção”. Carinho que seria retribuído com uma homenagem do Galo da Borborema nesta quinta, diante da triste notícia da morte do torcedor ilustre.

“Foi com pesar que recebemos a triste notícia do falecimento de Genival Lacerda, mais uma vítima da COVID-19. Cantor, compositor, um dos maiores representantes de nossa cultura, o artista encantou o Brasil com sua música e seu jeito descontraído de ser! Além de Trezeano de coração, Genival, antes de subir aos palcos, vestiu a camisa do Alvinegro nos gramados, na década de 40. Todos que fazem parte do Treze Futebol Clube lamentam profundamente sua morte e se solidarizam com amigos e familiares, neste momento de dor”, escreveu o Treze, em suas redes sociais. Entre as saudades da voz potente e da música contagiante, fica um espaço também ao futebol.

Abaixo, os tributos do Treze e do Sport, além dos trechos das entrevistas a Jô Soares e André Gallindo. Vale conferir também a matéria do GE, com outros detalhes dessa história.