Para além das campanhas: O futebol pode e precisa ser mais aliado do combate à violência de gênero
Números mostram que futebol brasileiro precisa investir em protocolos e ações para garantir segurança às mulheres no esporte
O futebol sempre foi um dos espelhos sobre o que acontece na sociedade. E essa semelhança não se desfaz quando se trata da relação com as mulheres. Durante meses recentes em que casos brutais de feminicídios foram noticiados, o esporte mais consumido do país fez questão de relembrar que o seu lado sombrio também se fez presente.
No esporte, as agressões contra as jornalistas Duda Dalponte, Nani Chemello e Aline Gomes foram gravadas e transmitidas para milhares de pessoas e segue chamando a atenção para a violência de gênero no esporte.
De acordo com o estudo “Mulheres & Futebol”, realizado em abril de 2024 pelo W.LAb em parceria dos institutos Ideia, Locomotiva e Pinion, 94% das mulheres torcem para algum time brasileiro, mas apenas uma em cada três torcedoras frequenta estádios de futebol.
O estudo, que foi baseado em entrevistas realizadas com 1.053 mulheres, mostra a importância e influência do esporte no país, mas também os desafios enfrentados pelas torcedoras ao assistir jogos ao vivo.
Segundo o levantamento, alguns dos motivos que afastam as torcedoras dos ambientes são a falta de segurança e de infraestrutura, reforçando que o direito de torcer pelo país ainda enfrenta barreiras significativas, em ambientes que seguem sendo majoritariamente masculinos.
A pesquisa chama a atenção para a frequência feminina nos estádios no que considera “alarmantemente baixa”. O levantamento mostra que 40% das participantes apontaram que não frequentam estádios citaram a falta de segurança como o principal motivo. A violência e a inadequada infraestrutura para garantir a integridade física das torcedoras também foram abordadas.
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— [O primeiro passo] Começa com deixar os estádios seguros. Acho que tem alguns passos muito básicos: segurança. Olhar essa torcedora como pessoa mesmo –, afirmou Carol Dantas, representante da Pinion e responsável pela pesquisa.
Violência além das arquibancadas
As diferentes formas de violência de gênero também se fazem presentes além das arquibancadas. Segundo o levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, realizado em 2024, em dias de jogos de futebol, as agressões físicas às mulheres aumentam quase 21%.
Outro número alarmante identificado pela pesquisa mostrou que as ameaças nessas ocasiões também crescem em quase 24%.
Durante audiência pública da Comissão Permanente Mista de Combate à Violência contra a Mulher, realizada pela Câmara Legislativa, Isabella Matosinhos, pesquisadora do Fórum, destacou que os homens respondem por 90% dos crimes letais contra as mulheres.
Das agressões cometidas em dias de jogos de futebol, segundo apontou a pesquisa, 80% das ameaças e 78% das lesões corporais são cometidas por companheiro ou ex-companheiro da vítima.
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O levantamento ressaltou, no entanto, que esses números não significam que o futebol seja a causa da violência contra as mulheres, mesmo no contexto dos dias de jogo.
— O futebol pode funcionar como um catalisador: ele torna mais vivos certos valores de masculinidade relacionados ao uso da violência e à forma como alguns homens se veem dentro dessa estrutura de poder de gênero, se veem tendo mais poder que a mulher e fazendo o uso desse poder para serem violentos — explicou Isabella durante a Comissão.
Matosinhos também destaca que, para combater a violência de gênero, é preciso levar em consideração fatores de raça e classe já que quase 70% das vítimas de crimes violentos em 2023 — ano anterior à pesquisa — eram mulheres negras e, em sua maioria, pobres.
Atletas também sofreram violência em campo
As agressões também chegaram aos gramados. Uma reportagem do site “ge” ouviu 209 atletas mulheres nos clubes brasileiros e revelou diferentes casos de abusos e assédios contra jogadoras, além da grande impunidade diante das denúncias.
Segundo o levantamento, 52,1% das jogadoras que participaram, declararam terem sofrido algum tipo de assédio no futebol, seja de forma sexual ou moral. No relato de Caroline* (*corresponde ao nome fictício para preservar a identidade), a jogadora de 22 anos relatou que estava treinando quando o técnico do time em que jogava tentou beijar ela e outras meninas à força.
Já Olga*, de 28 anos, revelou que atuou em um time no qual o presidente era acusado de abuso e a comissão agredia verbalmente as atletas. E os relatos não se limitam aos integrantes dos clubes. Anne* teve um empresário que pedia fotos íntimas em troca de melhores negociações.
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Vale lembrar que, em 2023, atletas do Santos enviaram à diretoria cartas que acusavam o técnico Kleiton Lima de assédio moral e sexual. Kleiton, que entregou o cargo horas antes das denúncias virem à público, negou as acusações e chegou a solicitar a abertura do inquérito contra uma jogadora, alegando ser vítima de calúnia.
O ex-técnico das Sereias da Vila também entrou com um processo na Justiça de São Paulo alegando o mesmo motivo. A ação foi arquivada pelo órgão de justiça.
Existem ações para combater a violência de gênero no futebol?
A movimentação e olhar para a violência de gênero no futebol passou a entrar no debate com maior intenção em 2024. No ano passado, o Me Too Brasil e a Plan International Brasil lançaram a campanha Cartão Vermelho, voltada para a violência contra mulheres no ambiente do futebol.
A ação tem como foco engajar meninos e homens em discussões sobre respeito e consentimento. As instituições também informaram que o objetivo é pressionar as autoridades do esporte, clubes de futebol e patrocinadores a adotarem medidas efetivas contra o assédio sexual nos estádios, clubes de futebol e em todo o ambiente esportivo.
— Existe uma necessidade urgente de conversarmos diretamente com o público masculino sobre esse tema em um país que, apesar de 18 anos da Lei Maria da Penha, segue sendo o quinto no mundo em feminicídio — descreveu Marina Ganzarolli, presidente do Me Too Brasil, no plano de apresentação da campanha.
Ainda em 2024, o Ministério das Mulheres e a CBF anunciaram uma Carta-Compromisso pelo Feminicídio Zero, formalizando a adesão da entidade à mobilização nacional, com o Acordo de Cooperação Técnica para a implementação do Protocolo Não é Não em arenas esportivas.
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Para a campanha do Feminicídio Zero, a pasta federal informou que a ação teve destaque em mais de dez jogos das séries A, B e C do Campeonato Brasileiro, com ações como faixa no campo levada pelos jogadores, exibição de vídeo no telão e uniforme com selo do Ligue 180 (número de emergência para denúnciar violência dométisca).
Ainda na audiência pública da Comissão Permanente Mista de Combate à Violência contra a Mulher, a coordenadora-geral de Cultura do Ministério das Mulheres, Lucimara Rosana Cardozo, ressaltou — para além das campanhas — a importância de se criarem espaços de acolhimento para as vítimas de agressão nos estádios.
— A gente precisa falar para as mulheres que estão nos estádios que elas têm a segurança de que, nesses espaços, exista uma delegacia ou uma sala de atendimento e acolhimento. Infelizmente, nem todos os clubes, nem todos os estádios, têm esse espaço — explica.
Em 2025, o Regulamento Geral de Competições (RGC), documento da CBF que determina as regras dos campeonatos realizados no Brasil, trouxe atualizações em comparação ao ano anterior, com a criação de um protocolo para combate ao assédio a mulheres em estádios.
O documento informa que os organizadores do evento esportivo, ou seja, clubes e federações, devem implantar um mecanismo para acolher vítimas e ouvir suas denúncias.
Já no artigo 137, a Confederação cita que é responsabilidade dos organizadores que as mulheres sejam protegidas de assédio nos estádios e sua voz seja ouvida.
— A responsabilidade pela segurança do torcedor em evento esportivo é da entidade de prática desportiva detentora do mando de jogo e de seus dirigentes, que deverão colocar à disposição da vítima orientadores, serviço de atendimento e informativos de incentivo à denúncia para que aquele que tiver passado por situações de assédio ou importunação sexual encaminhe suas reclamações no momento da partida — afirma o documento.
Em nota, a CBF informou que atualmente mantém parcerias e convênios com órgãos com os quais a entidade já desenvolveu campanhas de combate à violência contra a mulher.
Além disso, a entidade afirmou que “entende o combate à violência de gênero como um compromisso permanente, alinhado às diretrizes nacionais e às parcerias institucionais”.
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No comunicado, a CBF afirmou que acredita que o “enfrentamento passa pelo diálogo contínuo, pela educação e pela construção de uma cultura de respeito, incluindo iniciativas de comunicação, campanhas educativas e estímulo à adoção de boas práticas, ações que são reforçadas internamente através de discussões e orientações junto aos colaboradores e parceiros”.
Por fim, a Confederação declarou que segue reforçando seu compromisso de ampliar parcerias e contribuir para ambientes cada vez mais seguros, inclusivos e acolhedores.
— Entendendo que o enfrentamento à violência de gênero é um desafio coletivo, que passa também pelos clubes, federações e órgãos públicos, especialmente diante da perspectiva de o Brasil sediar grandes eventos do futebol feminino, como a Copa do Mundo e a FIFA Series — declarou a CBF, em nota.
Em 2023, a nova Lei Geral do Esporte foi sancionada e passou a mencionar o termo “abuso sexual”. O documento inclui o “contrato de formação esportiva” para atletas, que trata das obrigações dos espaços de formação.
Entre elas estão os trechos que mencionam que a organização “ofereça programa contínuo de orientação e suporte contra o abuso e à exploração sexual” e “institua ouvidoria para receber denúncia de maus-tratos a crianças e adolescentes e de exploração sexual deles”.
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Já em 2025, a Bancada Feminina do Conselho Deliberativo do Flamengo, com apoio da Secretaria de Estado da Mulher, do Ministério Público estadual e da Livre de Assédio reuniu torcidas organizadas para debater violência contra as mulheres.
— Hoje mostramos que a arquibancada também pode ser espaço de transformação social. Ver torcedores e torcedoras unidos pelo respeito às mulheres reforça que estamos abrindo caminho para um Flamengo mais inclusivo, onde a prevenção e o conhecimento fortalecem todas nós — afirmou Marion Kaplan, presidente da Bancada Feminina, em entrevista reproduzida pela “Agência Brasil”.
Já Ana Addobbati, fundadora da organização Livre de Assédio, destacou a importância de ações que levem pessoas a ouvir as denúncias e como o acolhimento pode ser fundamental no apoio às vítimas.
— Quando uma mulher compartilha sua história, é fundamental que a sociedade saiba acolher, proteger e direcionar. O simples ato de ouvir com respeito já transforma o pensamento de quem está ao redor e abre espaço para a informação circular, criando uma rede de apoio que salva vidas — ressaltou.