Acolhimento e resistência: A luta das mulheres pelo direito de torcer nas arquibancadas do Brasil
Torcidas lutam por acolhimento, segurança e respeito, em uma vivência de união nos estádios do Brasil
A trajetória das mulheres no futebol é longa e marcada por histórias de pioneirismo, luta e resistência. De Dulce Rosalina, primeira líder de torcida feminina, à criação das torcidas exclusivamente femininas, a caminhada passa por conquistas gradativas em busca de igualdade de gênero, de espaços menos violentos, mais acolhedores e que respeite o direito de acompanhar os clubes nos estádios de forma segura.
Para contar um pouco dessa história, a reportagem da Trivela foi atrás do histórico da participação das mulheres na construção das torcidas ao redor do Brasil, conversou com estudiosos, integrantes das torcidas e acompanhou o movimento hoje nas arquibancadas em partida do Campeonato Brasileiro.
A luta e a resistência das mulheres torcedoras do Brasil vai evidenciar as disputas simbólicas, materiais, por reconhecimento, pertencimento, visibilidade em um espaço que foi historicamente masculinizado. Um espaço que foi regulado para as mulheres como papéis secundários, explica a professora e pesquisadora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Soraya Barreto.

Torcida é palavra feminina
No país do futebol, o vocabulário passou por modificações durante a chegada do esporte ao Brasil, que se alinharam à língua local, inspiradas também na forma de consumo do esporte por parte dos brasileiros, que já faziam da modalidade uma atração.
Entre os termos utilizados no esporte, o mais famoso deles é a palavra “torcedor”. A denominação está ligada à presença das mulheres nas partidas de futebol e a reação aos jogos.
— No âmbito mundial geralmente a chama de fãs, adeptos. Aqui no Brasil, quando as mulheres vão para esses espaços e começam como espectadoras apenas, que começam a torcer os lenços, torcer as luvas, em sinal de alegria se entende o ato de torcer, que posteriormente virou a nomenclatura torcida –, explica Soraya Barreto.
Com o passar dos anos, a conquista dos direitos das mulheres, o desenvolvimento social e a popularização do futebol no Brasil, a presença das mulheres nos campos e estádios cresceu, mudando também o comportamento social.
Se antes havia uma imposição para que as torcedoras fossem aos estádios acompanhadas apenas por uma figura masculina, a configuração mudou em um movimento ainda recente, liderado pelas torcedoras, como conta Soraya Barreto.
— A mudança começa a ser mais significativa nos anos 1990, com as torcedoras mais proeminentes. Mas é muito recente. Em meados de 2010, a gente começa a ver novas perspectivas porque as pautas do movimento feminista dão conta de, por exemplo, o “lugar de mulher é onde ela quiser”, inclusive nos estádios. É onde a gente vai ver a criança torcedora, os mascotes femininos –, destaca a professora.

E é nesse momento que a presença das mulheres nos espaços esportivos se estabelece. Em uma ação poderosa, que não está mais sujeito a regredir diante das tentativas de afastamento social.
— Eu sempre vi mulheres nos estádios e de várias idades, mas é óbvio e que esse quantitativo aumentou muito dos anos 2000 para cá, com uma mudança no comportamento também. Antes a gente via algumas acompanhando e hoje a gente já vê muitas se apropriando do estádio. Indo com amigas, com a família, mas não apenas sendo levadas, mas sim as que levam. A gente começa a ver uma modificação nos papéis que elas exercem enquanto torcedoras — afirma a pesquisadora.
O aumento da representação das mulheres reflete em ações dos clubes, onde parte deles criam iniciativas voltadas para o acolhimento além das arquibancadas. De acordo com o levantamento divulgado pelo jornal “O Globo”, em parceria com o instituto Ipsos-Ipec, o Flamengo possui o maior número de torcedoras no Brasil, com números quase iguais entre os gêneros.
Segundo a pesquisa, o percentual de torcedores homens do clube é de 22,8%, enquanto o das mulheres é de 19,7%. Proporcionalmente, é o clube com maior participação feminina dentro do top 5, sendo 48% do seu total de torcedores.
As 10 maiores torcidas entre as mulheres
- Flamengo (19,7%)
- Corinthians (10%)
- São Paulo (5,6%)
- Palmeiras (5%)
- Grêmio (2,6%)
- Vasco (2,1%)
- Cruzeiro (2%)
- Internacional (1,6%)
- Sport (1,6%)
- Bahia (1,5%)

O reflexo da torcida formada por mulheres acontece também nas ações do clube, que atua na busca do planejamento estratégico voltado para o seu público, pensando não apenas na paixão em comum pelo time, mas na forma de consumir o “produto futebol”.
— Estamos mapeando o perfil dos nossos fãs para diferenciar os nichos. Já chegamos a algumas conclusões iniciais. Vamos divulgá-las quando o trabalho estiver pronto. Sabemos que o público feminino é muito grande. Há algumas semelhanças entre homens e mulheres na forma como consomem o futebol, mas há diferenças importantes na maneira de se relacionar com o clube. Temos que fazer esse trabalho estratégico — explica o vice-presidente de marketing do clube, Ricardo Hinrichsen, em entrevista ao jornal “O Globo”.
Outro exemplo de ações voltadas para as torcedoras mulheres acontece no São Paulo. O Tricolor Paulista é o terceiro clube com maior número de torcedoras mulheres e tem a menor diferença percentual entre gêneros dentro do top 5: 7,2% dos homens são são-paulinos, enquanto 5,6% das mulheres são são-paulinas.
Pensando nisso, o clube desenvolveu parcerias voltadas para as torcedoras. Entre elas, a ação com aplicativos de transporte exclusivos para mulheres, que ofereceram descontos nos trajetos de ida e volta ao MorumBIS.
Entre as ativações propostas pelo clube, o São Paulo criou um canal de denúncia e abriu o estádio como espaço de acolhimentos para vítimas de violência, além da campanha para realização de exames de mamografia gratuitos.

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Flu Mulher precisou superar preconceito e desconfiança
E a crescente de torcidas formadas por mulheres vai além das pesquisas e enquetes. Nascida com o objetivo de reunir mulheres e crianças nas arquibancadas e reduzir a violência — principalmente de gênero — durante os jogos do Fluminense, a Flu Mulher foi criada em 2006 pela torcedora Kaká Soares.
Antes da criação da torcida, a atual presidente frequentava o estádio com o pai, mas se perguntava como poderia reunir as mulheres presentes nos jogos de forma segura e acolhedora, sem deixar de frequentar o campo.
— Começamos por uma comunidade em uma rede social que nem existe mais. No primeiro encontro, conseguimos reunir 20 mulheres e fizemos uma aliança bem bonita. A gente já fez muita caravana para acompanhar os jogos, hoje em dia é mais complicado, tanto pelo lado financeiro, quanto por questões de compromissos pessoais e profissionais. Eu tive uma conexão com elas que segue até hoje, a própria filha da Aline [de Lemos, vice-presidente] cresceu com a gente e já completou 10 anos –, relembrou.
Ao longo dos anos, o grupo precisou resistir aos preconceitos e assédios para conseguir declarar a paixão pelo clube e se manter presente acompanhando o Tricolor das Laranjeiras pelo país.

— Era uma questão de virem perguntar se a gente queria aparecer, se a nossa ida ao estádio era porque a gente gostava de futebol ou será que era só uma empolgação. Com o passar do tempo eles foram vendo que não era só uma empolgação e aí foi quando passaram a nos respeitar mais. Mas, fora da nossa torcida, nós ainda vemos muitos torcedores falando besteira, mandando ir pra casa, lavar louça. A gente escuta essas coisas e infelizmente está na cultura machista do nosso país –, relata Kaká.
Há quase uma década existindo e resistindo, a Flu Mulher vivenciou mudanças no clube e entre os tricolores. Mesmo com avanços no cenário, o grupo segue lutando para construir um espaço mais seguro para as novas gerações.
— Nesses 19 anos de história, a gente reconhece que o cenário melhorou bastante em comparação ao início, mas ainda tem muito preconceito. Às vezes menos declarado, outras vezes mais. No começo, até mesmo dentro da nossa torcida eu sentia um olhar diferente. A gente faz muita campanha, mas recebemos muitos e-mails de meninas que sofrem preconceito por parte da família para ir aos jogos, meninas que sofrem assédio e a gente tenta orientar da melhor maneira, tentamos acolher mesmo que não seja pessoalmente — explica.
Considerada, segundo o Fluminense, a primeira torcida exclusivamente de mulheres do Brasil, a Flu Mulher reúne, hoje, cerca de 30 mil seguidores nas redes sociais, além de aproximadamente 3 mil torcedoras associadas à organização.
— Eu sempre tive o conceito de onde tem mais mulheres e mais crianças, eu acho que diminui a violência. O legado que a gente pode deixar é poder mostrar para a sociedade que a mulher pode estar em qualquer lugar. O bordão de ‘lugar de mulher é onde ela quiser’ parece clichê, mas não é não–, declara Kaká.
— Através da Flu Mulher, a gente pode mostrar ainda hoje que a mulher gosta de futebol, sabe torcer e que ela não vai para o estádio para sexualizar jogador, como muitos homens pensam. A gente vai porque a gente ama a instituição, porque a gente entende e gosta de futebol. O Brasil não é só o país do futebol, o Brasil é o país das mulheres que amam o futebol — conclui.

Elas e o Sport e Movimento Coralinas se destacam em Pernambuco
Com o maior número de torcedoras no Nordeste, de acordo com o levantamento de “O Globo” em parceria com o instituto Ipsos-Ipec, o Sport tem na sua linha de frente o movimento Elas e o Sport, que busca assegurar que os direitos das mulheres sejam respeitados tanto nas arquibancadas, quanto por parte da gestão do clube.
A reportagem da Trivela acompanhou o grupo durante a partida entre Sport x Santos na Ilha do Retiro, válida pela 17ª rodada do Campeonato Brasileiro. Desde os momentos que antecederam o jogo, o clima amistoso de união, divertimento e acolhimento estiveram presentes entre as mulheres que compõem a Torcida.
— O movimento foi criado por cinco amigas que participavam de outros grupos do Sport, mas tinha muito machismo, as mulheres não tinham voz. E aí foi criado o Elas e o Sport desde fevereiro de 2016. Estamos há quase 10 anos na luta que é persistente, realmente de resistência, mas permanecemos firmes, não só por nós, mas por tantas outras que vem [para o estádio] e estão no meio e que queiram participar –, explicou a diretora Carol Souza.
Na luta pelos direitos das mulheres nos espaços esportivos inclusivos, o movimento foi alvo de ameaças e tentativa de silenciamento ainda durante os primeiros passos.
— [A construção da torcida] foi um pouco difícil porque mesmo que a gente lute, os direitos não são tratados de forma igual. Passamos por lutas e ameaças, mas ainda assim nós estamos aqui e continuaremos resistindo porque a luta não pode parar nunca–, relembra Carol.
Na partida entre Sport e Santos, antes mesmo de a bola rolar, a Trivela presenciou um desentendimento entre as torcidas. A Elas solicitou aos líderes de uma organizada rubro-negra para que a bandeira fosse colocada um pouco mais abaixo da grade que separa o campo das arquibancadas, na intenção de não impedir parcialmente a visão da torcida que ocupava o setor frontal da Ilha do Retiro.
Houve recusa por parte de um dos membros, afirmando que não moveria a bandeira. Entretanto, foi necessário que outros torcedores homens também se unissem ao pedido de que a bandeira fosse ajustada para que, então, o grupo fizesse o ajuste.

O projeto, inclusive, é fundamental no combate à violência contra a mulher, formando uma rede de apoio que auxilia também em casos de dificuldades financeiras.
— Temos relatos de mulheres que sofriam um relacionamento abusivo durante anos, violência doméstica e, graças ao Elas e o Sport, conseguiram sair desses relacionamentos. Se algumas meninas passam por uma situação financeira delicada, fazemos uma vaquinha para ajudar. Se não têm dinheiro para comprar ingresso, nós damos um jeito de doar –, comenta.
Há também a iniciativa do fortalecimento da presença das mulheres em jogos fora da Ilha do Retiro, seja através da organização de caravanas para outros estádios, mas também da companhia em dias de clássicos.
— Em dia de clássico fora, a gente tenta fazer com que as meninas percam o medo de ir para os estádios como visitante. Fizemos, em 2025, a segunda caravana do Elas e o Sport, para a partida contra o Central, lá em Caruaru. Também conseguimos levar muitas meninas para o Arruda, já que muitas nunca haviam recebido esse incentivo de pertencer –, reforça a diretora.
O companheirismo segue durante todos os momentos, desde o primeiro encontro, ainda na sede do clube pernambucano. Seja na divisão das funções, quando parte das torcedoras vai às arquibancadas com antecedência para estender a faixa na beira do gramado, ou até mesmo no apoio às mães, cuidando das crianças.
Em meio às fortes chuvas, há também a solidariedade na divisão das capas ou itens para se proteger. E quando se fala em pedir respeito, a luta por um espaço com boas condições de jogo para todos também está presente.
Isso porque, em alguns casos, bandeiras de outras organizações impedem a visão dos torcedores nas arquibancadas. Nesse momento, a Elas e o Sport foi porta-voz do incômodo dos rubro-negros. Após as tentativas de diálogos com outros membros, o pedido foi atendido, e as faixas foram ajustadas.
Em quase uma década desde a criação, o movimento ‘Elas e o Sport’ reformulou o clube, lutando pelo direito de serem ouvidas, respeitadas e atendidas. Conquistas que buscam repassar para as novas gerações de rubro-negras.
— Hoje em dia temos mais voz, mais espaço, conseguimos sentar para conversar [com o clube], sem precisar buscar outros meios. Conseguimos colocar a nossa faixa [no estádio] para representar uma torcida formada por mulheres. O que eu digo para as meninas que tem vontade de vir é que, se precisarem de companhia nos jogos, entrem em contato com a gente por meio das nossas redes sociais –, reforça a dirigente.

No Santa Cruz, terceiro clube com maior número de torcedoras do Nordeste — ficando atrás apenas de Sport e Bahia –, o Movimento Coralinas também se faz presente para declarar o amor pelo futebol e garantir o direito de torcer em segurança. O simbolismo vem desde a fundação do coletivo, em 2016, quando iniciaram a trajetória no Pátio de Santa Cruz, local onde o clube também teve origem.
A ideia surgiu através de amigas que sentiram a necessidade de fortalecer a presença de mulheres nas arquibancadas, criando um espaço seguro e de acolhimento, em um ambiente historicamente direcionado para os homens.
O papel das Coralinas no Santa Cruz também envolve a cobrança por melhorias estruturais por parte do Tricolor para atender as necessidades das torcedoras. Em campanha recente, o movimento expôs as condições precárias em que se encontram os banheiros das mulheres e pediu a reforma do local ao clube.

Mas o Coralinas trouxe também a visão sobre o direito à maternidade nos espaços de lazer. Neste caso, nos ambientes esportivos, onde pouco se fala em maternidade.
A falta de ambientes de apoio à maternidade nos estádios também chamou a atenção do coletivo, que viu a necessidade de locais voltados para as mães e para as crianças em dias de jogos.
— Surgiu a necessidade de olhar com mais atenção para as mulheres que são mães, inclusive entre nós. O movimento cresceu como família. O acolhimento se tornou mais sensível, e nosso olhar, mais maduro. É verdade que, com novas responsabilidades, surgem também desafios para mobilizar certas ações, mas buscamos sempre adaptar nossas iniciativas para incluir e acolher todas–, explica a torcedora membro do coletivo.

— Um exemplo disso são as brinquedotecas e creches que montamos durante algumas atividades, pensando nas mães que levam suas crianças. A luta é coletiva, e seguimos construindo um espaço onde ninguém precise escolher entre ser mãe e ser torcida.
Mas quando falamos de segurança, também se faz necessário pensar nos espaços virtuais. Através das redes sociais, o movimento compartilhou episódios de misoginia — crime caracterizado pelo discurso de ódio contra mulheres — que o grupo vem sofrendo na internet, por meio de comentários deixados em uma postagem do grupo.


— Lutamos contra o machismo, o assédio e a exclusão porque sabemos que o futebol ainda é um ambiente majoritariamente masculino e hostil para muitas de nós. Em uma foto nossa no estádio, um homem comentou que ‘nosso lugar é lavando roupa’. Se ele tem a coragem de escrever isso de forma pública, sem nenhum pudor, imagine o que ele e outros [homens] não fazem ou dizem dentro do estádio, onde muitas vezes não há testemunhas e nem câmeras –, publicou o Coralinas, em comunicado.
— Esse comentário é a prova viva de que a nossa luta é necessária. É por isso que seguimos juntas, unidas, firmes, para que cada vez mais mulheres possam ocupar as arquibancadas com segurança, respeito e liberdade. Não é exagero, é realidade. Não vamos nos calar — finalizou o grupo.
O processo de transformação durante a jornada do Coralinas, criado há quase 10 anos, deixa suas marcas no Santa Cruz, trazendo consigo a inclusão, o cuidado e olhar para todas as mulheres que continuam escrevendo a história do Santa Cruz.
Dulce Rosalina, referência e pioneira
Mas se hoje existem torcidas de mulheres espalhadas pelos clubes do Brasil, é porque a história começou a ser escrita por Dulce Rosalina. A vascaína passou a ser símbolo do futebol brasileiro, ao tornar-se a primeira mulher a ser líder de uma torcida organizada no país, aos 22 anos.
Em 1956, Dulce assumiu a presidência da “Torcida Organizada do Vasco” (TOV), onde implementou as baterias nos estádios e o uso do papel picado nos jogos pelos país.
Durante o período, Rosalina foi centro de um dos episódios mais emblemáticos na sua trajetória de paixão pelo futebol, quando foi abordada por policiais na entrada do Maracanã enquanto portava papéis picados. Ao ser impedida de entrar no estádio, se referiu a um deles como “flamenguista”.
A notícia chegou aos vestiários resultando em um protesto dos jogadores do gigante da colina, que declararam só entrar em campo se a torcedora fosse solta. Com a iniciativa, Dulce foi liberada e o Vasco entrou em campo.
A ligação com a equipe cruzmaltina ficou ainda mais fortalecida quando a vascaína decidiu fundar a sua própria torcida. Dulce deixou a TOV por causa de divergências políticas e fundou a “Renovascão”.
De presença marcante, Rosalina viajou pelo Brasil acompanhando o time do coração. Em 1968, durante uma caravana com mais de 30 ônibus para São Paulo, o veículo que transportava a torcedora sofreu um grave acidente. Dulce teve fraturas na clavícula e um afundamento no crânio, que a impediram de frequentar os estádios durante aproximadamente dois anos.
Anos depois, a torcedora precisou se ausentar dos jogos noturnos devido aos problemas de visão. E, em 2004, a torcedora pioneira no movimento pela presença das mulheres nas torcidas faleceu. O seu nome segue na história do clube e do Rio do Janeiro, e passou a ser usado oficialmente em uma rua próxima ao Estádio de São Januário.
Dulce Rosalina deixou seguidoras, que hoje perpetuam o seu legado na história do Vasco. Com o nome “Rosalinas”, um grupo de torcedoras criou um projeto no Youtube em homenagem à figura lendária do clube.
Com o objetivo de criar um ambiente seguro e inclusivo, o canal produz conteúdo é feito por mulheres e voltado para o gênero, onde aborda assuntos sobre o futebol do clube, além de produzir conteúdos orgânicos sobre torcedores e histórias curiosas.
O presente, o futuro e as políticas públicas
Como tudo que move a sociedade para o desenvolvimento, o esporte também necessita de políticas públicas em apoio à sua evolução. No futebol, onde os comportamentos da população costumam ser refletidos, o poder público também deve oferecer um olhar atento no combate à violência e à discriminação, apoiando lugares seguros, inclusivos e respeitosos, dentro e fora de campo, acolhendo às necessidades apresentadas pelo público.
— Primeiramente é fazer o que a gente já está fazendo: ocupar e resistir. Ocupar esses espaços e resistir às violências que a gente ainda sofre, mas não é mais resistir calada como era antigamente, é resistir denunciando, colocando em prática as ferramentas que são possíveis –, comenta Soraya Barreto.
— A gente precisa avançar especialmente na relação das políticas públicas. Cobrar efetivamente do Estado leis e práticas que dinamizem essa presença maior das mulheres nos estádios. Ao mesmo tempo, também precisamos ocupar mais cargos de gestão e de decisão no âmbito do futebol. Seja nos estádios, nos clubes, nas federações esportivas–, afirma a comunicadora.
Mudanças também passam pela representação, que devem ser fomentadas pela inclusão, seja em cargos de liderança nos clubes de futebol ou nas federações estaduais.
— Isso nunca nos foi dado, sempre foi uma conquista. Temos avanços importantes como mulheres na presidência dos clubes, mulheres participando das decisões sobre o futebol de mulheres, já que há pouco tempo era basicamente decidido por homens. O caminho passa pela ocupação, porque quando a gente começa a se ver nesses espaços, começamos a ter coragem, a participar, a estar presente nos estádios, campos, várzea e escritórios também –, reforça Soraya.

Em 2025, o Ministério do Esporte e a ONU Mulheres firmaram uma parceria para combater discriminação e violência no ambiente esportivo. De acordo com o comunicado da pasta, a união será voltada para o desenvolvimento de ações conjuntas que propiciem a igualdade de oportunidades e a eliminação da discriminação e violência contra mulheres e meninas no ambiente esportivo.
Já a CBF anunciou no Regulamento Geral de Competições (RGC) deste ano a criação de um protocolo para combate ao assédio às mulheres nos estádios. Ainda segundo o documento, os organizadores do evento esportivo, ou seja, clubes e federações, devem implementar ações e mecanismos para acolher vítimas e ouvir as suas respectivas denúncias.
O reflexo de punições aos atos de violência de torcidas ao redor do Brasil mostrou ao país exemplos da grandiosidade do movimento das mulheres nas arquibancadas e na demonstração de amor ao futebol, representando o inverso do significado de uma punição.
Entre os clubes estavam Sport, Ceará, Coritiba e Athletico-PR passaram por sanções na esfera desportiva, com partidas voltadas exclusivamente para a presença de mulheres e crianças. Nos clubes nordestinos, foram liberadas pessoas com deficiência. Na ocasião, a Ilha do Retiro reuniu mais de 50 mil destes torcedores em três jogos.



