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A idolatria da torcida do Flamengo por Olivinha não é por acaso e será eterna enquanto dure

Ídolo do basquete rubro-negro abriu o coração em conversa longa com a reportagem da Trivela, que tentou extrair e explicar a emoção diante da aposentadoria

Carlos Alexandre Rodrigues do Nascimento, ou simplesmente Olivinha. Um dos maiores ídolos da história do Flamengo como clube, símbolo de uma geração campeã de tudo no basquete, se aposentou recentemente das quadras. As memórias continuam frescas, e o horizonte parece lindo para o agora ex-atleta.

O carinho da torcida, contudo, surpreendeu até mesmo esse ícone do esporte olímpico rubro-negro. Uma história bonita, de começo inusitado e final que não poderia ser agridoce, nem com a derrota na final do NBB, há um mês.

Um ídolo para sempre

A história, no entanto, não começou no Flamengo. Olivinha seguiu os passos do pai ao se tornar torcedor do Fluminense, mas o carinho da torcida e tudo que construiu fez com que a escolha de virar a casaca se tornasse bem mais fácil. O arco do Deus da Raça viu o Rubro-Negro em múltiplas eras tomou o coração do ala-pivô, que se deixou levar.

— Pra mim foi super tranquilo. Eu passei praticamente metade da minha vida dentro dos muros da Gávea, são 19 de 41 anos. Eu roí o osso dentro do Flamengo e vi o clube mudar de patamar. Participei de todas as fases, dos meses que tinham 120 dias aos dias atuais, que cai tudo em dia, direitinho. Ver essas mudanças foi muito gratificante, nem pensei no Fluminense nessa hora.

— Ainda teve um episódio que ele me disse ‘quero ver quando você terminar a sua carreira se você vai continuar sendo Flamengo’. Eu falei ‘Virei Flamengo, não tem como, não tem mais volta’. A minha história, o carinho que a torcida tem comigo, é uma coisa absurda.

Apesar disso, o Fla-Flu continua acirrado dentro da residência de Olivinha. O irmão e o pai, que sempre acompanharam a carreira do ala pivô de perto, seguem apaixonados pelo Fluminense e não dão trégua nos clássicos, nem mesmo no basquete.

— Acompanho o Flamengo em todas as modalidades se possível, sempre que eu tenho tempo eu vou ao Maracanã, gosto muito de futebol e cara, minha família logicamente não trocou de time, minha família toda é tricolor, incluindo meu irmão, ele é tricolor e sempre que rola um Fla-Flu e o Flamengo ganha, meu irmão, eu encho o saco (risos). Meu pai já tem 81 anos e nunca colocou uma camisa do Flamengo com meu nome, nunca, ele é apaixonado pelo Fluminense — disse, em entrevista exclusiva à Trivela.

Olivinha
Olivinha posa ao lado da família, em 2013 (Foto: Reprodução)

O tamanho da idolatria dos rubro-negros continua, supera qualquer barreira criada por uma paixão jovem com o arquirrival. Olivinha diz que só vai ter noção desse carinho depois de um tempo. A hora é de refletir sobre uma vitoriosa carreira de 26 títulos, incluindo dois mundiais.

— Acho que ainda vai demorar um pouquinho para cair essa ficha. Continua tudo muito fresco na minha memória, tem menos de um mês que encerrei a minha carreira. Muita gente me comparando com o Zico, não vou me acostumar com essa comparação. Tenho certeza que a minha carreira ali com o número de títulos que tive realmente foi uma coisa que eu não poderia imaginar nem nos melhores sonhos, mas aconteceu — brincou.

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Esportes olímpicos em alta no Flamengo

No hall dos grandes ídolos da história do Flamengo, Olivinha é um caso raro de status em meio à prateleira dominada por atletas de futebol. Essa representatividade para o esporte olímpico aumenta ainda mais a gratidão do ex-jogador pelo clube.

Olivinha viveu as mais diferentes fases do Flamengo, ou seja, conseguir que o basquete atinja um patamar tão elevado no clube é muito importante.

— Para mim é um orgulho muito grande ter todo esse reconhecimento. Eu não tenho dúvida que o Flamengo vai continuar com um investimento alto, do jeito que o clube vem fazendo nas últimas temporadas e na última década, na qual conseguimos conquistar praticamente tudo. O Flamengo é um dos clubes que mais investe no basquete. A gente sabe que, logicamente, o futebol é o carro-chefe e nenhum outro esporte vai chegar nem perto disso, mas a gente também vive do esporte olímpico e a gente torce para crescer cada vez mais — frisou.

Além do basquete, o Flamengo também investe e tem equipes fortes na natação, canoagem e judô, por exemplo, todos com medalhistas olímpicos no quadro. O clube rubro-negro pode render medalhas ao esporte brasileiro em Paris. Falta pouco.

Olivinha, do Flamengo
Olivinha e a torcida do Flamengo, um caso longo de amor (Foto: Divulgação/CRF)

Perda do título não deixou gosto amargo

O último capítulo de Olivinha pelo Flamengo, contudo, não foi dos mais especiais. A equipe comandada por Gustavo de Conti chegou em mais uma decisão do NBB, com campanha de líder na temporada regular, mas acabou ficando com o vice. Segundo o ala-pivô, Franca, campeã desta edição, soube aproveitar bem o nervosismo dos rubro-negros.

— Cara, eu acho que a nossa equipe sentiu bastante a pressão de decidir o Campeonato. Nossa equipe jogou com uma ansiedade muito grande, eu nunca tinha visto aquilo. Foram dois jogos (1 e 4) que nós fizemos muito ruins, dentro da nossa casa ainda. Eu estava bastante confiante, sendo bem sincero. Eu achava que a gente tinha total chance de ser campeão, mas as coisas não aconteceram para gente, né? Acho que a equipe de Franca colocou uma estratégia que deu certo para eles — analisou.

Olivinha na final do NBB contra Franca
Olivinha foi um dos destaques do Flamengo na derrota para Franca, pela final do NBB (Foto: Divulgação/CRF)

Ainda que todos buscassem esse título para dar alegria ao ídolo, ele já se sentiu satisfeito com o que aconteceu fora das quadras. A grande emoção não foi de tristeza pela derrota, mas sim de alegria diante de todo o carinho da torcida. O episódio comoveu Olivinha.

— Foi maravilhoso. Eles ficaram lá até o final do jogo, me mandaram muita energia positiva, me desejaram muitas coisas boas. Após o jogo lá, fiquei mais de uma hora tirando foto com todos os torcedores. Não esperava realmente perder aquele jogo, mas o torcedor reconheceu a minha importância, me deu muito carinho e isso realmente fez com que eu visse essa derrota com outros olhos. Saí dali com uma frustração muito grande, mas o torcedor me deu um conforto e um carinho que me deixou um pouquinho mais tranquilo naquele momento.

Próximos passos

Ao todo, Olivinha teve quase 30 anos de carreira no basquete, sendo 23 deles como jogador profissional. É muito tempo, algo que começa a ser a sua vida, mas, aos poucos, vai perdendo prioridade para a família, por exemplo. Segundo o agora ex-atleta, essa foi a grande razão para que ele parasse de frequentar as quadras do esporte brasileiro.

— Eu tenho uma filha pequena em casa de 5 anos, quando eu saía de casa, eu saía com o coração partido. Quando ela me via saindo de casa, dizia ‘papai fica aqui comigo, papai põe isso aqui’. Aí eu já saio quase chorando de casa. Minha filha tem dois bonequinhos de crochê que sou eu, com o uniforme do Flamengo. Eu ligava, fazia ligação de vídeo na hora que ela ia dormir e ela falava assim ‘papai você tá aqui comigo’. Eu quase chorava no quarto do hotel. Pesou muito para mim — explicou, em relato emocionante.

O Deus da Raça do basquete rubro-negro também lutou bravamente contra lesões em sua última temporada. De acordo com Olivinha, as dores o incomodavam diariamente, e a rotina de treinos estava cada vez mais pesada.

— Meu corpo também não aguentava mais. Meus joelhos nesse último ano não aguentavam mais. Joguei no sacrifício, com dor todos os dias, passei a temporada na fisioterapia e não tive nenhum treinamento específico. Fazia o mesmo que todo mundo — finalizou.

Os próximos passos do ex-jogador unem o útil ao agradável. Flamengo e basquete, duas paixões, estarão atreladas no novo desafio de Olivinha: o programa Lance Livre, da FlaTV. O ídolo já aceitou o convite do clube que o conquistou por inteiro para ser o apresentador do novo quadro.

De quebra, Olivinha ainda poderá ajudar o esporte olímpico do Flamengo a crescer ainda mais. O ídolo está em casa, de onde nunca deve perder raízes. Para finalizar essa entrevista longa e especial, a Trivela fez perguntas de bate-pronto com o craque do basquete rubro-negro.

Perguntas rápidas

Melhor que já jogou junto
— Marcelinho Machado e Marquinhos. A gente conseguiu fazer uma história muito bonita lá no Flamengo, conquistando praticamente todos os títulos juntos. Eles me ajudaram bastante ali, principalmente porque uma das características mais fortes que eu tinha era o rebote. E são dois craques de bola, fizeram uma história na Seleção Brasileira, jogaram a Olimpíada, coisa que eu não consegui, que eu gostaria de ter jogado pelo menos uma, mas eles me representaram lá da melhor maneira possível.

O mais chato de marcar
— O Alex. Não era nem da minha posição, mas era muito difícil, muito chato de marcar, principalmente quando jogava contra o Flamengo. Jogador inteligente, qualidade absurda, tanto que está jogando até os 44 anos. Um cara diferenciado.

Momento mais marcante da carreira
— No início da minha carreira uma coisa que foi super importante para mim foi eu ter vencido um carioca jogando ao lado do meu irmão. Foi especial demais. Eu era reserva do meu irmão, entrei no lugar dele depois de uma lesão no tornozelo. Ajudei e fomos campeões. O título foi ainda mais especial porque minha família é inteira de Campos, e o jogo foi lá. Meu pai, minha mãe, todo mundo foi. E meu irmão sempre foi uma referência, um mentor para mim. Esse momento eu vou guardar para sempre no meu coração.

— Vou citar o Mundial de 2014 também. A invasão da torcida foi impressionante. Me colocaram nos ombros, logo eu que tenho mais de dois metros de altura (risos). Foi tudo muito marcante porque ninguém achava que a gente ia ganhar, foram jogos muito difíceis, mas nós conseguimos provar o nosso valor.

Foto de Guilherme Xavier

Guilherme XavierSetorista

Jornalista formado pela PUC-Rio. Da final da Libertadores a Série A2 do Carioca. Copa do Mundo e Olimpíada na bagagem. Passou por Coluna do Fla e Lance antes de chegar à Trivela, onde apura e escreve sobre o Flamengo desde 2023.

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