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Como a volta de Felipão ao Grêmio explica o Sebastianismo à brasileira

Se você dormiu nas aulas de história, o que às vezes é perfeitamente compreensível, não se preocupe que vamos explicar. Sebastianismo é a crença inexorável dos portugueses de que Dom Sebastião, rei de Portugal no século XVI e que morreu na batalha de Alcácer-Quibir, no Marrocos, um dia retornaria para restaurar os dias de glória do país da Península Ibérica. Mencionamos isso porque é exatamente o que está acontecendo no futebol brasileiro este ano.

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Nesta terça-feira, o Grêmio anunciou o retorno do filho pródigo – já que estamos brincando com metáforas – e passará a ser treinado por Luiz Felipe Scolari. O técnico que sofreu a pior derrota da história da seleção brasileira ficou apenas três semanas sem emprego. Perder para o Coritiba foi o fim da linha para Enderson Moreira, na opinião do presidente gremista Fábio Koff, mas quem leva 7 a 1 da Alemanha na semifinal de uma Copa do Mundo merece outra chance.

Obviamente, o raciocínio não é tão simples. Koff não busca meramente a questão técnica e tática com Felipão. Quer o escudo e as costas largas que protegem os dirigentes e os incompetentes. Enderson ainda precisa de muita estrada para ganhar o direito à paciência, embora sua quilometragem esteja sempre comprometida se for mesmo impossível, como aparenta ser, completar um trabalho um pouco mais longo em clube grande sem a carteirinha de sócio do grupo de treinadores de primeira linha.

Se o ano começou com nomes jovens bem empregados, como Marquinhos Santos, Eduardo Húngaro e Dado Cavalcanti, também teve Abel Braga de volta ao Internacional e Mano Menezes ao Corinthians. Muricy Ramalho já havia retornado ao São Paulo e pouco a pouco o fenômeno foi se espalhando como uma epidemia. O Atlético Mineiro contratou Levir Culpi, o Flamengo chamou Luxemburgo e agora Felipão retorna ao Grêmio.

Esses casos compartilham dois pontos em comum: os clubes passavam por dificuldades e foram atrás de quem já havia triunfado neles. Buscaram salvadores, messias ou super-heróis, o que estivesse disponível. Preferiram a mística à renovação, o passado ao futuro, e apostaram alto. A expectativa da torcida é sempre maior quando um ídolo senta no banco de reservas e nenhum desses treinadores passava por um grande momento. Também aproveitaram a chance para retomar as suas próprias carreiras, como tenta fazer Felipão, que corre o risco de emendar o terceiro fracasso seguido. Isso na opinião dos mortais que avaliam futebol do lado de fora, já que, segundo ele, o problema foi uma pane de seis minutos.  Então por que não continuar a vida como se nada demais tivesse acontecido?

Não espanta que a CBF prefira dar outra chance a Dunga a apostar em um nome novo, diferente, mais criativo, se os próprios clubes dispensam possibilidades de renovação tão rapidamente. Flamengo, Internacional, Atlético Mineiro e Grêmio estão com os mesmos treinadores de 1995, há 19 anos – e Muricy Ramalho, naquela época, era auxiliar de Telê Santana. Na verdade, faz todo sentido, já que os dirigentes que escolhem treinadores também elegem o presidente da entidade. Todos eles parecem viver em um mundo à parte, descolados da realidade e alheios ao que acontece em outros países. Depois da Copa do Mundo, o ambiente era propício para mudanças, mas esse sentimento ficou restrito aos torcedores e à imprensa. Não chegou aos tomadores de decisão ou foi ignorado por eles.

A sensação é que as pancadas que o futebol brasileiro leva servem apenas para fazê-lo girar em círculos ainda mais rápido. Queríamos a renovação, ficamos com o Sebastianismo.

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Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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