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Entidades místicas do futebol brasileiro: o craque estrangeiro

O texto abaixo foi divulgado inicialmente na newsletter da Trivela, no dia 11/09. clique aqui.

Seu time anda mal das pernas. Aquela 14ª colocação não é condizente com o tamanho do clube, e a fase poderia ser muito melhor se a criação de jogadas fosse melhor (ou se ela ao menos existisse). Pressionados por contratações, os dirigentes buscam nomes disponíveis no mercado brasileiro, mas não encontram nada. O jeito é recorrer aos países vizinhos. Afinal, assim como nós, eles também sabem produzir jogadores de qualidade, e nossa economia normalmente melhor que a deles nos possibilita oferecer salários maiores aos destaques.

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Então ele chega. Nunca despertou o interesse de grandes clubes europeus, mas já passou pelas seleções de base de seu país e brilhou em algum Apertura por aí, deu umas assistências, fez uns golaços. O suficiente para chegar com status de salvador ao seu clube. Ele, o gringo craque que ninguém nunca viu jogar.

É um cara que joga no terço final do campo. Supostamente, é ofensivo, veloz, tem um bom passe, bons dribles… Falta não é sua especialidade, mas ele é gringo e é craque, provavelmente consegue guardar uma ou outra cobrança.

Logo que as especulações sobre sua chegada começaram a pipocar, você já foi procurar seu nome no Google. Os números não empolgam: ele não fez nem cinco gols no Campeonato Argentino passado, e as assistências também não são nada demais. Hora de ir para o Youtube. Fiel a seu clube, você faz o esforço de tentar ignorar a música ruim de fundo e se empolga com uma corrida aqui, um drible ali e aquele golaço, na gaveta. Parece que é craque mesmo.

O gringo craque pode não ter conseguido uma chance em um grande clube antes, mas talvez seja por falha dos olheiros dessas equipes. Ainda bem que o seu clube achou. Vai poder usufruir de seu futebol por uns dois anos e depois conseguir a maior nota que o clube formador não soube conseguir.

Então o gringo craque é relacionado pela primeira vez para um jogo. Mais um empate chato sem gols vai se desenhando, a partida já passou da metade do segundo tempo, e todo o mundo começa a cantar o nome do recém-contratado. Ele entra, toca uma ou duas vezes na bola, mas não faz nada. No jogo seguinte, mais uma vez é pedido pelos torcedores, sai do banco e não altera o jogo.

O torcedor então argumenta: “É que ele está tendo pouco tempo em campo, precisa jogar os 90 minutos”. A chance no time titular chega, de fato o gringo craque apresenta um futebol um pouco melhor, mas nada que justifique o apelido de “Novo Fulano” que recebeu.

Os primeiros jogos ruins são sempre relevados. Ele precisa se acostumar ao futebol brasileiro, se encaixar melhor no esquema do treinador. Não, o problema é o treinador! O time está bagunçado, como é que o futebol do cara vai deslanchar?

O time está arrumadinho? Tudo bem, é o posicionamento que está errado. Se o gringo craque vem sendo escalado pela ponta, na Argentina ele jogava pelo centro. Colocado no centro? Ô, professor, ele rende melhor pela ponta, descendo em diagonal!

O tempo passou, o gringo craque ainda está longe de render o que dele se esperava, e a torcida começa a perder a paciência. E é justamente quando ela está a ponto de se desiludir completamente que ele vai lá e anota aquele golaço marcante. Confiança renovada para mais alguns meses de decepção.

O gol salvador de reputação não volta a aparecer, e a torcida pede um chá de banco para o gringo craque. Depois de alguns jogos, o técnico acata a demanda popular e dá a vaga de titular para aquele meio-campista reserva que veio de um time do interior. Tão ruim quanto o gringo, mas que em algum momento pareceu ser uma opção melhor do que aquele enganador. O substituto em nada muda a equipe, e o torcedor se vê sem alternativas, senão esquecer a primeira desilusão com o gringo e pedi-lo de volta no time. Ele é o “Novo Fulano”, não é? Vai que agora deslancha de vez?!

Ele nunca deslancha, afinal não era craque coisa alguma. Havia um motivo pelo qual ninguém o havia visto antes. Com a paciência de comissão técnica, torcedores, dirigentes e imprensa esgotada, o gringo craque vai jogar na Série B ou encontra outro time em algum outro país na América do Sul. E não é que é capaz de ele aprontar contra o seu time em uma fase de grupos da Libertadores?

Foto de Leo Escudeiro

Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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