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Dinheiro é bem-vindo, mas a solidariedade vale muito mais à Chape neste momento

O anúncio feito pela Conmebol, no início desta semana, tem um valor enorme para a Chapecoense. Diante das feridas que ainda cicatrizam, a confirmação da conquista da Copa Sul-Americana serve de alento. É um afago depois de tanta dor e também uma maneira de honrar a memória das vítimas da tragédia. No entanto, oferece mais. Garante à Chape quase US$ 5 milhões em prêmios, dinheiro importante para a reconstrução. E bota o time na disputa da Copa Libertadores, da Copa Suruga e da Recopa Sul-Americana. Três torneios que ajudam bastante pelas portas que abrem. Mas que, em contrapartida, exigem muito mais de clube que recupera suas forças. Neste momento, tanto quanto oportunidades, o Verdão precisa de solidariedade e de tranquilidade para seguir em frente.

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Nos últimos dias, diversas foram as manifestações de generosidade. Times de diferentes cantos do mundo se disponibilizaram para ajudar a Chapecoense. Uns ofereceram dinheiro, outros jogadores, alguns até mesmo a chance de um confronto. Benevolência sempre é bem-vinda. Mas não é por isso que os dirigentes catarinenses precisarão aceitar tudo. Às vezes, o gesto vale muito mais por si do que o presente.

O dinheiro, obviamente, tem grande importância. É o que permitirá à Chapecoense reconstruir seu elenco e recompor sua estrutura profissional nos bastidores – embora parte das mentes que fizeram o clube ser o que é não se recuperem mais. Também dará aos catarinenses a oportunidade de ajudarem a família das vítimas, especialmente diante do cenário atual, no qual se questiona se os fundos da LaMia seriam suficientes às indenizações. Caso o seguro contratado pela companhia aérea não consiga cobrir os valores, a responsabilidade recai sobre a própria Chape. Os jogadores tinham seu próprio seguro bancado pelo clube, conforme as normas da Lei Pelé, mas talvez os alviverdes precisem arcar com consequências além. Neste sentido, as ajudas da CBF e da Conmebol, principalmente, se fazem fundamentais.

De qualquer maneira, dentro da própria organização da equipe, só dinheiro não basta. Motivação é importante. E a atitude vale tanto quanto o valor da oferta. Basta tomar como exemplo a postura do Atlético Nacional. Os verdolagas não deram dinheiro diretamente à Chapecoense, embora a postura quanto à Copa Sul-Americana tenha ajudado os catarinenses. Ainda assim, a maneira como os verdolagas se portaram e organizaram a homenagem às vítimas foi bem mais essencial. Uma maneira não apenas de confortar familiares e amigos das vítimas, mas também de permitir aos alviverdes olharem para frente. Garantiu uma boa dose de esperança. Não se mede o que os colombianos foram capazes, nem com premiação honorária da Conmebol. E, da mesma forma, outros tantos clubes ao redor do mundo estenderam suas mãos à Chape.

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A benevolência do Atlético Nacional, aliás, possui um significado muito maior que tantas montanhas de dinheiro “oferecidas” por aí. Após o acidente, surgiram diversos boatos envolvendo a Chapecoense. Inclusive, de que o PSG doaria 40 milhões de euros e de que o Barcelona reverteria a bilheteria do clássico contra o Real Madrid aos catarinenses. Notícias falsas, que ressaltam como nem tudo gira em torno do aspecto financeiro. Injeção de dinheiro por si, vazia, não leva a nada. A solidariedade pode ser doada de maneiras bem melhores, como os colombianos tanto ensinaram. Generosidade incalculável, dentro de campo e também nas arquibancadas. Se a tristeza da perda deixou um enorme vazio, foram essas atitudes que permitiram preencher o peito.

Mesmo as adesões ao programa de sócio torcedor são emblemáticas não apenas pelas quantias em si. As contribuições ajudam, mas, quando somadas, representam apenas uma pequena parcela daquilo que a Chapecoense precisará. Mas não é isso que realmente causa impacto. A questão se dá mais sobre os milhares de brasileiros que se disponibilizam e abraçam o clube numa hora tão delicada. É uma das provas mais irrefutáveis de como a Chape se tornou o segundo time de tanta gente.

Mal comparando, imagine um hospital que atende crianças com doenças crônicas. Obviamente, fazer doações em dinheiro auxiliará nos custos dos tratamentos. Mas não é o único tipo de doação que as crianças precisam. É necessário também entregar tempo e atenção para que o apoio financeiro oferecido surta efeito. Traçando um paralelo, é um pouco o que acontece com todos os profissionais da Chapecoense, seus torcedores e os familiares das vítimas. O dinheiro até garante o suporte em alguns aspectos, mas não em todos. Não em alguns dos mais importantes, como o próprio emocional.

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A partir de seu restabelecimento nestes aspectos, cabe à própria Chapecoense decidir o que é pertinente ou não para o seu futuro. Logicamente, os jogadores disponibilizados e os convites para torneios internacionais reforçam tal corrente de solidariedade em torno do desastre. Mas não bastam por si. O que a diretoria menos precisa é a pressão da cobrança. Não tem nem como abraçar todas as possibilidades. Manter os pés no chão, independente da comoção mundial que se criou, continua sendo essencial. Como o próprio presidente Ivan Tozzo declarou, a reconstrução do elenco da Chapecoense dependerá de atletas que atendam a um determinado perfil. Em suas palavras, “com comprometimento”, e não apenas que passem uma temporada de boa ação em Chapecó. É o que aborda o colega Renato Rodrigues, em seu blog na ESPN. Não à toa, a mentalidade se aprofunda também na nova diretoria, com a chegada do goleiro Nivaldo, ídolo na trajetória desde a Série D e aposentado após o acidente.

A palavra de ordem na Chapecoense, neste momento difícil e em outros tantos da ascensão do clube, é o desenvolvimento sustentável. Nunca os catarinenses deram passos maiores do que as próprias pernas. Mesmo com o menor orçamento da Série A, o ex-presidente Sandro Pallaoro não cometeu loucuras em busca da estabilidade. O foco sempre foi o trabalho. Até por isso, montanhas de dinheiro não tem tanto sentido. O mais importante é reafirmar as bases sem correr o risco de formar uma bolha. Manter a identidade. E, neste sentido, toda a solidariedade permite a Chape olhar para si sem se esquecer aquilo que é e que nunca deixou de ser, mesmo com a perda de pessoas tão importantes. A força de uma mão para o clube se levantar.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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