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A Arena Condá se transformou em templo de fé, no abraço gigante que uniu sua gente

Quando a dor é implacável, daquelas que não arrebatam o corpo, e sim a alma, o único remédio possível é um abraço. Ele não vai livrar o sofrimento de imediato. Mas vai oferecer conforto. Vai mostrar como a união pode tornar todos mais resistentes àquele pesar que rompe por dentro. Vai fortalecer os laços, para que, de mãos dadas, a vida siga em frente. À medida que o abraço se prolonga, a alma cicatriza. E o que resta é uma imensa saudade. Pode até ser que a dor da perda volte a bater, vez por outra. Ainda assim, o que prevalece é orgulho imenso do que se conviveu com as pessoas queridas que sobrevivem na lembrança.

Nesta terça, Chapecó se abraçou forte. Um abraço que reuniu milhares de pessoas nas ruas e na Arena Condá. À medida que as notícias sobre a tragédia com o avião da Chapecoense chegavam, mais e mais pessoas se juntavam à corrente. Reuniram-se no estádio onde tantas vezes gritaram alto, no início apenas para rezar baixo, em respeito ao luto geral. Mas, aos poucos, a comunhão coletiva permitiu que os ajoelhados em oração se levantassem. A memória daqueles que se despediram também pode ser relembrada no cântico a plenos pulmões. Aquele que sai da alma machucada para romper os ares e congregar o tributo em torno de uma só voz.

O que se viu na Arena Condá causa uma sensação singular. Dá aquela pontada no fundo do peito ver tamanha tristeza, tamanha comoção. Em contraste, também permite uma dose de esperança. A flor que nasce no meio do concreto. A força que as pessoas encontram juntas para prosseguir a caminhada. A Chapecoense representava demais para os seus torcedores, para a população da cidade, para a sua gente. E são essas pessoas que também podem estender a mão para familiares e amigos das vítimas. Que ajudam a cicatrizar as almas mais feridas.

Dos nomes de cada jogador ao ‘é campeão’, a Arena Condá expressou sua paixão. A procissão integrou a massa alviverde, transformou o estádio em templo e iniciou a vigília. Um grande gesto de fé. Fé na vida, porque ela ainda é boa, apesar de todas as rasteiras que nos dá. Fé no futuro, de que a dor se superará. Fé de que toda a dedicação da Chapecoense, o time valente que enfrentou até a morte, não foi em vão. E nunca foi, nem nunca será. Basta ver como Chapecó se abraçou nestas horas tão difíceis.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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