Desgaste de ídolos é a nova tendência no Palmeiras
Enfrentar uma fila de 12 anos sem um título de expressão (há controvérsia sobre o Paulista de 2008) pode gerar efeitos mais graves do que a perda da auto-estima ou a inutilização da sala de troféus. No caso do Palmeiras, o sentimento que fica é o de que qualquer jogador que demonstrar o mínimo de técnica ou empenho acima da média (do clube, diga-se), vira ídolo.
É difícil aceitar, mas a era Parmalat não será revivida. Os anos gloriosos em que os craques vinham aos montes, junto com uma porção de taças, infelizmente ficaram para trás. Desde que a empresa italiana deixou de investir no Palmeiras, raramente algum atleta considerado ótimo desembarcou no Palestra Itália. Um lampejo de grandeza e imponência aconteceu em 2009, na gestão de Luiz Gonzaga Belluzzo. O retorno de Vágner Love unido a um elenco fortíssimo trouxe a esperança de novas conquistas, enterradas no fracasso da campanha do Brasileirão, vencido pelo Flamengo.
Com a frustração, um rombo nos cofres alviverdes e novamente uma crise se desenrolou. Especialmente na Era Tirone, o Verdão se afundou em contratações quase anônimas e a aposta em ídolos do passado. Enquanto a cortina se fechava para Marcos, aposentado no início de 2012, o até então desconhecido Barcos desafiou os céticos e virou o homem gol que há muito era esperado. Apesar disso, o Palmeiras continuava com a postura de não gastar muito em reforços. Mesmo que por trás disso, salários astronômicos (Felipão, Marcos Assunção e o chileno Valdívia) inflacionassem a folha de pagamentos.
Inserido o contexto, fica a reflexão: será que Marcos foi realmente o último ídolo palmeirense que não teve sua imagem manchada por ações extra campo ou falta de dedicação à camisa? Último remanescente da equipe que conquistou a América em 1999, o goleiro encerrou sua carreira com a moral inabalada, ao contrário de outros nomes recentes.
Atitudes controversas e Malhação de Judas
O ponto é que outros candidatos ao posto de ídolo da torcida fracassaram vergonhosamente em sequer manter o status adquirido. Um caso que serve de exemplo é o de Kléber. Em sua segunda passagem pelo time, o atacante fazia juras de amor, fidelidade e prometia títulos, empenho e aquela coisa toda. Tido como referência de raça e espírito lutador, viu seu império ruir aos poucos. Brigado com Felipão em 2011, simulava lesões para ficar de fora, fazia críticas (em grande parte justas) à diretoria e jogou a torcida contra o treinador.
No fim das contas, não conseguiu ser vendido ao Flamengo e passou os últimos três meses do ano sem jogar, após acerto com o Grêmio. Depois de sua saída, seguiu disparando contra Scolari, afirmando que ele havia criado uma “família Richtofen” no Palmeiras. Imediatamente a massa palmeirense se virou contra o ex-camisa 30, que antes era Gladiador e hoje pode ser lembrado como Judas, Traidor, entre outros xingamentos. Hostilizado nas oportunidades em que enfrentou o ex-time, Kléber é persona non-grata pelas redondezas do Palestra Itália.
Depois da queda vem o aumento
Marcos Assunção foi o primeiro capitão depois da aposentadoria de Marcos. Líder natural do grupo, o volante era responsável pela bola parada, principal arma alviverde na campanha da Copa do Brasil em 2012. Autor de vários gols e assistências, o careca jogou grande parte do segundo semestre com um problema crônico no joelho. Em idade avançada, ganhou muito respeito nas arquibancadas em virtude de seu nítido esforço para ajudar a equipe. Com o rebaixamento para a Série B, se tornou uma das esperanças de ressurreição para 2013. Entretanto, ao fim de 2012, as negociações para renovação de seu contrato emperraram e ele ficou com o futuro incerto.
Em janeiro deste ano, a cada dia que passava, se tinha mais certeza de que ele não vestiria mais a camisa do Palmeiras. Pedindo um aumento exagerado no salário, o meia discursava completamente na contramão dos dirigentes, que revelavam o seu desejo em triplicar o ordenado para a disputa da Libertadores e Série B. O impasse logo ficou claro e ele não renovou o vínculo, assinando poucos dias depois com o Santos, seu clube de coração e formação. Nem é preciso comentar que toda a história escrita desde 2010 ficou pequena perto da decepção com o volante.
Tamo junto?
Desembarcando no Palmeiras em janeiro de 2012, o argentino Hernán Barcos bateu no peito e prometeu que faria 28 gols no ano. A meta foi cumprida e antes mesmo da conquista da Copa do Brasil o atacante já era idolatrado pelo seu talento e dedicação. O Pirata chegou a dizer em meados de novembro que não pensava em sair, mesmo em caso de despromoção no Brasileiro. Virou o ano e o irmão-empresário do atleta dava declarações preocupantes: se Barcos quisesse continuar sendo lembrado nas convocações de Alejandro Sabella para a seleção argentina, deveria dar no pé e acertar com alguma outra equipe.
Arnaldo Tirone bateu o martelo e garantiu que o gringo iria continuar, passando por cima da vontade do próprio jogador, que ficou bem clara conforme o tempo passava. Inconformado, chegou a declarar que não tinha certeza se iria mesmo tentar salvar o clube do inferno da Segundona. Num vídeo direcionado para os torcedores, garantiu que ficaria no Palmeiras e mandou o recado: “tamo junto”. Tanta contradição só poderia terminar em tragédia. De repente, numa manhã qualquer o Grêmio fez uma proposta pelo artilheiro, oferecendo outros cinco de seu plantel em troca. Supostamente entristecido, viajou para Porto Alegre e imediatamente se apresentou com a camisa do tricolor gaúcho. Tão logo se despediu dos colegas no CT da Barra Funda, o Pirata ficou tão queimado com os paulistas da mesma forma que Kléber.
Craque do twitter, sócio no departamento médico
Por fim, o maior desafeto possível da torcida ainda integra o elenco. Jorge Valdívia foi fundamental no título estadual de 2008 e virou figurinha carimbada na seleção chilena. O meia retornou em 2010 ao clube, um ano após ter ido jogar no Catar. Por uma fábula, Valdívia chegou para continuar uma história bonita, que se tornou em pesadelo com as constantes lesões e encrencas fora das quatro linhas. Apontado como preguiçoso e frágil, passou mais da metade de suas temporadas no departamento médico, encostado.
Em campo, muita firula e pouco futebol. Nas redes sociais, o chileno arrumava uma desculpa por dia para tentar ganhar a simpatia dos fãs, impacientes com a sua inatividade. Enfrentando de tudo, até sequestro relâmpago, Valdívia disse por algumas vezes que queria sair. Não foi atendido e o alviverde não recebeu nenhuma proposta boa o suficiente para tal. Afinal, a alta soma gasta em 2010 não seria recuperada em caso de empréstimo. Poucos dias depois do rebaixamento, se envolveu em briga com Assunção e até levou alguns sopapos. Atualmente se encontra lesionado, para surpresa geral.
O que se tira de tudo isso é que se for difícil ganhar o respeito e a admiração da torcida palmeirense, mais complicado ainda é não perder o que foi conquistado com atitudes equivocadas ou que mostrem a falta de consideração com a instituição. Em tempos de pouco profissionalismo, Rogério Ceni e Marcos são absolutas exceções. Quem quer que se proponha ao posto de ídolo, tem de fazer por merecer. Os quatro exemplos supracitados deixam claro que não é só talento que desperta admiração, mas também um pouco de caráter.