Antes do amistoso contra a Itália, Felipão só teve três treinos para moldar a sua nova versão da . É natural que avaliemos (e cornetemos, por que não?) o que foi apresentado até aqui, mas importante que nos prendamos às ideias apresentadas e não à sua execução. Afinal, é muito pouco tempo de trabalho. Fico imagino quantos cavalinhos saltitantes Rinus Michels conseguiu implantar no seu carrossel em apenas três períodos de atividades com os seus comandados. E olhe que Felipão não é nenhum exímio estrategista como o holandês, embora isso não o tenha impedido de seguir carreira amplamente vitoriosa como treinador.

A grande novidade na equipe para o jogo de ontem foi a escolha por um esquema que nunca havia sido adotado de forma tão declarada na seleção brasileira: um 4-4-1-1. Uma mudança ousada até mesmo para o estilo de Scolari, que talvez só tenha flertado com uma disposição assim em sua curta passagem pelo Chelsea, membro de uma Premier League onde as famosas “linhas de quatro” eram ainda mais predominantes. O esquema apresentou muitos defeitos, justamente porque sobraram espaços entre a linhas de defesa e meio-campo, algo evidenciado principalmente no lance do gol de empate italiano, quando Balotelli teve liberdade para dominar, carregar e preparar o chute a gol.

Mas nem tudo são espinhos. O ponto mais positivo da exibição de ontem foi ver que o processo de desencaixotamento de continua em andamento. Na reta final da era Mano Menezes, o camisa 11 já apareceu em alguns momentos como falso nove. Tanto porque Leandro Damião e Alexandre Pato não conseguiram marcar território, quanto porque algo precisava ser feito para evitar que o atacante santista ficasse aprisionado em uma armadilha cada vez mais comum. Em 2012, não foram raras as vezes em que Neymar rendeu menos do que o desejado em jogos mais duros do Santos e da seleção, quando acabava cercado entre lateral, zagueiro e volante adversários.

Por mais que seja interessante ver alguém veloz e habilidoso atuando como ponteiro e cortando para o meio, é um desperdício quando ele acaba adotando aquele lado como curralzinho e não sai mais de lá para quase nada. Messi poderia ter virado esse cara, caso Guardiola não tivesse adaptado ele a um novo posicionamento, no qual estourou de vez como melhor jogador do planeta. Gareth Bale tem passado por processo semelhante no Tottenham e vai muito bem, obrigado. Contra a Itália, Neymar flutuou atrás de Fred, o que serviu para lhe tornar mais participativo e também para que ele pudesse carregar a marcação para um dos lados, abrindo espaço no outro. Foi assim que saiu o gol de Oscar.

Bom para Neymar. Mas e para os demais?

Felipão promete insistir nessa ideia. O que não deixa de ser corajoso, já que ele poderia manter a equipe em um 4-2-3-1, ou até mesmo apelar para um 3-5-2 à imagem e semelhança daquele de 2002 (aliás, algo me diz que ele ainda vai parar nesse esquema, mas é isso assunto para outra teleaula). Ótima notícia para Neymar, mas que trará novas exigências a todos que formarem a linha de quatro do meio-campo. Hernanes e Fernando estiveram bem na saída de bola, mas mostraram claro desconforto na marcação, por exemplo. A boa notícia é que em um esquema assim, brucutu não se cria. Um alívio para quem ainda temia que Scolari tivesse uma recaída galeânica.

As maiores dores de cabeça, no entanto, ficarão para aqueles que atuarem pelos lados. Não necessariamente pela atuação desastrosa de ontem, Hulk terá de se desdobrar para se adaptar à função, que exigirá mais recomposição defensiva do que o 4-2-3-1. Por outro lado, Oscar parece ter a inteligência necessária para executar tal papel, fora que sua presença em campo ainda permitiria mudanças táticas durante a partida. Se há uma disputa não anunciada entre Kaká e Ronaldinho por um lugar no grupo, talvez ela seja desfeita, já que o gaúcho estaria muito mais credenciado a fazer as vezes de Neymar do que a trabalhar no lugar de Oscar.

Jogadores como Osvaldo e Wellington Nem, por mais esforçados que sejam na marcação, não receberiam chances. Enquanto a vitalidade demonstrada por Bernard no Atlético-MG e Ramires na campanha do Chelsea campeão europeu pode colocá-los nessa disputa. Para o ex-cruzeirense, seria fundamental, já que o novo esquema não o favorece como volante. Coincidência ou não, o novo esquema de Felipão se assemelha ao que Tite anda aplicando no Corinthians. O que na teoria é um 4-4-2, ganha momentos de 4-4-1-1, quando um dos atacantes (preferencialmente Pato) sai da área para buscar jogo.

Além de Pato, Paulinho e Ralf podem lucrar com tal semelhança, pois estarão mais habituados a esse posicionamento. Renato Augusto, que vem se destacando como meia aberto pela direita, pode também se aproveitar da tendência, por mais que hoje pareça estar bem atrás na disputa. Lucas Leiva e Philippe Coutinho não despertam suspiros na torcida, mas poderão ser observados pela comissão técnica, caso o Liverpool deslanche (o que parece muito improvável) mantendo o esquema atual, onde Suárez funciona como Neymar. Para ganhar a posição na direita, Lucas teria de parar de reclamar sobre Ibrahimovic e grudar em Ancelotti para aprender mais sobre como ocupar espaços e acompanhar o lateral adversário. O que, aliás, vinha fazendo em seu começo no PSG, antes de cair de produção.

Ou seja, a mudança de esquema abre todo um leque de novas possibilidades e dores de cabeça para vários jogadores. Os que andam pedindo por Zé Roberto na seleção teriam mais um motivo para acreditar no veterano, por exemplo. Mas cabe a pergunta se Felipão terá tempo hábil para efetuar essas mudanças. Terá uma sequência de treinamentos e jogos para entrosar a equipe durante a Copa das Confederações, é verdade. Mas o mundo cairá nas suas costas caso os resultados não sejam positivos.

Importante dizer que o maior culpado disso tudo não é nem Felipão, que ainda engatinha no cargo, nem a herança deixada por Mano Menezes, mas sim quem escolheu o momento mais inadequado possível para recomeçar o trabalho do zero, com a mesma petulância com quem usa o site da CBF para se defender de acusações pessoais. Mas como diria o título de um certo filme que está em cartaz: vai que dá certo! No Brasil, o improviso é sempre permitido, contanto que seja bem sucedido.