Valeu a pena para a Portuguesa Santista jogar a Copa do Brasil?
Briosa escolheu disputar a milionária competição da CBF após título da Copa Paulista e foi eliminada na primeira fase
Campeã da Copa Paulista em 2023, contra o São José, a Portuguesa Santista tinha o direito de escolher entre disputar a Copa do Brasil ou o Campeonato Brasileiro da Série D neste ano e optou por competir no milionário torneio da CBF, que na primeira fase de 2024, pagou aos times da faixa de R$ 787,5 mil em premiação pela participação. A Briosa foi eliminada ainda na estreia para o Caxias, ao ser derrotada por 1 a 0 em jogo disputado no Ulrico Mursa na noite desta quarta-feira.
A reportagem da Trivela conversou com o técnico da equipe, Sérgio Guedes, que fez um balanço sobre a participação da Briosa na Copa do Brasil e sobre os motivos que fizeram a diretoria do clube optar pela escolha da disputa da Copa do Brasil.
Atualmente, a Briosa conta com três patrocinadores principais: o Litoral Plaza Shopping, o Grupo Mendes e a Terracom, três empresas com atuação majoritária na cidade de Santos e investem R$ 500 mil reais mensais para custear o clube. É bem verdade que o valor da premiação da Copa do Brasil, se bem administrado, é suficiente para conseguir arcar com os custos administrativos da equipe por um mês tranquilamente. Contudo, a eliminação precoce na competição deixa a Portuguesa Santista somente com a disputa do Paulista A2 e da Copa Paulista para disputar em 2024.
Dentro deste cenário surge o questionamento: valeu a pena a Portuguesa Santista optar pela disputa da Copa do Brasil em detrimento do Brasileirão Série D? O São José, a Águia do Vale, por mais que não tenha sido beneficiado com a bela premiação de participação da competição milionária da CBF, terá um calendário competitivo muito maior. A primeira fase da quarta divisão do Campeonato Brasileiro começa no dia 21 de abril e vai até 29 de setembro.
Já o Campeonato Paulista A2 terá a sua disputa até o dia 14 de abril, quando será disputada a segunda partida da decisão, enquanto a Copa Paulista, caso siga o mesmo calendário de 2023, começará no dia 30 de junho e terminará em outubro.
Portuguesa Santista revive Copa do Brasil após 20 anos em noite de futebol raiz e PIX bloqueado
GE passou o dia no clube acompanhando os bastidores antes, durante e depois da partidahttps://t.co/QCWjdHrnAi
— Portuguesa Santista (@Port_Santista) February 29, 2024
Portuguesa Santista pode usar o prêmio da Copa do Brasil para investir na Copa Paulista
A Portuguesa Santista pode utilizar a premiação conquistada na primeira fase da Copa do Brasil para formar um time competitivo e brigar novamente pelo título da Copa Paulista. Neste cenário, o time da Baixada Santista teria novamente o poder de escolha para definir se disputaria a Copa do Brasil visando arrecadar mais, ou disputar o Campeonato Brasileiro da Série D.
Para Sérgio Guedes, a diretoria do clube optou pela disputa da Copa do Brasil visando a montagem de um elenco mais forte para o segundo semestre. O treinador lamentou as chances desperdiçadas diante do Caxias, que tem sido um problema do time durante a temporada, e afirmou que a volta da participação do clube na competição após 20 anos foi importante pela experiência e abre espaço para novos desafios no futuro.
“A escolha talvez tenha sido mesmo por causa da falta de dinheiro pra fazer o segundo semestre melhor, né? Eu não sei, não me falam, mas imagino. E o sentimento é que poderíamos ter passado, né? Foi um jogo muito parelho. O time jogou bem, a gente tem enfrentado algumas dificuldades aqui no cotidiano. E a gente tem conduzido a coisa em bom termo. Fica aí de novo um aprendizado de uma oportunidade que poderia ter sido melhor vivida por todos”, afirmou o treinador da Portuguesa Santista.
A Briosa hoje é um clube muito mais estruturado do que em 2004, data da última participação na competição nacional, com uma situação financeira saudável, dentro das suas limitações e com condições de se manter de pé caso opte pela disputa da Série D visando um calendário maior. Por mais que a participação na quarta divisão nacional não seja atrativa, principalmente por conta da irrisória “ajuda” que a CBF dá aos clubes, do ponto de vista financeiro, participar da Copa do Brasil foi realmente a escolha mais sábia por parte da diretoria da Briosa.
O grande problema é: o que acontece com este grupo de jogadores que pode ficar sem calendário a partir do meio do ano? Sem datas para disputar, boa parte dos atletas devem ser dispensados, influenciando diretamente no entrosamento do time para a disputa de novas competições. Por mais que a Portuguesa Santista dispute a Copa Paulista este ano, no caso de uma eliminação inesperada, como foi na Copa do Brasil, a Briosa pode ficar em uma situação mais delicada para se manter e tenha que rever seu planejamento.
Sérgio Guedes teme por um reajuste brusco no elenco ao final da disputa do Campeonato Paulista A2, o que pode impactar diretamente no desempenho do time no segundo semestre do ano. Segundo a previsão do treinador, mesmo o dinheiro arrecadado com a disputa da Copa do Brasil não será suficiente para grandes contratações e o desafio da diretoria será manter a base do time para a disputa da Copa Paulista.
“Agora é vivenciar de novo a Série A2, né? E ver se a gente consegue harmonizar, o time não tem jogado mal, tem tido alguns resultados. Importantes, mesmo quando não venceu, eu não acho que foi fiasco, é que a gente tem limite, não tem orçamento para contratações impactantes, né? E a gente aguarda ainda um ajuste, um entrosamento, uma situação ou outra que possa nos dar margem para que a gente possa se classificar”, enfatizou o treinador.
- - ↓ Continua após o recado ↓ - -
“Ajuda” da CBF é baixa e serve apenas para tapar buraco nos clubes menores
O São José, vice-campeão da Copa Paulista e que virou SAF recentemente, tem uma dívida de pouco mais de R$ 17 milhões de reais e terá a oportunidade de disputar uma competição nacional após 27 anos. A última vez em que a Águia do Vale esteve em alguma divisão do Brasileirão foi em 1997, quando disputou a Série C. Estruturado financeiramente, assim como a Portuguesa Santista, a equipe comandada por Ricardo Costa voa alto no Campeonato Paulista A2 deste ano e tem chances de voltar à elite paulista após 25 anos.
Na Série D deste ano o São José terá uma contribuição até certo ponto pequena para os custos de administração do clube. Se seguir a mesma divisão do ano passado, a Águia do Vale receberá R$ 300 mil reais em três parcelas de R$ 100 mil na primeira fase. Caso avance na competição, pode ir somando mais R$ 100 mil reais, o que pode se tornar um montante de R$ 800 mil caso seja campeão. Este foi o valor arrecadado pelo Ferroviário-CE, campeão da última edição.
A CBF investiu 50% a mais do que em 2022 e tenta vender a imagem de que está se esforçando para fazer do futebol um espaço mais democrático, com condições mais igualitárias aos times de menor expressão. Acontece que os custos para disputar a Série D é muito maior do que o valor “doado” pela entidade máxima do futebol brasileiro, fazendo da disputa da divisão atrativa somente pelo calendário de disputa.
Custo da disputa da Série D é alto
O Villa Nova-MG gastou aproximadamente R$ 3 milhões de reais para disputar a Série D. Pelo segundo ano consecutivo, o Leão do Bonfim optou por não participar da competição devido ao alto custo, principalmente logístico, para a disputa do torneio. Os clubes que não conseguem arrecadar com bilheterias, mesmo com um trabalho forte de marketing e dependem única e exclusivamente do apoio da CBF para a disputa de uma divisão, sofrem ao optar pela quarta divisão nacional, justamente pela dificuldade de se manterem saudáveis financeiramente.
Um exemplo disso foi o Aimoré do Rio Grande do Sul, que eliminou o Cuiabá na primeira fase da Copa do Brasil em 2018, usou o dinheiro para subir para a elite do Campeonato Gaúcho e após três disputas seguidas na Série D, não teve recursos suficientes para se manter e está em uma situação econômica bastante comprometida. Para o São José é importante utilizar a competição para chamar seu torcedor para arrecadar com bilheterias e usar seu forte nome no interior paulista para conseguir mais apoio e patrocínios para buscar o acesso e assim angariar mais recursos oriundos das divisões superiores.
Do ponto de vista financeiro, é claro que a Copa do Brasil é muito mais vantajosa que a disputa do Campeonato Brasileiro da Série D. Entretanto, pensando a longo prazo, é interessante que os clubes pensem em uma agenda competitiva no calendário brasileiro, seja para manter contratos de patrocínios mais longos e pensar em se estruturar nas divisões menores.
Exemplos de times que adotaram isso não faltam, só em São Paulo, o Mirassol, o Novorizontino e mesmo o São Bernardo entenderam a importância de se estruturarem e valorizar o calendário nacional para conseguir almejar passos mais largos no cenário competitivo.
A Portuguesa Santista, a curto prazo, resolveu boa parte dos seus problemas ao disputar a Copa do Brasil. Os quase R$ 800 mil reais que o clube ganhou como participação na primeira fase pode fazer a alegria do torcedor e da própria diretoria no restante do ano, mas será o suficiente para o futuro do clube?



